sábado, 29 de setembro de 2007

Carta de Accademia

Carta a Carmelina Moraes
Saudações, Carmelina. Recente chega a mim tua carta. Não sei se recente chega a ti esta. A qualquer modo, tu te não deves ressentir de mim por atraso. Tenho tido tempos difíceis. Grandes revelações. Accademia não mais é a mesma. Ao menos para mim. Menos talvez a ti será, pois que nem a conheces. É escrito de alguns meses e a ti vai sem alteração. Segue o que se passou com este teu amigo António de quem tanto gostas:
Não havia lido Orwell até junho deste ano, quando o fiz, senti-me extremamente angustiado. Por quê?… Por pensar ser vigiado em todos os cantos a que ia. Pensei as gentes agindo como bons, muito bons – muito, muito bons mesmo – actores; pois que conseguiam não dar importância ao que estava a acontecer. Quando assisti à Matrix, a sensação piorou. Senti-me uma máquina. Algo instrumentalizado, tornado instrumento da Razão.
- Sou mero instrumento da Razão – pensei.
- Não!, não pode ser assim!, isto é falso!, não pode ser verdadeiro! – gritava eu quando isto apercebi, pois que havia em mim algo de emoção.
Rebelei-me à Razão. Ora, não somos instrumentos dela! Encontrei amigos de causa que, embora não fosse o alvo o mesmo, queriam rebelar-se contra algo (e, sinceramente, talvez tenham eles mais felicidade que eu em sua luta). Era isto o que tínhamos em comum, um querer rebelar-se.
Começamos então a nos encontrar justamente à capital do Estado da Razão, chamada Accademia. Eu achei curioso: havia, ao centro do Estado da Razão, um ícone da emoção, um ostensório, segurado por um eclesiástico entusiasta da Fé – àquela altura, a minha deusa. Mas fiquei perdido, pois que ele falava e defendia a Fé numa linguagem... racional! Sim!, racional!… Era possível que mesmo a Fé estivesse a ser invadida pela Razão?… Que a própria religião tornasse-se racional. Tornarmo-ía-nos todos máquinas? NÃO! Uma maquinização do ser humano? Para que viver então?…
Pensei mais um pouco, e se fosse aquilo um falar da Fé aos racionalistas?, apenas um exprimir-se na mesma linguagem, para os fazer entender algo de si?
Fiquei louco. Não conseguia já discernir o que é Fé e o que é Razão. A dicotomia perdera-se de minha alma e dirigia-se à universalidade tão sempre desejada, mas que faz sofrer por não ser sistêmica e fácil de compreender. Doía-me a cabeça. Pesava a globalidade que carregava dentro de mim. Eu sou o mundo? Eu é o mundo? Eu estou o mundo? A terceira parece mais apropriada. Comportava o mundo dentro de mim. Ele era eu afinal! Mas não era eu sempre, fui-o só naquele momento. Um ser-mundo sempre seria um… ser-Deus? Não,… é pretensão demais! Conti-me. Entendi então algo importante: Deus não sou eu, Deus não é eu, eu não é Deus e eu não sou Deus. Mantive nisto a Fé. Organizei racionalmente um pedido e implorei, então, a Deus, que me revelasse a Verdade da coisa… Ela, ela não podia ser daquele modo…, não daquele modo.
E Ele disse-me: "A coisa é simples, pretensioso homem que criei: a Fé é o centro de tudo, é por isto está ao centro de Accademia, e a Razão é só um meio de transformar a fé que se tem em força, em devir. É por isto que a Razão aparece na palavra do eclesiástico. Ela está aí para ordenar e dar forma objectiva a Fé. Retiro-me agora para descanso".
Aclareou-se minha vista turva. Sorri pela primeira vez em muito tempo. Dancei com meus amigos que se queriam rebelar. Eles ficaram contentes por mim. Anunciei-lhes a descoberta e… ficaram todos mudos. Saberiam já?… Não,… estiveram a só pensar. Voltaram então para mim e dançamos, mais uma vez.
Mas logo precisamos voltar a olhar ao mundo. Havia aquelas feias máquinas humanas, sem emoção, meros – estes sim – instrumentos da Razão a aproximar-se de nós. Havia em suas mentes programadas algo que dizia: “expulsai os próximos à Fé!”. E isto nos incluía, pois que nossa fé era construir um mundo novo sem extremismos. Espere aí, sem extremismos?… Então haveria um mundo em que não houvesse mais ambigüidades? Seríamos então… máquinas do nada-fazer? Desesperei-me novamente, pois que me sentia tomado unicamente pela Razão. Recuperei-me ao lembrar isto: o equilíbrio estava na Fé em comum união com a Razão. Não tive fé naquela descoberta. Não queria perder-me de volta. Mas não havia tempo para pensar. Só o havia ou para lutar ou para fugir. E fugimos todos. Fugimos aos recatados recantos do nada-querer-neste-momento, chamam-no, em geral, de… Bahr.
Bahr é um bairro sito à periferia de Accademia. Lá se encontram somente arautos da Fé. É a concentração da resistência. Lá sentimo-nos em casa. Finalmente um lugar calmo. Tão calmo, tão sem pressões que é viciante a alguns. Notei em Bahr, entretanto, um problema. Os que aí estão alienam-se da própria situação. Será por isso o exército da Razão a não o atacar?
Fugi… Só, desta vez. Devem ter-me chamado cobarde. Era-o. Cobarde de me entregar aos desígnios da Razão por ela mesma. Cri que a Fé e a Razão não podiam andar separadas. Mas fiquei preocupado: era eu só a crer isto? Será que meus amigos não o creram? Fiquei com eles irritado. Sim, estavam também irritados. Logo voltaram a Accademia e foram presos à Razão. Tiveram que a ela adorar.
Um nada-querer-neste-momento: há que se desconfiar! Muito simples isto.
O facto é que entendi porque Orwell tanto me impressionou. Converti seu Panóptico na Razão in persona e é óbvio o espanto de seu domínio, pois eis que está em todo lugar. Cantei esta estrofe, conhecida nossa:
Ainda bem que descobri, entretanto,
não sem algum concreto espanto,
a força humana deste viajar que a vida é:
a Fé na possibilidade e a possibilidade da Fé.
Eis meu relato, amiga, e eis que estou a esperar uma tua carta, pois que estás em Ecclesia. Conte-me as novidades de aí. Accademia anda em polvorosa desde meu sumiço. O teu só me chegou recente ao ouvido.
António Morujão
(mim mesmo…)

Sidney Azevedo
Homem de Fé ou Razão?
(mo dizeis vós, eu já não sei o que pensar)

Atraso lusitano? Logo se vê...

Nortistas anti-tugas...
Incitar-vos

Só para pensar, desenho algo cá.
Pensemos, amigos. Pensemos!
Pois que a linha algo nos diz.
Barcos perdidos sois sem remos,
se nada alguém vos dela disser?
Pensai!, preguiçosos! Ela por si
fala a vós. Dá-se a atenção pedir.
E torturar-se-á em um faquir,
se não lha dermos. Aborreci?

Sidney Azevedo
Obs: que os tugas se não irritem comigo, pois nada tenho contra eles. Só há muita história dentro do desenho. Só depende do como se o olhar.
Sidney Azevedo
Chargista do pensar
(Sou repetitivo, não?)

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Coisas que se vê (ainda) em Joinville

Laranjões

Ocorreu-me de nada publicar hoje. Pois que hoje me pareceu que nada parecia interessante para tanto. Mas, ao buscar alguma coisa entre as muitas paisagens que me deram estes olhos de curto alcance, algo vi que há muito não encontrava pelas ruas desta cidade empalmeirada (se me permitem o neologismo) - conforme notou uma colega.
Chamavam cá no Floresta - este bom bairro que até aonde sei é o mais folclórico da cidade -, embora aparecessem com alguma raridade ao bairro, de laranjões àqueles pacientes homens que andavam com aqueles carros-laranjas. Havia laranjões assim como houve também pipoqueiros ao Centro - e pena que quase não os mais há. Nada tinham a ver com laranjas de contas... Eram - não, engano-me, são, pois que o que vi hoje era um deles - os melhores vendedores que conheci. Não nos atendiam com olhar falso de gente interessada em vender o máximo para a comissão receber ao fim do mês, mas com o de alguém que espera a mocidade de um bairro chegar perto para com ela poder brincar, e divertir-se, como se se lembrasse de um passado distante e bom. Sorriam quase sempre. Lembro-me que quando descíamos de rolimã pelo tenebroso - à época - morro da rua Ibirapuera, estava sempre ao fim da rua um laranjão. Tinham ali eles certa freguesia.
Os guris iam ao seu encontro e compravam os sucos de laranja que o rapaz fazia em casa. Não eram aqueles comprados como alguns anos depois conheci eu, mas um suco. Não uma composição química que se pretende passar por suco. Não sei se era a sede que nos fazia pensar aquele suco superior aos que nossas mães faziam, mas o facto é que eram bons. Talvez seja até impressão mera minha pensar tão elevados os sucos...
Esses enganosos cursos de vendas ensinariam coisa muito melhor se os chamassem. E que bom que não os chamam, seria tenebroso ver usarem a felicidade de tais homens para vender. Arrependo-me já de tal sugestão. Embora até pareça que tal uso já ocorra. Ocorre?
E pensando agora, que incompatível o laranjão com o cinzento cenário: o cruzamento da Getúlio Vargas anterior ao trevo que leva ao Itaum. À esquina, a Cipla, fábrica morta de história polémica, de um controlo por trabalhadores e o mais... Outra esquina, o Americanas, chópim morto que nem saudades a alguém traz. Mais uma esquina, uma Praça, praça morta, da qual nunca soube o nome. Ao quarto canto, lojas mortas, desde aquela clínica veterinária à qual um bom pintor serviços prestou até ao perder de vista. Parte morta da cidade. O laranjão, por sua história, nada tinha de estar ali. Penso como foi fácil os fazer desaparecer. E também aos pipoqueiros. Deram aos homens velozes caixas metálicas. Que fazem sumir os aspectos de uma vida que só a pé se vê. As caixas encurtam nosso passeio, nossa paisagem, nossa apercepção. É por isto que se torna lúgubre o passeio. Mesmo aqueles escassos homens que se dedicam a tal actividade se tornam hoje sisudos, tristes, feios, incompatíveis com o cinzento cenário em que aparecem. Desolados ficam porque perderam a simbiose com os garotos. Se não há garotos, não haverá então laranjões. Não há mais garotos, há jovens (ou ao menos crianças que a si reivindicam tal título). Eu e toda uma geração, bastante recente que se diga, esteve entre um confinamento pela tecnologia em casa e uma vida livre, de livres apercepções. E eles, que vivem já totalmente trancados? Condicionados?
O que há connosco? vemo-los - aos laranjões, aos pipoqueiros, aos garotos trancados?, aliás, vemo-nos uns aos outros para começar?

Sidney Azevedo
Observador trancafiado
(E o sois tanto quanto eu...)

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Filosofia poética?

Filosofia dos versos quebrados
O mundo fechar-se a si mesmo:
Sonho inatingível do pensar.
Uma ilha perdida a um
grande oceano negro em viajar.
Sonha-se poder um dia dominá-la.
A ilha? Não, não é ao que me
refiro. É à pensar. Ides à pensar!
Todos vós ides. Sempre quereis
a mesma coisa e teimo em vos não
contar pois já sabeis o que que-
reis. E também sou eu a querê-
la. Esta querela quimérica: a u-
niversalidade. Musa poderosa, so-
nho ideal. Sonho e idéia são
a mesma coisa. Idéia minha que-
brar um texto qualquer, poesia o
tornar, a retornar do formato
prosa. Pois um não mais é que
a outra. Eis o mundo que do-
mino. Todos dominâmo-lo. Pura
linguagem que faz um mundo. Não
será o mundo a fazê-la? Pensar!
Pensar querendo o todo e não conse-
gui-lo, porque o mundo não é a poesia.
A poesia contém um mundo.
Um mundo dentro de outro.
E domínio não é mais que um afirmar e um não o desdizer.
Sidney Azevedo
Poeta do pensar
(Ah!, que pretensão...)

Antítudo inicial

Há que se ver além da porta...
Antítudo: eis um nome que encerra muitas possibilidades de interpretação.Aos que cá entrarem, antecipo algumas que hão de orientar o conteúdo deste blogue, por mais interessante, inócuo, inútil ou irresponsável que ele vos possa parecer. Antes de mais nada, olhe-se a palavra antítudo, que se pode ver como um antídoto anti-tudo.
Mas haja calma lá - aí, em verdade - que isto é muita pretensão. Não quero aqui oferecer uma solução objectiva aos teus problemas - se o queres, aconselho-te a buscar um psicológo (ou, em caso extremo, um psiquiatra [ou, no último desespero, qualquer outro cientista]) - pois que tal antídoto diz respeito às minhas necessidades subjectivas, como fugir a Cronos antes que me devore, como a seus filhos, engolidos em seus afazeres, buscando eu refúgio ao Kairós, como contemplador das coisas que se passam no mundo. Então, os temas que aqui serão expostos têm, em sua grande parte, que ser imprevisíveis.
Espero que me não façam cerimônias: quando me encontrardes pelas ruas desta cidade, a observar factos e situações inusitadas ou extremamente casuais, não dêem por mim, pois que não estou a andar ao mesmo Tempo que vós. Posso falar da segunda interpretação de antítudo: atítulo (sem título) - há que se dizer que é grande a viagem para chegar a este sentido -, e o que ele significa é que o título pode não ter relevância alguma, nem sequer revelar algo, em termos de conteúdo, do que cá se passará. Pois que, na fuga ao Cronos, poderia criar um mundo paralelo - e, convenhamos, tantos já fizeram-no, porque não posso também eu fazer? - bastante diferente daquele em que viveis, não relatando o que nele passa-se, mas o reconstruindo.
E qual a terceira possibilidade de interpretação? Ei-la: antítudo como linguagem de um académico luso-brasileiro, ex-seminarista, de família tradicional, cansado de um mundo em que as coisas se apresentam sempre do mesmo modo.
A certo grau, o que se proporá aqui é conteúdo artístico, pois que se não deve entender o exposto in ipsis litteris, mas como algo que deve-se pensar sempre além, como um convite insistente a uma visita ao Kairós.
Sejais bem-vindos!

Sidney Azevedo
Pensador?
(É o que mo dizem, mas não acredito).