sábado, 20 de outubro de 2007

Eu ainda publico textos aqui!

Não-produzir

Quando estão os barcos a ir não se vai. E por que não se vai? Porque há um monstro neles dentro chamado Dever.
Das juras não-ditas sobra um algo de remorso. É doloroso, e se pede um dia de vinte e sete horas. Faz-se as coisas necessárias à sobrevivência e... e... e fica o nada! NADA! Nada produzido, pois produzir não é incumbência. É dever. Deve só quem produz... E muito há que já o faça. E estes cansam-se cá em noites a claro no vazio do vão e vil divertimento...
O vinho permanece no cálice e permanece com ele no canto virgens os três..., um ido. A tecnologia lembrando o mar-te que devo..., um acto. No texto uma projecção que de tanto distar é aqui ilusão certa..., um vindoiro.
A tesoira dividiu tudo por aqui. O projecto é acto na dicção nocturna de um arquitecto de Occam. Racionalizar, racionalizemos! Mas pergunto para quê... Não importa, só é preciso racionalizar!... Pergunto de novo. A resposta é acção: sou expulso do convívio comum das criaturas... É importante funcionar, ou sobreviver. E só! A vida é! A vida é! A vida era... Era?
Sidney Azevedo
Falta um parafuso!
(Concreto puro...)

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Actuais de acto e de hodie (de ódio também...)

Mundo moderno

Só estou
e a cada canto a que vou.
Mas algo há sempre que me lembra
de humanos a sombra.

Querer afastar-se e estar próximo,
e não conseguir nenhum.
Eis a máxima hodierna virulenta
que parece não ter alcançado o cimo
de sua capacidade. Mundo algum
tenha havido que a isto agüenta!

E é o mundo doente.
É-o o homem também.
Do morto que não sente
à gente de ninguém.

Sidney Azevedo
Os loucos estão por dominar o mundo!
(não digam depois que não avisei...)

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Antítudo anti-lepidez

Sobre não iluminação...


Só estão a andar as luzes.

O resto mais é tudo morto.
E andam velozes,
a atordoar,
a desinformar,
a enformar
e desenformar.
A suspender traumas, pois que deixam estes de ser vistos.
Ante a luz, à luz de um teatro sem cortinas.
Ou que, se há cortinas, são elas de cristal.
Não por fragilidade, e sabeis de que falo.
A liberdade é próxima de nós.
A liberdade é, próxima de nós.
A liberdade é... estranha!, pois está contida no nada.
No nada da razão. No nada que a razão constitui.
As luzes..., as luzes chegam cheias e vão vãs.
(Mas não saem do lugar...)
É tão fácil transpô-las... Mas, que é que há?


Sidney Azevedo
Fotógrafo de Araque
(Ainda escreverei sobre Araque...)

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

O comum metafórico

Passam as coisas… as viste?

À vinda do trem opôs-se
o rodear do carniceiro.
Urubu rubro a irisar-se
junto ao matiz caminheiro
das luminosidades de classe
estranha. O trem d’Aveiro
vai àlgum lugar que devasse
o direito pútrido primeiro
da coisa segunda a passe-…


Um outro urubu maior,
metálico, manchou a imagem
e a ela mesclou fuligem de odor
desagradável aos que “viajem!”
foi ordenado. E ao calor
da obediência que também
foi, cá e já, algum motor,
coisa indizível, a mover o réquiem
da carne morta em ritual …oto(r).


A vida não vale o vale
que lhe vela. A vindoura
diz: “fiat lux!”. De jale-
co diz o douto: “fiat aura!”,
que, por erro fatal e
bobo, escreveu: “fiat aurum!”.
O ouro se fez hora, e, ora,
eis que chora o homem – comum –,
a sua criação. Com Deus.


Sidney Azevedo
Falta um parafuso neste poeta...
(ajudem-me a encontrá-lo!)

domingo, 7 de outubro de 2007

"(...) um mundo dentro de outro (...)"

É para se perder mesmo...

Ocorre que é necessário pensar... e isto só:



Porque aquilo que facilita as coisas merece o espaço livre da lata de lixo...

Sidney Azevedo
Artista da antiestética?
(àqueles que não agüentam este desenho: ide embora!...)

Mudanças de apercepção

O céu não mais é o mesmo

O desestabelecimento das linhas deu-se a dias escuros.
O dia era escuro porque o sol namorava uma certa estrela durante algumas horas do seu trabalho. Que nessas horas, as nuvens reúnem-se para protegê-los, pois têm consciência de que o mundo seria caótico caso seus encontros fossem descobertos. As nuvens, entretanto, não podiam agüentar o calor, pelo que se esvaíam dali em forma de gotas. A estrela neste momento vai-se embora, a pensar que não mais pode ficar. E que, quando a saudade de ambos é enorme, chove e pára, chove e pára e chove e pára e chove... Pois o contingente de seus muitos encontros mora na responsabilidade de ambos para o mundo. E este olhar o céu foi agradável, pois tinha-se certeza de que não era a chuva que logo vinha algo de ruim. No inverno, pensava-se, o sol e a estrela encontram-se sem tanta culpa.
Entretanto, alguns de Joinville duvidaram da história. A visão dos sambaquis que até então persistia lhes parecia... faltou-lhes a palavra...
- Mítica!, falou um deles.
Então os nativos que invadiram e ocuparam aquela terra pensaram, pensaram, pensaram, continuaram a pensar, pararam para comer um fruto alucinógeno (ninguém consegue pensar tanto tempo... até porque não tinha café...), voltaram a tentar entender e assim interpretaram o céu escuro:
- Não, o sol é sozinho ao dia, e sua tristeza é tão grande que suas lágrimas são chuva durante o dia. As nuvens são como lenços dele, que não quer, também, que o vejamos triste.
Gostaram do que construíram, aceitaram, e assim se olhou o céu de Joinville ao inverno. Mas logo acharam aquilo insuficiente... Que resposta melhor encontraram? Bem, um padre jesuíta que vagou pela região em 1173 disse aos nativos que o sol vagava no espaço durante o dia e que a cada volta que dá, fadiga-se. Sua luz já não é tão forte.
- E isto é sinal do retorno próximo de nosso Senhor Jesus Cristo - bradou -! Próximo está o dia de os mortos reviverem em suas carnes!
Em meio à explicações teológicas e teleológicas (a respeito do fim deste mundo para o nascimento de um novo), precisou fugir, pois os vivos (e os mortos que representavam) da taba ficaram insatisfeitos com a ressurreição. Fugiu para o Paraguai onde o Vaticano mantinha um posto de alfândega desde 1012. Era aquela visão dele tão... mítica como as primeiras aos nativos. A mim é-o, a vós então...
Chegou então um quarto mito, fedido hálito do norte, que dizia:
- O sol é fixo, e giramos em torno dele. Ele não é humano, e por isso, não pode ter sentimentos, ele só nos manda luz, uma luz tão forte que não nos deixa ver estrelas. O céu escurece porque o sol está atrás da parte da Terra em que estamos. Ponto!
Era insuficiente ainda. Mas aquilo deixou a todos tão perplexos, que creram naquela visão. Parecia tão verdadeira... Todos os setentrionais que vinham falavam com tanta convicção... Mas era insuficiente aos nativos. Mas os nativos logo... desapareceram!... Para onde foram é algo que quero saber. Devem ter partido em seu veículo espacial para encontrar a verdade do universo. O que ouviram daquela vez pareceu-lhes além de insuficiente, tolo, pois desencorajador da vida.
Mas hoje um profeta - um remanescente cultivador das velhas lendas - disse ao irromper do meio dos novos habitantes:
- Vós não sabeis, vos deram a saber, somente se sabia. Mas, agora, sabeis!
Todos calaram-se, pois sabiam que era verdade. Sabiam acreditar numa coisa, mas n'algo que lhes não era próprio. Adotaram e adoraram um saber que nasceu sem ser ali. Que imposto a ser ali, não era. Não tinha sentido. Ou então ganhava novo sentido. O céu de Joinville é único, em seu contante devir. E o céu de Lisboa é único em sua manta azul que some de chofre. Mas o de Londres, ao que parece, deve ser sempre cinzento. E cinzento também os daqueles que acreditaram nesses celtas. Pois que turvaram a visão do azul dos outros lugares. Mas os mitos são essenciais, e era sobre isto que devia falar. Porém, já não preciso falar mais nada. Só há isto a ver: as linhas.
Ou não falei de linhas ao início? Bem, são linhas de classificação: o mito e a verdade - divisão maniqueísta, não achais? A verdade é um mito. E todo mito é verdadeiro. E só pode ser verdadeiro ou mítico exatamente porque há. As linhas, é-vos evidente, já se perderam.

Sidney Azevedo
A tentar ver coisas, coisas demais, às vezes...
(Escrito em 19 de agosto de 2007, enquanto caía granizo...)

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Imagine-se...

Diálogo possível (talvez amanhã...)

Encontraram-se ontem, mas poderia ser hoje, a um ponto de ônibus, um jovem de trinta anos e um velho homem aos quarenta. Até ao que sei, desconheciam-se.
Disse o primeiro, com grande naturalidade, para puxar conversa:
- Ontem foi dia de São Francisco.
- É?, esteve a cidade de aniversário? e não houve festividade?
O jovem achou curiosa a reação do homem. Fez alguns cálculos: o homem tem uns quarenta anos, veste-se como um hippie convertido ao Capital - pois que usa calça jeans e camisa semi-social -, fuma um cigarro - o que não nega sua condição anterior. Aí um processo certamente tradicional. Homens e mulheres a colher muito fumo por pouca moeda e uma viagem deste mesmo fumo por paisagens que não são todos a poder ver. Embalamento houve do cigarro na forma tradicional. Mas que importância tem isto, ah!, sim, o fumo... Não era esse o fumo tradicional daquela tribo. A substituição foi exigência da nova religião. Claro!, mas uma religião esta em que entrou sem Deus um que haja a ser. Os hippies ainda o tinham. Não teve dúvidas: estava diante de um ateu.
Nisto se passou mais uns segundos, para formular o primeiro homem esta frase:
- Não estou a falar da cidade, asno.
- E que é esta infâmia?
A resposta deste foi instantânea. E não houve então resposta. O segundo homem fez também seus cálculos. Observou no primeiro um escapulário, item mais evidente da vestimenta - aliás bastante tradicional - que era, entretanto, igual a sua. Duvidou que o método de que usava para classificar aquele sujeito fosse o melhor. Em termos de estereótipo era como ele próprio. Pelos elementos não havia o que dizer. Humildemente, perguntou:
- E de que falas então?
- De São Francisco, protetor dos animais.
- Ahn...
O segundo entendeu: estava diante de um religioso. Com ele não podia falar. O primeiro esqueceu o fato: não tinha já com quem falar. Ficaram quietos. Chegou o ônibus e, abarrotado que estava, perderam-se.
Sidney Azevedo
Criador de possibilidades de vida
(E religiosos somos, não adianta furtar-se...)
Post-scriptum (para não se esquecer do como é): nada há aqui, contra ateus e católicos. Qualquer que se diga neste sentido é intriga da oposição.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Eu-metamorfose

Eu-lobisomem

A lua vi pela via da videira
que levava à casa da vidente,
da hora aquela derradeira
da descida dormente do poente.

Luz havia ainda em que não se
desse a metamorfose de um mim
sem sentido em ser da posse-
de-nada. Pergunto ao jasmim:
– Que vistes para assim te assustares?
– Nada – diz ele –, só um ser a mudar,
a mudar do nada para o menos-ainda!

Perguntei-me qual era palavra
daquele infame ser-perfume.
Mas entendi logo a sua lavra
quando morei em ver ao lume
o braço metalizado. Mero
mecanismo que era. Anelo
de destruí-lo, mas eis que quero
destruir parte de mim. Rebelo
à vontade tal desejo: a razão
quis dizer-me que retorno havia.

– Tarde demais – disse-lhe a fé -
eis o que o tornamos.

E eis também que mudas
ficaram ao maquinizar-me.

Sidney Azevedo
Poeta electrónico
(Tristes palavras, mas as são facto)