domingo, 14 de maio de 2017

Como se faz um mestre? - Capítulo 7

Do desespero

Há muito tempo não escrevo aqui no blogue. E o que me traz a escrita aqui de novo é a falta de perspectivas para fechar o necessário para a qualificação no mestrado num prazo de dois meses. Talvez porque, até o momento, não consegui me tranquilizar e pensar o que é necessário, de fato, e experimentar fazer.

Qualificação, caso você não tenha passado por uma pós-graduação em nível de mestrado ou doutorado, é uma espécie de avaliação anterior à defesa da dissertação propriamente dita que tem duas funções, essencialmente: avaliar os encaminhamentos dados até então no trabalho e sugerir melhorias durante o desenvolvimento do trabalho.

Na pós-graduação que faço, é obrigatório fazer a qualificação até determinado prazo. Não a realizar até esse momento implica estar fora do programa. E o meu temor, precisamente, é ficar fora do programa.

O que é exigido para a qualificação? A princípio, pouca coisa: uma introdução e o primeiro capítulo pronto, além de um esboço do esqueleto dos demais. O mais difícil, pode-se imaginar, é o capítulo. E o é, de fato. Mas quando você não tem nada ainda, que fazer?

É precisamente nesse ponto que me encontro.

Mas, o que falta, efetivamente?

Bem, não me recordo se em minhas postagens já expliquei o que estou pesquisando, mas o faço aqui. Minha pretensão é traçar um panorama da identidade profissional jornalística entre estudantes de cursos de graduação em Jornalismo de Santa Catarina, professores e egressos dessas instituições.

Então, falta desenvolver um texto que dê conta, em termos teóricos, dessa noção de identidade profissional, e da metodologia proposta para a elaboração desse panorama, que é um survey, enquete ou "pesquisa de opinião" - este último termo muito pouco significativo a meu ver. Já tenho algumas coisas escritas, mas sem muita convicção.

Fora isso, embora não seja algo exigido para a qualificação, eu gostaria de ter também um teste prévio do questionário - que também precisa ser estruturado - para ter um retorno da banca de qualificação quanto às questões propostas e ao cenário de mudanças possíveis.

É muita coisa, porque envolve, além da preparação do próprio questionário, uma autorização da instituição a ser pesquisada e um retorno e avaliação a tempo da entrega do texto de qualificação que, não esqueçamos, é de dois meses (e ainda estou sendo generoso).

Que Deus me ajude.

Sidney Azevedo
Arrancando os cabelos
(Serenidade, onde andas?)

domingo, 25 de setembro de 2016

Filosofia assistemática

A profecia contra as batatas do vencedor

Quando eu estava no ensino médio, sempre havia alguém para perguntar o que eu iria cursar. E a primeira resposta que me vinha à cabeça era filosofia. Porém, a resposta que a pessoa ouvia raramente era filosofia. Por quê? Bem, eu imaginava que a réplica seria algo do tipo: “Filosofia? Não seria melhor fazeres algo que dê dinheiro?”. Ganhar dinheiro... Filosofia parecia indicar um caminho de indigência. O destino zombeteiro estava no meio termo entre o andrajoso Quincas Borba - que, apesar de pobre, dizia com seu humanitismo que as batatas cabiam à tribo vencedora - e os profetas bíblicos - que se afastavam da sociedade para lê-la com maior clareza e denunciar os seus pecados.

(Sim, as referências não são à toa. Eram parte do que catei de leituras, conversas e rezas até então na minha história.)

Não sei o quê, exatamente, me chamava atenção na filosofia. Talvez o entusiasmo com que os professores se referiam ao fato de algo simples como pensar (sim, já reparastes como pensar é algo simples?) ser capaz de mudar o mundo. Geralmente a gente começa ouvindo a voz de Platão e de Aristóteles. Mais tarde comecei a perceber que, para que o pensamento mude o mundo, não basta pensar, mas exprimir esse pensar, argumentar, saber que valores sustentam o pensar. Questionar os valores, se preciso for. E penso que um dos valores que eu questionava era a necessidade de estudar algo que rendesse dinheiro.

Hoje entendo que isso é resultado de uma especulação que fazem com o futuro das pessoas. Há gente que quer ganhar dinheiro com as preferências de estudo individuais. Preferências, ali, deveria estar entre aspas. Mesmo com o ensino de filosofia sendo obrigatório, eis-me aqui jornalista hoje. Alegam que essa nova proposta de ensino médio, tenha ela ou não filosofia - uma vez que já disseram não ter tendo instantes em seguida voltado atrás... - visa evitar a evasão escolar. O argumento parece ser: “A escola é chata, então o jovem sai da escola. Para que o jovem fique na escola e não incomode com sua presença a paisagem urbana podemos dar a ele a oportunidade de escolher o que estudar, não?”

(Se, eventualmente, não entendeste o que significa “paisagem urbana”, leia “rua”. É que com “paisagem urbana” talvez pareça mais claro que aquele argumento, fictício ou não, não se dirige tanto a quem mora fora de condomínios.)

Oportunidade de escolha... Soa bonito, não? Infla a sensação de liberdade ao sujeito. Parece mais um supremo triunfo do super-homem nietzscheano. Permitam-me, aqui, levantar o indicador e também um porém. Esse super-homem mover-se-ia no interior de barreiras desenhadas por outrem? Reparastes que a oportunidade de escolha ainda assim te fecha na escola? Isto é, a escola seguiria chata e a motivação para a evasão também. A preocupação não é com a evasão. Muito menos com promover a liberdade.

Liberdade, aliás, não vos parece um conceito muito, digamos, espaçoso? É uma ideia evocada para justificar muitas coisas. Recorda-me a promessa em geral ligada à ideia de felicidade. Ser feliz e ser livre parecem-me coisas possíveis. Mas a reificação dessas sensações geram conceitos perigosos e sufocantes a quem os almeja. Não é difícil perceber um discurso mais ou menos nesta direção: “A felicidade está atrás deste curso”; “Este é o caminho para a construção da sua liberdade”… Já faz algum tempo gosto de evitar estas duas palavras. Alegria e autonomia não são surreais. Têm caráter contingente, é verdade - a primeira em termos de duração; a segunda em termos de limites -, mas são alcançáveis.

E foi dentro do limite dessa autonomia que caí no jornalismo. Haviam-me dois limites mais claros. O primeiro era o fato de Joinville não ter um curso de filosofia à época. As opções mais próximas eram Curitiba e Florianópolis. Mas eu não conseguia me imaginar morando tão longe (e às vezes me pergunto se aos filhos de operários, outrora gente do campo que as circunstâncias levaram a se estabelecer em Joinville, essa não seja uma mentalidade comum). A segunda circunstância era financeira. Dentre os cursos disponíveis pelo Prouni o jornalismo era o mais próximo à filosofia que eu encontrei.

(Lembro-me que havia poucos cursos disponíveis em Joinville então, e a maior universidade nem disponibilizava vagas para o programa, sendo que havia limites dentro de outros limites.)

Se eu tivesse seguido as pressões sociais (e a principal pressão social se manifestava pelo que minha mãe queria) eu seria hoje advogado ou engenheiro. Dentro dos limites que me haviam, escolhi o que julguei mais próximo da filosofia e não me arrependo.

Não sei, porém, se eu seria um bom filósofo. Nem se seria um bom estudante de filosofia - uma vez que, a rigor, a filosofia se faz do pensar. Mas todas estas linhas desencontradas vêm por conta da menção feita a desobrigar os estudantes do ensino médio de cursar a disciplina de filosofia. Digo menção porque mesmo a simples menção soa como um teste. O que penso sobre tudo isso é que falta o estímulo ao pensar. Privar o estudante de pensar é o maior crime. E quase todas as coisas que se ouve remetem à possibilidade mais intensa de privação do pensar. Já se é privado de pensar no trabalho, e, mesmo quando se pensa, em geral é algo guardado para si.

(Será taxado de louco alguém que grite no coletivo: “Vocês não se fartam disso tudo?”, da mesma forma que aquele que insere tantos parágrafos entre parênteses).

O governo federal da Transilvânia (perdoem a piada, parece-me inevitável imaginar o "presidente" de capa e o "chanceler" com dentes pontudos) parece ter uma pretensão bizarra de privar do pensamento por meio de um discurso de liberdade. Mas talvez haja um sentido nisso. Matam a autonomia para que haja liberdade, no sentido pleno do termo, a grandes grupos e empresas educacionais, nacionais ou não. Isto seria dar as batatas ao vencedor. E o vencedor é propriamente um super-homem? Bem, isto varia de como se lê Nietzsche. Mas penso que não. O super-homem seria o homem que, mesmo dentro de tantas barreiras, consegue chegar ao pensar. Seria aquele no qual Deus (desculpe, Nietzsche, mas ele não está morto) age de forma a despertar a consciência em meio às correntes e profetizar.

Privar alguém de pensar é uma forma de escravidão. Será preciso batalhar para pensar? Espero não precisarmos chegar a esse ponto.

Sidney Azevedo
Pensamento desorganizado
(a ver...)

sábado, 7 de março de 2015

Sobre insegurança

Verme

Há um verme no interior de cada alma.
Rói aquela confiança duramente conquistada
Ao lembrar, tão-só, que tudo pode ruir.

Ah, verme maldito. Por que agora?

Já há tempo me julgava livre de ti!
Quando mais seguro me sentia
Reapareces com esse risinho fodido.

É tão simples pisar-te!

Pisar-te! Esmagar-te! Destruir-te!
Porque ao redor tudo já parece tranquilo.
Cá dentro, porém, tu ainda me atormentas.

Grande filho da puta!

Quando se abre o teu sarcasmo, irritas-me.
Tu o sabes. Isso sabes. Sabes bem...
E sabes que minha raiva é controlada.

Não o é. Aparenta, desgraçado!

Vá-te, infeliz! Não se vive de insegurança.

Sidney Azevedo
Alegre e amado
(Descobrindo-se)

Ressaca moral

Ressaca moral

Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral. Ressaca moral.

Ressaca Moral.
Ressaca moral.
(Ressaca moral)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Um teste à guisa de poema

Há não, não há?

Há dias.
Há um fantasma.
Disque.
Pulso não há.

Por que é preciso pulso?
Por que é preciso domínio?
Por que é preciso se impor?

Impor-se? Que raios é isso?
Não o sei.
Sei que valorizam.

Valorizando, parecem gostar de um mundo espremido.
Eu não gosto.
Gosto de espaço, de folga, de pensar.

Não sei responder às provocações que me fazem.
Não sei ser criativo.
Não sei nada.

Há cinco nãos no texto acima.
Nãos frouxos, parecem.
Não vos parecem frouxos?
Ou para vós o não é sinal de firmeza?

Mas, que tal aquele não dito entre dentes?
Pensado, tão somente.
Perdido entre as sinapses e o dizer.
E encontrado transformado em raiva, instantes depois.

O não é pouco, todavia.
Olhem como há pouco pulso nisso tudo.
Pouca resposta.
E, pior, poucas perguntas.

Dói.

Sidney Azevedo
Confusões
(Alertas?)

domingo, 19 de outubro de 2014

Sobre argumentos eleitorais - Capítulo 1

Alternância de Poder

Tenho ouvido de muitas pessoas que votarão no atual candidato de oposição a justificativa de que o farão por conta da defesa de uma "alternância de poder".
Mas, que é alternância de poder?
A coisa é, basicamente, a troca de um governo por outro que esteja na oposição. Parece-me que os defensores dessa ideia entendem que a estabilidade democrática só é possível mediante a troca periódica dos líderes e dos partidos que estão no Planalto - sim, porque é de Planalto que falamos aqui*.
Mas será que a alternância é realmente o alicerce para a estabilidade democrática?
Há uma tendência de se relacionar qualquer governo que se estenda muito ao termo "ditadura", porque o conceito de ditadura corresponde, em geral, à manutenção contínua de um mesmo governante no poder.
Como exemplo, podemos citar os franquistas dominaram a Espanha por 36 anos (1939-1976). Salazar governou Portugal por 41 anos (1933-1974). O regime militar, no Brasil, durou 21 anos (1964-1985). Somando o tempo de todas as ditaduras da América Latina citadas na página em português da Wikipédia do verbete "Ditadura", chegamos à média de 19 anos.
Mas tal continuidade NÃO é o aspecto que define uma ditadura. A página define ditadura como um regime essencialmente não democrático, o que corresponde a não existir uma partição do poder efetiva em instâncias distintas (legislativo, executivo e judiciário) e à restrição a determinados partidos e à participação da sociedade civil.
Restrição não é o que vemos na eleição atual. Eram dez partidos disputando a presidência no primeiro turno. Do conservadorismo burlesco de Levy Fidelix à verve comunista de Mauro Iasi. Chamar o que se vive no Brasil de ditadura é, no mínimo, muita ignorância (no sentido de falta de conhecimento).
A estabilidade democrática se constrói mediante o fortalecimento do processo democrático. Isto é, que as eleições sejam verdadeiramente um processo de debate de ideias e que o povo possa manifestar sua preferência por uma das opções a partir de tal debate. E se a população entende que é melhor manter o atual governo, qual o problema? Uma vez que ele se comprometa a manter a manter a democracia, e pelo que tenho visto, é a intenção da candidata à reeleição, parece-me bastante justo.
Nesse sentido, entendo que a escolha do povo se dá conforme tal debate, à medida que ele acontece. Para isso, todavia, é preciso uma descentralização da grande mídia, a possibilidade de acesso dos movimentos sociais organizados a ela, a afirmação de iniciativas como o marco civil da internet, entre outras coisas.
A alternância de poder, pois, não me parece, em si, justificativa sensata para votar em Aécio.

Sidney Azevedo
Reflexão esparsa
(Por favor...)

* Cabe, aliás, observar que nos estados, ao menos nos mais próximos, não me parece que a alternância de poder seja, de fato, argumento para votação. Aqui em Santa Catarina, onde moro, sinto que a fidelidade a uma determinada linha político-partidária seja, talvez, mais definidora nesse aspecto do que qualquer outra coisa.