sábado, 29 de dezembro de 2007

Encucado

A pipa de polietileno

Pipa de plástico rasante é,
mas se destrói fácil'em um rasgante.
- A de papel se vai do mesmo modo!
Diz o replicante menino velho.

É uma rima inacabada que fiz ontem. Era para ser a segunda estrofe de um soneto. A métrica até me parece correta. Mas me exigiriam rima e, num tão exíguo espaço. Desisti, naturalmente, foi para a gaveta do mundo paralelo da idéias que Platão não mencionou devido a um dia de sono por alguma bacanal à grega em Siracusa - porra!, o cara era funcionário público... -, colónia emérita de Élida - intencional o acento à portuguesa...
A idéia, entretanto, não me vôou, e a pipa plástica não rasava o céu. Não a vi depois daquele dia. Que era feito daquele hábito florestano? Se espatifou duramente contra o teto de alguma casa? Já sei!: os bambuzais tornaram-se área de preservação ambiental. Não, não me parece. Ai, e agora..., será mesmo que... não há? Deixou de ser gosto soltar pipa, ou os garotos já deixaram de montar suas pipas para fazer renda num banco imobiliário? Não, Eles nem conhecem esse jogo. Vêem seus pais jogar o autêntico banco imobiliário com as leis de Keynes, de Friedmann e Smith.
Não, isso é plano de uma superseita iconoclasta, que descobriu nas pipas uma cruz, e quer livrar o mundo do cristianismo adorador de imagens... Não, ah!, não sei. É demais para mim. Mas, pipa de plático foi a gota de uísque...

Sidney Azevedo
Só para não enferrujar o blogue...
(e a escrita também)

domingo, 23 de dezembro de 2007

O aracnídeo verde 2

Tudo se encaixa... Mas eu não sou conspiracionista, eu não sou conspiracionista.

O pó anda alto aqui neste blogue, mas, para um desfecho de natal, e apesar de prenunciada uma novelinha chamada o aracnídeo verde, vejo que aquilo que só deveria ser uma crônica viraria muito mais. Eu sei que minha escrita é incompreensível em muitos momentos. Mas é isto. Hoje, faltam 2 dias, é, dois dias para o Natal. Bom, para o meu natal, 4 dias... E o raio da aranha apareceu novamente. Não creio que tenha vindo estragar estes dois natais.
Ela está aí para dar um aviso. Ela não fala português, latim, italiano ou coisas que se possa entender.
Opa, ela diz que há mais coisas ocorrendo: ela passou por uma mutação, aquela causada quando um poluente caiu no rio. Quando a Simba começou a produzir pipas de plástico. É um prenúncio, a aranha é profeta. Mas dona de uma verdade que ninguém gostaria de portar. Disse que uma sua companheira azul foi à casa de um vizinho meu ao lado. Ele me contou que PAF! matou o pobre aracnídeo. Disse que ele era malvado e que era venenoso, pois dizia na revistinha que quanto mais colorido o animal mais venenoso ele é.
É verdade, e eu vi um bicho bastante colorido. Ele era vermelho, no meio cortado por uma faixa negra, limites brancos. Não, não era um aranha desta vez. Era uma cópia malfeita de Nicolau. Bastante venenoso. Não, não o senhor vestido da indumentária de, como é mesmo que se chama... Papai Noel. Isto sim é venenoso. Atiça as crianças a querer presentes cada vez mais, mais, mais. E as empresas que os produzem a poluir. Não digam depois que os aracnídeos não estão por aí...
Quando o Natal era brincadeira de casa (digo de família), não havia disto. Mas, que é família hoje mesmo? A presepada unia, e deixava algo a se fazer. Não havia tevê.
Bom, alguns se podem sentir felizes em estar num mundo de lobos. Bom, mas fica p'r'amanhã, que hoje é tarde. Até!

Sidney Azevedo
Um feliz - ou nem tanto - Natal.
(E que o MEU natal seja também bastante feliz...)

domingo, 16 de dezembro de 2007

Finda tu o ano!

Férias? Pobre de ti se não as tiras!



O que foi posto à guisa de título é o melhor argumento que já vi para defender as férias. São, como qualquer outra coisa, imposição. Não é algo natural. Está aí por que uma lei garante-as.
Ora, férias!... folgazão vai à praia, se torra e volta dizendo que foi bom... E foi? Foi por que o roteiro é já conhecido...
Ora!, ide tomar banho! Não, não no mar!!!

SPLASH!
Água salgada veio até aqui.
Mas não se cansam de repetir...
Não, não as vou desmantelar. Não é preciso. Qualquer um pode aperceber que não são nada de muito especial...
Fosse o mar a atrair as pessoas! Haveria poetas aos quintilhões. Mas não é.
É o medo de se estar sozinho na cidade. De pensar, e de muito pensar de ficar louco...
LOUCO!
Pois a paranóia é a primeira loucura.
Ah, já chega, depois de 8 dias, a cabeça anda enferrujada. Sem boas tiradas hoje!
Até, aos leitores desse monstro.
E uma imagem, coisa que a muito não aparece, da verdadeira féria, daquilo que só faz pensar nas... férias!


Sidney Azevedo
Em período de...
(... trabalho! Descreditem...)

Família: papai, mamãe, titia... Titia?

Casas

Casa e família são a mesma coisa.
A casa de Bragança,
A casa dos Habsburgo,
A casa de Avis,
A casa de Azevedo.
A casa de carrara de Mármore
Ou de ônix de Pedra.
Mas são todas feitas de podre de Madeira,
da ilha da Madeira,
ou daquele incômodo causado pelo açôr ao comércio...

Casa podre, de três alicerces limites,
que se precisam separar para agüentar a construção.
se vêem divididos pelo exíguo apartamento.
Um sai a trabalhar,
Outro a labutar,
Os terceiros brincam de calar...
Pois não mais há casas!,
há gente junta sem saber por quê,
Sem o ter pedido.
E se casa é família,
Logo...

Logo já foi...
Logo se espera nova mudança.
Logomente, entretanto, muitos e um não são um só,
E só por se não verem assim!
Logomente por que é óbvio,
e quem não aceita isso, deve ser expulso.
Renegado? Não!...

!
Não se é mediano...
Família há que se junte só para existir.
Para poder ser um sendo isto próprio.
Colectivo?
Como ser grupo se já não se sabe que é isso?
Ah, mas se sabe para conseguir objectivo.
Mas tem tudo - raios!... - de ter um fim?

A casa de Stewart,
A casa das Astúrias,
A casa branca,
A casa rosada,
A casa do torto,
A casa de Belém...
(A de Belém?
Também?
É..., também a de Davi)
Perguta-se: são casas.
Se casa é família, não o são.

Há família que não sabe o que é
A família não sabe o que é.
Que é família?
Eu não sou!...
Somos? Não sei...

Sidney Azevedo
Finda a barba,
(se vão com ela as metáforas,
e o poema é mais uma dissertação, ficou bom?)

sábado, 8 de dezembro de 2007

O Antibelo

Um antíKant
A busca da beleza deve estar livre de preconceitos e estereótipos”.
– ?
Eis algo… O quê, aliás? Mais um eslogam da Natura. E não me venham reclamar da adaptação da palavra, por que o termo deste texto é a adaptação da frase a uma autêntica antipossibilidade.
A beleza é já de si um preconceito, pois exclui a feiúra, independente de como sejam consideradas essas duas coisas. E exatamente por seu hábito de classificação, a beleza é um estereótipo. A frase prova ser contraditória. Mas é verdadeira, e o porque, como me dirão, é óbvio.
A beleza não será preconceituosa se estiver num “espaço ideal”, num vácuo, de outras coisas. Mas, então, não é beleza, posto que não há feiúra. A beleza não se irá distinguir neste espaço exíguo e infinito. Mas não creio que ter atingido a intenção da frase.
Mas qual será, raios!…
Preconceito pode ser um conceito pré-moldado. Eureca!, ID EST: beleza e feiúra são consideradas como massa conceitual informe, anti-cartesianas (escuras e embaçadas). Só assim a beleza é livre. Só assim é possível compreendê-la hoje: ao ser relativizada. Não se sabe mais o que é beleza, pois que pode ser qualquer coisa, desde que “belos” olhos encarem-na.
Agora creio que entendi a frase. Mas a beleza livre não é, então, identificável. Como eles querem vender produtos? Ah, sim, a frase é logo(marcamente) encoberta. Pronto: a publicidade fez lembrar, o que é sua função.
É uma bela frase, não há dúvida. Mas não há dúvida de que pouco se a nota.
Se “belo é o que apraz sem conceito”¹, bela é a pós-modernidade então.
Sidney Azevedo
Um pouco de Contrábelo e Antíbelo.
(Mas favorecem eles suas antíteses…)
¹ Kant. Crítica da faculdade do juízo.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Um instante de fervor...

Pluralitas non est ponenda sine necessitate
Ora, mas nós temos necessidade de multiplicar!
Racionalizai! Uma ova! (Ah, a biologia já o fez. Nem as ovas de peixe escapam disso…).
Bobagens têm aparecido neste blogue. Alguns proto-projetos iniciados, e o projeto inicial que era o de se não comprometer com coisa alguma foi já há algum tempo quebrado. O não-método que deveria sempre tê-lo guiado desapareceu… Mas como estabelecer um não-método sem um método? É uma pergunta temerária… Tanto quanto a possibilidade de uma desrazão guiar o humano... Ora, a razão é sempre um estudo teleológico… Está sempre visando a um fim. Então, para uma desrazão, é necessário livrar-se dos fins…
NÃO!, eu racionalizei a desrazão.
SOCORRO!

Grito de socorro
A idéia que foi volta já e mais
completa do que antes à mente
do pensador. Mas se amolda no cais
de umas estranhas condições de ente
plenamente e carente racionais.
O ser tem medo de não ser o que é
na desrazão. Medo de inexistir.
Temor de pensar o estranho,
Pois pode o estranho ser mau…
– Não me perca, Razão, eu te imploro! (O ser).
– Não te deixarei jamais! (A razão).
Na apaixonada relação procuram não se perder, e nos tempos difíceis da existência da ciência, o que se pensou desmanchar tornou-se no entanto mais forte. O ser domina, deixou de ser objeto e tornou atuante, foi tornado sujeito. O ser é sujeito. Mas um sujeito que sujeita ou que se sujeita?
Socorro!, a metafísica não responde.
Menos ainda a ciência!
Nem a arte e a religião!
Nem a sabedoria prática!
Vamos exigir uma mudança!
Uma revolução já!
– Com que fim?
Mandem ao inferno os fins.
Se é a Razão a causadora disso tudo…
… esqueçamo-la, pois!
Sidney Azevedo
Parem as dicotomias, por favor!
(e não só as escolásticas, as modernas também…)

Mensagem aos corintianos

Parece, mas não é.

1 ¹Caríssimos, o tempo é de tribulação, mas não vos afasteis de vosso fim último: a redenção. E ela só vem com o sangue de Alguém. ²A segunda não é o fim, há uma terceira comunidade...
³Mas não se preocupem, uma nova comunidade com todos pode ser formada assim que chegar um novo Paulo...
O quê? Pensavam que quando falei em nova comunidade de todos me referia a uma Copa Havelange? Tolos, é à comunidade de Corinto, em Grécia. Por que a eles? Não sei, é que a comunidade teve hoje um grande momento de tristeza...

Sidney Azevedo
Não, sem fins sociais hoje...
(A não ser o fim do futebol-mercado e a ressurreição do futebol-esporte)

domingo, 2 de dezembro de 2007

O aracnídeo verde

É aqui que a vida se inicia

Um aracnídeo verde apareceu. Será um alien? Será um efeito estranho? Será que ela se molhou em nanquim verde? A seguinte discussão iniciou a agitada vida de Araque:

- Um aracnídeo não é algo comum, é algo verde.
- Pensei que os aracnídeos fossem coisas pretas...
- Foram sim, há algum tempo. Hoje são verdes.
- Sim, e quem te disse isso?
- Ninguém me disse, eu vi!
- Já te consultaste com algum oftalmologista?
- Que insinuas tu?
- Que não estás a bem enxergar.
- Ora, quer ver?
- Quero os tais aracnídeos.
- Não, não os aracnídeos, mas toda a mudança que ocorre...
- Falas como que um profeta.
- Sou-o.
- Então diga profeta o que ocorre!
- Pois bem, serei direto.
- Então sejas!
- Para depois esmiuçar o dito.
- Sejas direto logo, puto!
- Acalme-te!, que a coisa não é tão rápida...
- Prometeste ser direto...
- E serei!
- Direto ao inferno se algo não dizeres.
- Mudanças...

O profeta não pôde sequer iniciar seu discurso. O cético foi embora com o correr do relógio. Mas há uma carta do profeta que está perdida... Espero logo ser encontrada para dar continuidade à mais estranha história do mundo.

Sidney Azevedo
Aguardem "O Retorno do Aracnídeo Verde"
(só no Antítudo uma coisa dessas é possível).

É o fim das sidaaids!

Uma nova educção?


Eu creio não haver necessidade de destrumentar esta foto. Fique a critério dos raros ingressantes deste blogue louco dizer algo!... Sim, e antes que digam que errei o título, foi proposital...
Sidney Azevedo
Estranho amanhecer educcional...
(lectividade...)

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Um "a parte" político

"A parte" capilar

Nesta terça-feira, às 16:40 - não tenho certeza se o horário era este..., mas essas miudezas, fiquem aos jornalistas superficiais, não é o que interessa -, algo me prendeu em casa. A saber: preguiça. Tinha para ir um encontro. Não fui. O que fiz?
Como há tempos não me via, a televisão olhou bem pra minha cara com aquele fundo escuro e disse:
- Zapeie à vontade, que a vontade eu trato de te dissipar.
Me pareceu justo. Lenitivo!... Eu precisava de um lenitivo... Cinco horas de Châtelet e resenhas de filosofia cansam muito o cérebro... Um narcótico era justo. Eis que um estalo me ativou. Era a TV Senado.
- Ah, o Senado? Não há coisa melhor para se falar?
Sim, o Senado. Não é à toa, "política é lugar para sociopatas"¹. E sou eu um sociopata também. Onde já se viu pensar em um não-Estado? E garanto que tu és também enquanto matas qualquer outro tipo possível de sociedade com a fórmula simples da repetição nessa vida desgraçada de máquina.
Bom, voltemos ao Senado.
Algo me enredou profundamente. A mídia - ou tenho eu visto assim a político-económica pelo menos - só fala em CPMF. No Senado os pronunciamentos funcionam mais ou menos assim:
1. Alguns se inscrevem para falar.
2. São dados dez minutos para o inscrito.
3. É-lhe incitado ser generoso e conceder um "a parte" quando alguém o pedir - o que, em geral, ocorre quando o presidente o indica.
Wellington Salgado (PMDB - MG) foi o 4º a falar. No meio de uma ardorosa defesa pela manutenção do imposto e de alguns elogios a Lula, disse qualquer coisa que o efeito narcotizante da TV me impediu de captar em plenitude. Dizia respeito à aposentadoria que todos merecem. E fazendo referência a si mesmo, disse que todos ficam, mais cedo ou mais tarde, com menor quantidade de cabelo. Para os muitos que não conhecem Salgado, digo que é alguém que não perde muito de mim no quesito capillus.
Não tenho muita certeza do contexto em que se inseria a frase, mas a defesa do senador era, naturalmente, a mesma do governo - embora não sejam do mesmo partido! -: o imposto deve continuar, caso contrário, um rombo de 41 bi (isso mesmo...) afetará áreas como saúde, educação, e mesmo os investimentos no tal de PAC. A oposição, como sempre: o imposto não cai só sobre os ricos, mas asperge os pobres também, numa aspersão que muito absorve.
A discussão estava séria, e por isso mesmo cansativa... Até que um "a parte" foi pedido pelo paraense Flexa Ribeiro (PSDB).
Sobre o que? Espere o amigo, vamos fazer um suspense - não sou muito bom nisso...
Sobre a calvície como deficiência...
- "É um desrespeito, sr. Wellington, o que disse para com os deficientes capilares" - disse o senador.
Qualquer "a parte" sobre conseqüências político-econômicas seria muito mais importante. Mas senadores em pé de guerra é mais interessante. Tanto que se teve até closes de imagem... Na verdade, era um aparte, um afastamento da briga. Um quer, outro não quer, como sempre foi a política brasileira... "CPMF sim!". "Não à CPMF!". Vão pro inferno!, liberais e conservadores há desde o nascimento do Império... Ganhar tempo, emperrar questões importantes e seriamente discutíveis, mas não há tempo - ou não deveria haver, mas há para se discutir falta ou não de cabelo - para estudar o impacto da prorrogação ou não da cobrança...
Eu aindo penso o Estado tão nocivo quanto a economia de hoje... Eles se sustentam... Mas vivo num Estado, e não quero que, enquanto ele haja, as coisas sejam prejudiciais ou tratadas banalmente em nome de interesses próprios.
Ponho fim ao discurso de hoje (coisa nojenta, aliás...).
Sidney Azevedo
Estranho amanhecer político?
(eu achei que este blogue fosse de arte...)
¹ A idéia de sociopata político surgiu no seminário de filosofia foucaltiana, num dia em que a psicanálise sobressaiu-se... O sociopata tem um "instinto" destrutivo em relação à sociedade.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Pare os aforismos, Sidney!...

A escrita aforista – ou será aforismista?… – que adoptei nos últimos tempos deu-me uma muito maior liberdade de propor idéias que normalmente são banidas de qualquer discussão, ainda que de forma desordenada e necessariamente abrupta. E creio que essa mesma liberdade levou Nietzsche a aderir ao aforismo, a publicar não mais que coletâneas deles.
Mas este blogue necessita de algo mais inteligível…
Por isso volto, após algum tempo, a publicar uma crônica.

Curandeiras inquisidoras

Não sei se é só comigo, mas ocorre que uma certa senhora (não sei se certa é certo termo, mas assim fica) aparece quase sempre pelos lugares em que estou no Centro. À entrada da Catedral, uma vez, a encontrei. No Terminal, umas três. Próxima ao Mueller, duas. Entroutros locais de que a memória não é capaz de se lembrar, mais de dez. Eu estaria seguido?… Ou seria ela seguida? Seguidamente víamo-nos: eis a verdade.
Quereria algo? Não sei, mas a julgar pelas vestes – embora julgar seja algo subjectivo –, qualquer um a poderia afirmar mendiga, ou, melhor, catadora de papel ou algo semelhante. Não me parecia, entretanto, isto.
Se não enganado estou, deveu ela vender Trimania. Mas pouco importa, vamos às vestes. Uma blusa entre o marrom e o amarelo. Saia bordada ao estilo bicho geográfico (perdoem-me, mas minha noção de estampas é horrível). Sempre uma bolsa, tecidos ou alimentos – quando não alimentos tecidos em restaurantes. Cabelos grisalhos à altura dos ombros e um arco a ordená-los. Estava mais para uma feiticeira. Uma dessas bruxas benignas de que falam os manés.
Bem, minha avó conhece alguns benzeres, mas nada que atiçasse à Inquisição uma possibilidade de ressuscitar como o Cristo que cria defender. Seria a senhora uma Inquisidora? Não… Aparência benigna. Mas é um olhar diferenciado o com que olha. Lembra as histórias das Pítias délficas, as que contavam os destinos tramados aos gregos.
Atemorizante… Quando entro no ônibus, adivinhem quem acho à minha frente? Não, não era Sílvio Santos, era a senhora, cujo nome não hei de conhecer. Falava como que apercebendo possíveis relações entre mim e a moça que a meu lado estava no ônibus. Uma muito bela, não nego. Mas ela não falava alto, de modo a não poder entender o que estava a dizer. Sem dúvida, nada era sobre tecidos alimentícios… Mas passei a ter medo de olhar para o interior do ônibus. Queria chegar logo em casa…
É sofrer por não saber o que fazer. É como que diante da televisão estar preso à poltrona, sem poder buscar a batata por que o ecrã algo despeja de interessante aos olhos, mas leniante à Razão. É horrível.
Terminal Sul. N’outr’ônibus – perdoem o modo de escrita – fico a pensar, seria uma maldição? Não, não era, pois seu olhar era esperançoso, embora me sentisse mal de encará-lo. Ela só queria o bem meu e da moça. Feliz em seu papel de Santo António (aquele que após sumiço, já reapareceu, e que foi motivo da última crônica, inclusive).

Sidney Azevedo
Retornando às origens
(Um texto artístico – nada de filosofia por hoje…)

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

O auto da barca do espaço

O discurso nosso de cada dia...

O preistoricismo recente - e ressentido - das máquinas é algo estranhamente...
- É preciso um bom anestésico para que se passe algum tempo em frente a um computador de 1 GB de HD! - diz o puto da lanrause.
Aliás, que diabos nos fazem ouvir tais siglas (GB, HD, HP que têm inclusive muitos além-significados) que não outros virtuais virtuosos defensores do tal de tecnologismo, que não mais são que conspiradores da maquinização humana - ou dito melhor, humanizada -, de um desespero em tornar velozes as coisas?
Isso é recém-peça da tecnologia cultural. E que raio de povo teria inventado, e pior, exportado isso? Um despovo, certamente. Ou, como se melhor ajusta ao antitítulo deste antíblogue: um Antípovo. Pois que sublima (no sentido da Física...) a discussão real entre os homens. Um anticontacto. Pelo menos um anticontacto directo.
Contou o incompreendido Juvenal - e não fui eu a compreendê-lo - em estes dias de seu computador:
- Precisa de um fio-terra, a memória já está a queimar!...
- Caso se queime, e até lá todos os computadores do mundo, poder-se-á certamente construir a primeira noção de estar livre de limitações - temporais, no caso. Foi o que respondi.
Aos mundanos a escuridão. Às luzes os racionais. Mas que raios!... Esta é então uma razão que se há só de preocupar com a contagem do escasso tempo que tem. Sim, de muito rarefeito que é. O tempo é sempre fechado às boas coisas - e entenda-se como bem quiser esse "boas". O razoável é o conhecido possível dentro do tempo. E para ser breve como ele, só com rigorosos esquematismos e provas que não podem ser idealmente concebidas, só testadas. Eis a ciência!... E a ciência tudo destrói com a tecnologia. Em nome do melhor modo de conhecer...
Uma pausa, raros leitores...
É só o que peço...
Praticastes tua reflexão, ascese, obra ou prática de hoje?
Ou as perdestes para a correria?...

Sidney Azevedo
Um auto e só
(de barcas?... não, de móveis...)

O logro do social

O antimárquis

Penso já que as coisas aqui escritas não passam de um grande contra-senso, um dano de distúrbio interno que um nazireu esquisito - por não ser puro como devem ser estes seres - pode afligir mesmo às calmas abadias onde se produz o conhecimento autêntico da verdade - as academias.
Pensava que podia mudar o mundo com o olhar e nem sequer a esquina, porque a esquina estava encoberta de gente com bolsas. À interpretação e aí também não feliz. Mas que raios!... Deve-se deixar de escrever?
Não!... Por favor, que absurdo é esse? É um desespero essa gana do "social" que todos têm - os acadêmicos... Não será o "social" uma aberração lingüística? Um desagrado de algum louco que se não queria só? Pois eis que penso assim. "Social" vem de sócio, não de classe trabalhadora. Uma sociedade = uma reunião de sócios que negociam, em que alguns cedem em favor de outros para se manterem cômodos. Administrar é tarefa árdua... É! Sociedade é a maior ficção da história. Só há comunidade. E a comunidade recuou ante a cidade - outro logro considerável.
Cidade é absurdo, é invenção da racionalidade científica da indústria..., e principalmente da do pensar.
E eu a querer pensar numa sociedade industrial de pensamentos.
É por isso que não mudo nem a esquina. Há lá muitos deles.
Sidney Azevedo
Mais um logrado
(... erros, erros...)

Porque não Contrátudo?

Contra-soneto

Houve um a sair de casa.
Às chaves dera um jeito
de deixá-las em má rasa:
sobre o televisor rarefeito.

Este que saiu, bem fez.
E tão bem que esqueceu
as ociosas que tinha. Tez
clara sob pêlo de nazireu.

(Um tanto muito sem sentido
é esta última estrofe, e eu
a tentar consertar no mote

seguinte do soneto de lote
que nem soneto é, é breu
em um escuro anoitecido)

Sidney Azevedo
Um contra-poeta
(... um ocntra-sesno...)

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Medos de nós dos marujos da Babilónia pós-moderna

O medo da razão...

Como o tempo dá-me à graça de ser curto, levanto hoje somente uma visão diferenciada.
O QUE NOS FAZ MANTER A RAZÃO É O MEDO
Os loucos, tidos por irracionais, ainda assim, mantém uma razão, a razão da irracionalidade, que é manter-se no mundo que conhecem. Eles têm medo do exterior. Ele é pavoroso!...
Só vos faço uma pergunta, e quanto a nós? Será medo também... Olhai com atenção, pois outra coisa não é. Não é progresso, desenvolvimento ou evolução, pois isso nem existe e é só uma ficção do medo. Não será um desejo, uma vontade de poder, um poder que queremos ter sobre o exterior pavoroso e que lutamos arduamente para dominar? Não, porque não se sente satisfeito. Há-nos sempre o temor. Queremos deixar de tê-lo, mas não é suficiente, e o máximo que se faz é cobrir a cabeça na hora de dormir.
Segurança: eis o nome de nossa vontade (se é que isso pode ser chamado de desejo). É uma descoberta? A vontade tem algo anterior? Tem o medo de não existir também...
O medo é a força de unificação dos símbolos em enunciados claros. De uma invertida ordem medo todos têm diante (entender podem-na entretanto). Mas os que não conhecem, mesmo disso terão medo.

SEUS MEDROSOS!

Sidney Azevedo
Agradecido estou, menina!
(há tempo queria falar sobre, mas tinha medo...)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Poder d'Ovni HO (favor beber vinho antes de ler isto...)

O alcoviteiro


O vinho na estratosfera. Ah, há vinho na adega... E tem mesmo.
O acético líquido eleva os homens à ascese. Uma vida acética. E acética por que quem crê, pode duvidar do que crê. Quem não crê por que não quer é cri-cri. O vinho faz crer, e crescer até às alturas. Crer, crescer, querer. Quero crer que cresçam logo as videiras, para não faltar aquilo de que gosto.

Um ascetismo acético. E viva o vinho no vivo que o sorve.

Alvíssara amaríssima


O vinho e a cerveja:
O doce e o acre.
O vinho e o cigarro:
O doce e o acre.
O vinho e o caboclo:
O doce e o Acre.
Acre será algo ruim?

O coveiro


Pobre, morreu de tanto beber. Morrer e viver todo dia, que fazer? O vinho o salvou da tristeza, pobre acreano que saiu de lá para a cá vir e cair. E não um pequeno tombo que foi, foi algo alvo de muita atenção.
O vinho já me não é tão bom, é seco. Pai, traga-me tinto, por favor, mas um que não seja tingido de sangue de gente honesta...

Sidney Azevedo
Uma nova escrita
(... e viva o vinho filosofal...)

domingo, 18 de novembro de 2007

A porta só é fechada para os que não podem abrir...

- Falta o texto -
- Falta o texto -
- Falta o texto -
- Falta o texto -
- Falta o texto -

Não mais falta. Pois que qualquer coisa tem em si a plena possibilidade de virar texto.
Vejamos, estás tu a frente de um ecrã, correcto?
Cê tá na frenta duma tela, certo?
Vamos então ler a tela, e não o que nela aparece.
Deixe-te levar pela imaginação... A tela te conta, conta-te uma história...
Veja:
Havia um punhado de areia numa qualquer praia.
Chegou uma caçamba e homens com pás retiraram-na.
O que retiraram? Bem, começou pela areia... e mais tarde a caçamba com alguns galões de gasolina... e, finalmente, e após repetidas vezes, a própria praia, para a contrucção de um porto.
Os homens que aí viviam foram embora como a areia. Após algumas brigas e matanças no povoado vizinho, integraram-se à cooperativa de pesca. Esta, por um tratado de protecionismo firmado em pouco tempo, só pode vender a um grande mercador do novo porto.
Umas vinte empresas, e só, valem-se do porto. Uma delas trabalha com transformação de areia em vidro (e em escala industrial). O ecrã que vês à tua frente é o que sobrou da praia, hoje deserta, mas modernizada e maquinizada, na qual antes levaria tua namorada para passear... Existe? Não mais!
Fique nos teus sonhos, puto!...
E pelo menos leia agora o tijolo e a telha, como exercício de casa, que é fácil. O celular, o computador, o mp3, o salgadinho de dona Elma, o refrigerante que cola, os tênis ardidos, a jaqueta com nomes ingleses que vestes apesar de o calor ser insuportável, o desespero em participar de festas e outros comportamentos menores necessitam que faças aquele treinamento antes...
Se derem todos na mesma, pelo menos, deixarás de ser cego.
Sidney Azevedo
A caminhar na loucura diária
(Azevedo-Caminha-Cervantes, a heráldica diz que...)

sábado, 17 de novembro de 2007

O Anticopérnico

Uma posição insustentável... Será?...

Já me disseram que uma luta contra a Ciência é insustentável. Não creio... Não enquanto ciência for única e exclusivamente o saber sistematizado das coisas. Não há aí espaço para ciência enquanto o saber humano em geral, a scientia romana... A arte, a religião, a sabedoria "dita popular" (que no entanto seja talvez a única sabedoria) e mesmo a filosofia somem ante o refinamento (isto é irónico para quem não se deu conta...) da Ciência.
No entanto, ela já nos levou a absurdos incomensuráveis... Pois que se tornou INSTITUIÇÃO (é a ela que me refiro em inicial maíuscula). Institucionalizados, foram montros já aqueles outros campos que citei... E a instituição está aí para dividir. Dividir num sentido perverso. A arte nada é. A religião tornada inútil. A sabedoria é a matéria-prima e a filosofia um instrumento. Ciência: uma improbidade administrativa no campo do saber.
Sidney Azevedo
Já assustei muito com essas idéias
(inclusive a mim mesmo)

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Signaes somáticos

Massivas individuais de música
Sozinho na noite um barco ruma, para onde vai?...,
entre a neblina com o sol a nascer...,
uma prenda tua sem levar, uma prenda dela...,
mais do que a um partido, que a uma equipa ou religião...,
já não demora e vou correndo para ti...,
oh!, Ana Júlia!...

Viva a sociedade alternativa!...,
o cara mais underground que eu conheço é o Diabo...,
pensava em ti e em que sorte era a tua...,
porque quem pensa melhor pensa sempre melhor parado...,
as saudades que eu já tinha de minha alegre casinha tão modesta quanto eu...,
they pray for the eternal salvation!...,
I'm still loving you!...

Making two possibilities of reality...,
o que é que a ciência tem?...,
voltar a zero num planeta distante...,
quando o dia da paz renascer...,
nesta nave de Noé!...,
meu Deus, como é bom morar no modesto primeiro andar a contar vindo do céu...,
Um pouco de fé!...

Aonde está a boa vontade de se ouvir um concerto (ou um conserto mesmo... que seja!)? Parece-me que se perdeu na boa vontade do poder-se ouvir de tudo. Ecletismo já não é opção, é não saber colocar-se n'algum espaço... Containers de bites andam conosco às algibeiras. Podemos ouvir aquilo que nos der à viga que ostenta a telha. Mas logo nos lembramos que algo mais conforme há adiante, umas trinta músicas p'ra frente...
Resultado: perda de convicção, de força de vontade, a vontade de poder parece se dissipar, pois que o poder parece estar todo já às mãos, entretanto, fortalece-se, pois precisa voltar a ter pelo que brigar. Que seja esse brigar ainda o fim da tecnologia...

Sidney Azevedo
Vais ver o sol brilhará!...
(Créditos à Raulzinho, Baleiro, Tim, System e Escorpiães)

R$ 10 no 022, porra lá!

Procura-se Santo Antônio




É estranha a linguagem do bicho. Talvez por ser marginalizada. O bicho está na mata, mas às vezes aparece na nossa casa. O tigre está com uma arara na boca! A tigresa tem muito além de um milhão delas. Sim, aquela que anda na Zona Industrial…
- Dez reais no zero vinte e dois!, porra!, lá!
A virgulação mais indicada para esta frase não é, com certeza, esta! A gramática do êxtase é algo de bastante inflexível para que uma língua qualquer a possa abranger. Mas me pôs intrigado…
Talvez, noutra interpretação, não seja o felino com a ave aos caninos, mas a apurada família real de Araque, em visita à cidade. Viram um séquito de nove pessoas a acompanhar o rei, e viram logo o cumprimentar. Mas não… parece-me pouco provável. Os araquianos não gostam muito de sair de sua terra, nem de ter relações com povos estranhos…
Mas há uma terceira.



Sumiu Santo Antônio!… Sim, sumiu!… Quem entrar à Catedral São Francisco Xavier pela rua do Príncipe (e que, obviamente, faça-o com alguma regularidade…) há-de perceber que o espaço reservado ao santo está vazio. E por quê? Bem, creio que aí a frase nos ajuda… Um grupo de monarquistas tomou as imagens das igrejas e catedrais para retomar o poder perdido por seu glorioso trisavô, a quem chamamos D. Pedro II, através do voto (ou veto…) democrático das desesperadas moças solteiras que sonham encontrar seus maridos em breve tempo. E o zero vinte e dois? É um número simbólico, próximo 22/10 começará o golpe de Estado (é aniversário do marquês de Querala, antiga colônia ultramarina portuguesa sob comando inglês desde um tratado de monopolização do algodão que não sei a quem beneficiou…).
É muita conspiração. Pobre bicheiro ao dizer aquilo, mal sabe que minha imaginação poderia distar tanto. Mas isto foi só para dizer uma coisa, nada há que impeça uma longa e animada teoria. Uma frase aparentemente maluca e explicação para ela ainda mais doida compõem um mundo novo. Occam e sua maldita tesoura, entretanto, mandariam-ma jogar fora. Um disperdício de imaginação. Mas que é útil pela crença na utopia.
E o grande Barbo, filósofo de Araque…, bem, este foi jogar no bicho. Não ganhou que eu saiba. Foi decapitado pelo jacaré…

Sidney Azevedo
Criação de textos inúteis aqui...
(Re-criação de interpretações também)

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Fugir do comum...

A catraca não está trancada, pode-a pular...

Durante algum tempo lutei para livrar minhas charges, meus cartuns, meus quadrinhos do poder maligno do estereótipo. Até hoje não consegui. Mas creio estar já bastante próximo deste ideal. Vos aparece uma idéia de arte abstrata nesta concepção? Sim, vos parece mesmo, e pereceis justamente por isto... E mais, o problema não está na minha mensagem, ela é muito clara. O livrar do lugar-comum de que falo deve partir do observador, enquanto alguém que quer sim descobrir novos sentidos...


Se a imagem não te faz reconstruí-la por si, precisas então refazer seu olhar. O melhor modo para isso, não sei, mas tem de ser alguma espécie de espiritualidade...

Sidney Azevedo
Às vezes os temas "sociais" me preocupam...
(..., e olhem que acho que essa categoria é muito restritiva)

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Computador, com puta dor vo-lo apresento...

Seres desnecessários

Há, e em muitos cantos, que vejo um ser estático, que parece conseguir entrar no intelecto e perturbar o silêncio reinante que normalmente mantém. Esse ser, cujo nome é incerto, exige dedicação total a tarefas que são fúteis.
Impede-me de escrever aquele texto sobre a sisudez nos ônibus, aquele outro sobre o infeste das baratas e aquele terceiro sobre as paragens de Araque.
Ocorre que já me parou quando fiz parar Kant e Hegel que não se conseguiam entender e logo voltaram a brigar, dando-me mais dores de cabeça. Ele me pára a toda hora, e sem necessidade alguma!…
Se passar à estrada alguma bela moça, perco-a. E por quê?… Alguns de meus mais velhos e considerados camaradas dedicam seu tempo ao melhoramento dessa coisa. Ele me faz passar o tempo, ser asqueroso… Já não consigo nem ter bons jogos de palavras diante dele, e como isto assola… É torturante… Tudo sob a égide da objetividade. Tornar as coisas rápidas Entretanto, minha avó não alterou sua rotina por causa dele. Continua em seu mesmo passo de alguém que só o ignora.
Maldito computador, só me corrói a criatividade, o tempo e a existência. A única defesa que ouço contra a condenação desta merda é a de que é útil. Pois não é, antes dele, ninguém o necessitou, entretanto, nasce já na casa de um. Os meninos de meu tempo falavam sobre videogueimes, os de hoje façam sobre placas-mãe, terabites, jogos que rodam ou não em que configuração, e assim por diante…
O navio já chegou aos limites da terra. Sim, daquela que existia antes de Copérnico. Despenca com a correnteza. Água há muita, e a humanidade a afogar-se…

André: olha só aqueles guris…
Mohandas: fraco!, devem tá na quinta série!…
Renato: se amassam melhor que na Malhação…
Mohandas: mas Malhação é falsidade total, os caras nem sabem interpretar…
Sidney: sabem o que eu acho…
André: o quê, da Malhação?…
Renato: eu acho que o Sidão nem vê tevê…
Sidney: acho que ficamos velhos antes do tempo…

O discurso do computador é um só: CORRAM! O TEMPO ESTÁ ACABANDO!, como, aliás, tudo o mais da (pós-) modernidade.


Sidney Azevedo
Um tanto nostálgico pela noite…
(e um algo de irritado com a tecnologia…)

sábado, 10 de novembro de 2007

Um pseudo-estudo pseudo-literário

Prolegómenos à psicossociologia do zarco

Uns chamam bãs, outros busão, outros ainda amarelo-velho (lenda de Araque...). Um lusitano sofreu para se fazer entender que buscava um autocarro em Luanda, enquanto aí não o há. Teria de se contetar numa candonga. Conhecia por quia, e lhe seria desconfortável. Uma vam ou perua poriam-no a correr.
Não sabe, provavelmente, que em uma obscura cidade do obscuro sul brasileiro, chamada Joinville, dão, aos primeiros veículos, o nome de zarcos. Bem, dito a verdade, há joinvilenses que nem sabem dessa denominação...
Ninguém sabe precisar muito bem a origem do nome. A melhor versão que já conheci versa sobre 1943, ano em que os nativos deram ao veículo um nome quando viram "o primeiro tranporte público livre de trilhos" (como trouxera um jornal da época...). Algo próximo a um bonde, mas predominantemente mais barulhento. Deram à geringonça o nome inicial de rasga-roupa, e ao barulho, o nome de fuzarca.
- Aí vem a fuzarca!... - relembra minha avó, citando o filho do padeiro alemão (essa função não era monopólio de tugas, não aqui...) da Getúlio que berrava quando chegava o ônibus (eis o nome da coisa para quem se não deu conta ainda).
Isto, conta minha avó, no tempo em que havia de fato uma avenida Cuba (por que será que sumiu... creio que a sra. Daunfembach teria uma explicação interessante...).
Zarco foi uma síncope, pois que o grito indicava a vinda do ônibus para todos (essa frase é interessante, decepciono-me se meus leitores derem um olhar apressado por ela...).
Bem, o que de fato, ou facto, já que o meu lado lusíada briga pelo espaço existente ou que há no ecrã do computador, interessa é que haja uma discussão sobre o lado psicossocial dos grandes carros amarelos.
Começemos por hoje. Quando se entra num zarco, vai-se sempre carregado de coisas. É bolsa da faculdade, sacola da loja de que se acaba de sair, pastas de papéis, lojas (no caso dos ambulantes), lojas (no caso dos que compram muito), lojas (no caso das logomarcas carregadas orgulhosamente pelos trabalhadores do comércio) e todo o tipo de tralha e de traste que se possa imaginar. Muitos alegam necessidade. Mas não creio que seja isso só... Levam isso já para evitar um contacto humano... Organizam as pastas com a idéia de afastar-se de outrem. É um lapso, um deserto, uma incongruência... Uma aglomeração atomizada. Adorno é essencial aqui: os penduricalhos usados pelas moças não lhes condizem e até escondem o que podem ter de belas... É influência, e de perfis já bastante conhecidos, mediados, por assim dizer...
Nesse desejo do eremitismo urbano, a sisudez impera. Um dia desses comecei a sorrir no ônibus, e para mim mesmo. Num momento de autismo olhei para o interior da criatura que é cinzenta por dentro e amarela por fora e, por Deus, que não tivesse tido fim aquela hora... A felicidade era interna, um instante de silêncio, e, e... quando distingui claramente que os outros estavam a me olhar, pus-me sério, e de chofre! Olhavam-me incrédulos... Não entendiam... Eu não os entendia também. E ficamos assim.
Uns saíam, outros entravam, e nada mudava dentro daquele ambiente.
Quando saio vejo um brasão de Portugal. Lembro-me dos bondes de Lisboa. Da partilha de vinho e das mulheres a cantar fado, isto mesmo, no bonde!... Vejo minha avó a falar dos primeiros ônibus. Lembro-me com ela, do fascínio que aquilo exercia na incipiente cidade. Pois que se enchiam da gente e aversão não era termo que justificasse aí, a priori, alguma sensação.
Hoje se entra com nojo a priori... Por quê?, não sei, isto é só o prolegómeno, algum interessado que leve adiante o estudo...
Sidney Azevedo
É falta de espírito querer se aproximar do humano?
(...só para encher o parêntese...)

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Dicas para produção rotineira

A rotineira discussão
Papo de Sílvio Aviz e Evaristo Oliveira ocorrido por telefone há alguns dias.
PS: Tomei a liberdade de acrescentar alguns detalhes.


(...)
F - Há rotina?
S - Há!
F - Por que ela há?
S - Porque há, oras!
F - Há horas?... Como assim, não entendo.
S - Há horas em que o homem vê produz coisas por necessidades. Algumas delas só podem ser produzidas por um método. Esse método precisa ser homogéneo em todas as coisas, para que seja igual a produção.
F - Entendo. Antes a organização, depois a produção...
S - Isso.
F - É necessário pensar o como fazer.
S - Acredito que é precisamente aí que reside o problema.
F - No pensar?
S - Não no pensar, mas nessa idéia que penso idiota da necessidade de se organizar.
F - Não pensas boa a organização?
S - Não. Ela é restritiva, não possibilita a idéia de outros mundos. Ele precisa ser do "melhor" (que se frise estas aspas) modo possível.
F - Eu acho estranha essa tua ideia, Sílvio, como poderia restringir se abre outros...
(...)

Era esse diálogo que precisava expor.
Ainda preciso pensar melhor sobre.

Mas nada me abala a fé.
Essa fé lusitana, teimosa, que crê a razão poder explicar seus posutulados.
Essa fé brasileira, tão ambígua quanto a outra.

Sidney Azevedo
Um algo de pensar a dois
(A rotina e eu... Que dupla estranha...)

domingo, 4 de novembro de 2007

Banda abandonada?

Jogue na sorte!


Às vezes olho no espelho
analisando minha vida.
O que fiz todo esse tempo
a andar ou não pela avenida.
Se outrem também faz isso
não sei... mas tenho receio
que alguém me note e diga: não!...

Jogue na sorte,
pois dias melhores podem vir.
Antes da morte
ainda havemos de insistir.
Seja mais forte
enquanto todos querem ver-te cair.

Sidney Azevedo

Ex-letrista, 21 / 03 / 2004

(há muito tempo atrás, quando éramos Nervozzos...)

PS: nesse tempo o ideal anarquista era muito forte em mim...

sábado, 20 de outubro de 2007

Eu ainda publico textos aqui!

Não-produzir

Quando estão os barcos a ir não se vai. E por que não se vai? Porque há um monstro neles dentro chamado Dever.
Das juras não-ditas sobra um algo de remorso. É doloroso, e se pede um dia de vinte e sete horas. Faz-se as coisas necessárias à sobrevivência e... e... e fica o nada! NADA! Nada produzido, pois produzir não é incumbência. É dever. Deve só quem produz... E muito há que já o faça. E estes cansam-se cá em noites a claro no vazio do vão e vil divertimento...
O vinho permanece no cálice e permanece com ele no canto virgens os três..., um ido. A tecnologia lembrando o mar-te que devo..., um acto. No texto uma projecção que de tanto distar é aqui ilusão certa..., um vindoiro.
A tesoira dividiu tudo por aqui. O projecto é acto na dicção nocturna de um arquitecto de Occam. Racionalizar, racionalizemos! Mas pergunto para quê... Não importa, só é preciso racionalizar!... Pergunto de novo. A resposta é acção: sou expulso do convívio comum das criaturas... É importante funcionar, ou sobreviver. E só! A vida é! A vida é! A vida era... Era?
Sidney Azevedo
Falta um parafuso!
(Concreto puro...)

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Actuais de acto e de hodie (de ódio também...)

Mundo moderno

Só estou
e a cada canto a que vou.
Mas algo há sempre que me lembra
de humanos a sombra.

Querer afastar-se e estar próximo,
e não conseguir nenhum.
Eis a máxima hodierna virulenta
que parece não ter alcançado o cimo
de sua capacidade. Mundo algum
tenha havido que a isto agüenta!

E é o mundo doente.
É-o o homem também.
Do morto que não sente
à gente de ninguém.

Sidney Azevedo
Os loucos estão por dominar o mundo!
(não digam depois que não avisei...)

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Antítudo anti-lepidez

Sobre não iluminação...


Só estão a andar as luzes.

O resto mais é tudo morto.
E andam velozes,
a atordoar,
a desinformar,
a enformar
e desenformar.
A suspender traumas, pois que deixam estes de ser vistos.
Ante a luz, à luz de um teatro sem cortinas.
Ou que, se há cortinas, são elas de cristal.
Não por fragilidade, e sabeis de que falo.
A liberdade é próxima de nós.
A liberdade é, próxima de nós.
A liberdade é... estranha!, pois está contida no nada.
No nada da razão. No nada que a razão constitui.
As luzes..., as luzes chegam cheias e vão vãs.
(Mas não saem do lugar...)
É tão fácil transpô-las... Mas, que é que há?


Sidney Azevedo
Fotógrafo de Araque
(Ainda escreverei sobre Araque...)

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

O comum metafórico

Passam as coisas… as viste?

À vinda do trem opôs-se
o rodear do carniceiro.
Urubu rubro a irisar-se
junto ao matiz caminheiro
das luminosidades de classe
estranha. O trem d’Aveiro
vai àlgum lugar que devasse
o direito pútrido primeiro
da coisa segunda a passe-…


Um outro urubu maior,
metálico, manchou a imagem
e a ela mesclou fuligem de odor
desagradável aos que “viajem!”
foi ordenado. E ao calor
da obediência que também
foi, cá e já, algum motor,
coisa indizível, a mover o réquiem
da carne morta em ritual …oto(r).


A vida não vale o vale
que lhe vela. A vindoura
diz: “fiat lux!”. De jale-
co diz o douto: “fiat aura!”,
que, por erro fatal e
bobo, escreveu: “fiat aurum!”.
O ouro se fez hora, e, ora,
eis que chora o homem – comum –,
a sua criação. Com Deus.


Sidney Azevedo
Falta um parafuso neste poeta...
(ajudem-me a encontrá-lo!)

domingo, 7 de outubro de 2007

"(...) um mundo dentro de outro (...)"

É para se perder mesmo...

Ocorre que é necessário pensar... e isto só:



Porque aquilo que facilita as coisas merece o espaço livre da lata de lixo...

Sidney Azevedo
Artista da antiestética?
(àqueles que não agüentam este desenho: ide embora!...)

Mudanças de apercepção

O céu não mais é o mesmo

O desestabelecimento das linhas deu-se a dias escuros.
O dia era escuro porque o sol namorava uma certa estrela durante algumas horas do seu trabalho. Que nessas horas, as nuvens reúnem-se para protegê-los, pois têm consciência de que o mundo seria caótico caso seus encontros fossem descobertos. As nuvens, entretanto, não podiam agüentar o calor, pelo que se esvaíam dali em forma de gotas. A estrela neste momento vai-se embora, a pensar que não mais pode ficar. E que, quando a saudade de ambos é enorme, chove e pára, chove e pára e chove e pára e chove... Pois o contingente de seus muitos encontros mora na responsabilidade de ambos para o mundo. E este olhar o céu foi agradável, pois tinha-se certeza de que não era a chuva que logo vinha algo de ruim. No inverno, pensava-se, o sol e a estrela encontram-se sem tanta culpa.
Entretanto, alguns de Joinville duvidaram da história. A visão dos sambaquis que até então persistia lhes parecia... faltou-lhes a palavra...
- Mítica!, falou um deles.
Então os nativos que invadiram e ocuparam aquela terra pensaram, pensaram, pensaram, continuaram a pensar, pararam para comer um fruto alucinógeno (ninguém consegue pensar tanto tempo... até porque não tinha café...), voltaram a tentar entender e assim interpretaram o céu escuro:
- Não, o sol é sozinho ao dia, e sua tristeza é tão grande que suas lágrimas são chuva durante o dia. As nuvens são como lenços dele, que não quer, também, que o vejamos triste.
Gostaram do que construíram, aceitaram, e assim se olhou o céu de Joinville ao inverno. Mas logo acharam aquilo insuficiente... Que resposta melhor encontraram? Bem, um padre jesuíta que vagou pela região em 1173 disse aos nativos que o sol vagava no espaço durante o dia e que a cada volta que dá, fadiga-se. Sua luz já não é tão forte.
- E isto é sinal do retorno próximo de nosso Senhor Jesus Cristo - bradou -! Próximo está o dia de os mortos reviverem em suas carnes!
Em meio à explicações teológicas e teleológicas (a respeito do fim deste mundo para o nascimento de um novo), precisou fugir, pois os vivos (e os mortos que representavam) da taba ficaram insatisfeitos com a ressurreição. Fugiu para o Paraguai onde o Vaticano mantinha um posto de alfândega desde 1012. Era aquela visão dele tão... mítica como as primeiras aos nativos. A mim é-o, a vós então...
Chegou então um quarto mito, fedido hálito do norte, que dizia:
- O sol é fixo, e giramos em torno dele. Ele não é humano, e por isso, não pode ter sentimentos, ele só nos manda luz, uma luz tão forte que não nos deixa ver estrelas. O céu escurece porque o sol está atrás da parte da Terra em que estamos. Ponto!
Era insuficiente ainda. Mas aquilo deixou a todos tão perplexos, que creram naquela visão. Parecia tão verdadeira... Todos os setentrionais que vinham falavam com tanta convicção... Mas era insuficiente aos nativos. Mas os nativos logo... desapareceram!... Para onde foram é algo que quero saber. Devem ter partido em seu veículo espacial para encontrar a verdade do universo. O que ouviram daquela vez pareceu-lhes além de insuficiente, tolo, pois desencorajador da vida.
Mas hoje um profeta - um remanescente cultivador das velhas lendas - disse ao irromper do meio dos novos habitantes:
- Vós não sabeis, vos deram a saber, somente se sabia. Mas, agora, sabeis!
Todos calaram-se, pois sabiam que era verdade. Sabiam acreditar numa coisa, mas n'algo que lhes não era próprio. Adotaram e adoraram um saber que nasceu sem ser ali. Que imposto a ser ali, não era. Não tinha sentido. Ou então ganhava novo sentido. O céu de Joinville é único, em seu contante devir. E o céu de Lisboa é único em sua manta azul que some de chofre. Mas o de Londres, ao que parece, deve ser sempre cinzento. E cinzento também os daqueles que acreditaram nesses celtas. Pois que turvaram a visão do azul dos outros lugares. Mas os mitos são essenciais, e era sobre isto que devia falar. Porém, já não preciso falar mais nada. Só há isto a ver: as linhas.
Ou não falei de linhas ao início? Bem, são linhas de classificação: o mito e a verdade - divisão maniqueísta, não achais? A verdade é um mito. E todo mito é verdadeiro. E só pode ser verdadeiro ou mítico exatamente porque há. As linhas, é-vos evidente, já se perderam.

Sidney Azevedo
A tentar ver coisas, coisas demais, às vezes...
(Escrito em 19 de agosto de 2007, enquanto caía granizo...)

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Imagine-se...

Diálogo possível (talvez amanhã...)

Encontraram-se ontem, mas poderia ser hoje, a um ponto de ônibus, um jovem de trinta anos e um velho homem aos quarenta. Até ao que sei, desconheciam-se.
Disse o primeiro, com grande naturalidade, para puxar conversa:
- Ontem foi dia de São Francisco.
- É?, esteve a cidade de aniversário? e não houve festividade?
O jovem achou curiosa a reação do homem. Fez alguns cálculos: o homem tem uns quarenta anos, veste-se como um hippie convertido ao Capital - pois que usa calça jeans e camisa semi-social -, fuma um cigarro - o que não nega sua condição anterior. Aí um processo certamente tradicional. Homens e mulheres a colher muito fumo por pouca moeda e uma viagem deste mesmo fumo por paisagens que não são todos a poder ver. Embalamento houve do cigarro na forma tradicional. Mas que importância tem isto, ah!, sim, o fumo... Não era esse o fumo tradicional daquela tribo. A substituição foi exigência da nova religião. Claro!, mas uma religião esta em que entrou sem Deus um que haja a ser. Os hippies ainda o tinham. Não teve dúvidas: estava diante de um ateu.
Nisto se passou mais uns segundos, para formular o primeiro homem esta frase:
- Não estou a falar da cidade, asno.
- E que é esta infâmia?
A resposta deste foi instantânea. E não houve então resposta. O segundo homem fez também seus cálculos. Observou no primeiro um escapulário, item mais evidente da vestimenta - aliás bastante tradicional - que era, entretanto, igual a sua. Duvidou que o método de que usava para classificar aquele sujeito fosse o melhor. Em termos de estereótipo era como ele próprio. Pelos elementos não havia o que dizer. Humildemente, perguntou:
- E de que falas então?
- De São Francisco, protetor dos animais.
- Ahn...
O segundo entendeu: estava diante de um religioso. Com ele não podia falar. O primeiro esqueceu o fato: não tinha já com quem falar. Ficaram quietos. Chegou o ônibus e, abarrotado que estava, perderam-se.
Sidney Azevedo
Criador de possibilidades de vida
(E religiosos somos, não adianta furtar-se...)
Post-scriptum (para não se esquecer do como é): nada há aqui, contra ateus e católicos. Qualquer que se diga neste sentido é intriga da oposição.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Eu-metamorfose

Eu-lobisomem

A lua vi pela via da videira
que levava à casa da vidente,
da hora aquela derradeira
da descida dormente do poente.

Luz havia ainda em que não se
desse a metamorfose de um mim
sem sentido em ser da posse-
de-nada. Pergunto ao jasmim:
– Que vistes para assim te assustares?
– Nada – diz ele –, só um ser a mudar,
a mudar do nada para o menos-ainda!

Perguntei-me qual era palavra
daquele infame ser-perfume.
Mas entendi logo a sua lavra
quando morei em ver ao lume
o braço metalizado. Mero
mecanismo que era. Anelo
de destruí-lo, mas eis que quero
destruir parte de mim. Rebelo
à vontade tal desejo: a razão
quis dizer-me que retorno havia.

– Tarde demais – disse-lhe a fé -
eis o que o tornamos.

E eis também que mudas
ficaram ao maquinizar-me.

Sidney Azevedo
Poeta electrónico
(Tristes palavras, mas as são facto)

sábado, 29 de setembro de 2007

Carta de Accademia

Carta a Carmelina Moraes
Saudações, Carmelina. Recente chega a mim tua carta. Não sei se recente chega a ti esta. A qualquer modo, tu te não deves ressentir de mim por atraso. Tenho tido tempos difíceis. Grandes revelações. Accademia não mais é a mesma. Ao menos para mim. Menos talvez a ti será, pois que nem a conheces. É escrito de alguns meses e a ti vai sem alteração. Segue o que se passou com este teu amigo António de quem tanto gostas:
Não havia lido Orwell até junho deste ano, quando o fiz, senti-me extremamente angustiado. Por quê?… Por pensar ser vigiado em todos os cantos a que ia. Pensei as gentes agindo como bons, muito bons – muito, muito bons mesmo – actores; pois que conseguiam não dar importância ao que estava a acontecer. Quando assisti à Matrix, a sensação piorou. Senti-me uma máquina. Algo instrumentalizado, tornado instrumento da Razão.
- Sou mero instrumento da Razão – pensei.
- Não!, não pode ser assim!, isto é falso!, não pode ser verdadeiro! – gritava eu quando isto apercebi, pois que havia em mim algo de emoção.
Rebelei-me à Razão. Ora, não somos instrumentos dela! Encontrei amigos de causa que, embora não fosse o alvo o mesmo, queriam rebelar-se contra algo (e, sinceramente, talvez tenham eles mais felicidade que eu em sua luta). Era isto o que tínhamos em comum, um querer rebelar-se.
Começamos então a nos encontrar justamente à capital do Estado da Razão, chamada Accademia. Eu achei curioso: havia, ao centro do Estado da Razão, um ícone da emoção, um ostensório, segurado por um eclesiástico entusiasta da Fé – àquela altura, a minha deusa. Mas fiquei perdido, pois que ele falava e defendia a Fé numa linguagem... racional! Sim!, racional!… Era possível que mesmo a Fé estivesse a ser invadida pela Razão?… Que a própria religião tornasse-se racional. Tornarmo-ía-nos todos máquinas? NÃO! Uma maquinização do ser humano? Para que viver então?…
Pensei mais um pouco, e se fosse aquilo um falar da Fé aos racionalistas?, apenas um exprimir-se na mesma linguagem, para os fazer entender algo de si?
Fiquei louco. Não conseguia já discernir o que é Fé e o que é Razão. A dicotomia perdera-se de minha alma e dirigia-se à universalidade tão sempre desejada, mas que faz sofrer por não ser sistêmica e fácil de compreender. Doía-me a cabeça. Pesava a globalidade que carregava dentro de mim. Eu sou o mundo? Eu é o mundo? Eu estou o mundo? A terceira parece mais apropriada. Comportava o mundo dentro de mim. Ele era eu afinal! Mas não era eu sempre, fui-o só naquele momento. Um ser-mundo sempre seria um… ser-Deus? Não,… é pretensão demais! Conti-me. Entendi então algo importante: Deus não sou eu, Deus não é eu, eu não é Deus e eu não sou Deus. Mantive nisto a Fé. Organizei racionalmente um pedido e implorei, então, a Deus, que me revelasse a Verdade da coisa… Ela, ela não podia ser daquele modo…, não daquele modo.
E Ele disse-me: "A coisa é simples, pretensioso homem que criei: a Fé é o centro de tudo, é por isto está ao centro de Accademia, e a Razão é só um meio de transformar a fé que se tem em força, em devir. É por isto que a Razão aparece na palavra do eclesiástico. Ela está aí para ordenar e dar forma objectiva a Fé. Retiro-me agora para descanso".
Aclareou-se minha vista turva. Sorri pela primeira vez em muito tempo. Dancei com meus amigos que se queriam rebelar. Eles ficaram contentes por mim. Anunciei-lhes a descoberta e… ficaram todos mudos. Saberiam já?… Não,… estiveram a só pensar. Voltaram então para mim e dançamos, mais uma vez.
Mas logo precisamos voltar a olhar ao mundo. Havia aquelas feias máquinas humanas, sem emoção, meros – estes sim – instrumentos da Razão a aproximar-se de nós. Havia em suas mentes programadas algo que dizia: “expulsai os próximos à Fé!”. E isto nos incluía, pois que nossa fé era construir um mundo novo sem extremismos. Espere aí, sem extremismos?… Então haveria um mundo em que não houvesse mais ambigüidades? Seríamos então… máquinas do nada-fazer? Desesperei-me novamente, pois que me sentia tomado unicamente pela Razão. Recuperei-me ao lembrar isto: o equilíbrio estava na Fé em comum união com a Razão. Não tive fé naquela descoberta. Não queria perder-me de volta. Mas não havia tempo para pensar. Só o havia ou para lutar ou para fugir. E fugimos todos. Fugimos aos recatados recantos do nada-querer-neste-momento, chamam-no, em geral, de… Bahr.
Bahr é um bairro sito à periferia de Accademia. Lá se encontram somente arautos da Fé. É a concentração da resistência. Lá sentimo-nos em casa. Finalmente um lugar calmo. Tão calmo, tão sem pressões que é viciante a alguns. Notei em Bahr, entretanto, um problema. Os que aí estão alienam-se da própria situação. Será por isso o exército da Razão a não o atacar?
Fugi… Só, desta vez. Devem ter-me chamado cobarde. Era-o. Cobarde de me entregar aos desígnios da Razão por ela mesma. Cri que a Fé e a Razão não podiam andar separadas. Mas fiquei preocupado: era eu só a crer isto? Será que meus amigos não o creram? Fiquei com eles irritado. Sim, estavam também irritados. Logo voltaram a Accademia e foram presos à Razão. Tiveram que a ela adorar.
Um nada-querer-neste-momento: há que se desconfiar! Muito simples isto.
O facto é que entendi porque Orwell tanto me impressionou. Converti seu Panóptico na Razão in persona e é óbvio o espanto de seu domínio, pois eis que está em todo lugar. Cantei esta estrofe, conhecida nossa:
Ainda bem que descobri, entretanto,
não sem algum concreto espanto,
a força humana deste viajar que a vida é:
a Fé na possibilidade e a possibilidade da Fé.
Eis meu relato, amiga, e eis que estou a esperar uma tua carta, pois que estás em Ecclesia. Conte-me as novidades de aí. Accademia anda em polvorosa desde meu sumiço. O teu só me chegou recente ao ouvido.
António Morujão
(mim mesmo…)

Sidney Azevedo
Homem de Fé ou Razão?
(mo dizeis vós, eu já não sei o que pensar)