segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Sim, há sinos e questões

Primeira filosofia de araque

Uma vez me disseram que filosofia é a arte de conceituar... Como posso conceituar o irritante som dos sinos das algibeiras dos outros, as células da intercomunicação fragmentada que se reveste de pomposos nomes e nobres sintaxes, para designar a porra do celular?...
Conceituação preza uma justiça raquítica:

justo está aquilo que se condensa em uma seqüência de palavras exactamente do modo como se o pensa

Essa precisão, que tanto é exigida que necessidade se torna, mata o conceito e sua abertura possível à leitura do mundo.
- Desligai o celular, caralho!...
O silêncio é uma virtude dos que não conceituam, ou seja, passam por outras formas de ouvir as coisas, ainda que por muito pareça desprezível. Apontem!: a hora vive antes do seu conceito no mero porvir das coisas.
A assim vai dado novo pontapé.

Sadna Azneved
Em resposta pública a Pedro
Benteja pela compilação dos
dados existentes na viagem
de comboio de Araquari
a São Francisco do Sul.

A palavra sem poder concebida

De vitae altri per voce

Uma das características fundamentais dos livros que contam a história de maíusculo agá é a ausência de uma temporalidade que não seja exacerbada fora dos números dos anos.

a escrita morre no passado

O tempo desagradável se torna no instante de sua contagem, de sua distinção dos estados de alma pelo qual pode passar. Se erramos em algo é nas predeterminações da vitalidade de um texto ao lê-lo como nosso. E, se nos é impossível fazer o percurso de estar fora de si, devemos ressuscitar o que disse Proudhon para isto também...
A máxima enunciação do pensamento moderno, ainda que dita talvez com outra finalidade:

a propriedade privada é um roubo

A história que se conta é diversa, mas seu crédito é larápio.

Sidney Azevedo
Última tocaia deste tempo
(espero que o outro seja melhor...)

Nada para fazer em meio às velozes e barulhentas teclas dos colegas

De rerum visio cognitio

O conhecimento humano vive de uma rotina stractus-alla stracti. O que talvez se entenda de modo mais claro por interior e exterior; eu e outro; corpo e espaço; definição e indiscernibilidade; o raio que o parta e o diabo que o carregue: a panóplia das experiências como conhecimento, ractificada por Kant no iluminismo (talvez na tentativa de redefinir a negação da possibilidade de um conhecimento da gente dita simples, aquela ridícula crença de que o domínio das sensações é próprio dos grupos "de mais alta cultura" - de onde advém também a idéia de que a imparcialidade vem a ser tão boa e tão útil aos julgamentos de toda a espécie).
A tentativa de uma provocação em sentido contrário é negada pelo poder do mesmo dogma.
E agora, Barbo?

e agor'ò corte vem d'outra direcção vem d'lö machad'à cravar'o seio d'ärvore

Como assim?

enxerga longe gajo q'a vida nã'ë definiçã'è prèdefinição maz'hòacto de pensá-la n'o silênci'ìndiscernível.

E pá, tens razão...

AZNEVED, Sadna. Filosofia de Araque...
Discurso de benteja a Carlos Barbo.
Filósofos de Araque.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Revisão é preciso

Dos poderes humanos

É pequeno o meu poder: consigo enfraquecer o sol matando a convivência e a lembrança, mas entendo que se é ele a se esconder de meus olhos o poder é já da casta de noções unas, concêntricas e pronunciadas para matar a criatividade de nossos enganos e erros.

Sidney Azevedo
A enfrentar a cretina indolência do sol
(com a cretina pachorra humana de a tudo suportar...).

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Peço que me volte a razão!

O pé a limpo, só agora...

Há tempos não via meus pés a nu. É agradável vê-los tocar a poeira que a assepsia médica nos ordena deixar afastada.

Sidney Azevedo
Um apontamento vazio,
(como as nuvens, poeira do céu, que sobre os pés é que anda...)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Surge úmida a gravura... por estar na parede

Da imagem, nascimento da transcendência

Há meses não crio boas frases – ou ao menos frases que a mim deixem algo aproximado a uma plenitude justa (conforme o meu poder de sentimento compreenda-a toda, pois justo é o que perfeitamente se enquadra em uma forma a ponto de dela não se distinguir).
Penso na palavra falta e percebo que a ausência não dela advém…, da secura de um novo discurso por mim adotado é que surge. Túrgido o turíbulo de um altar onde o sacrifício é a entrega de um labor vadio e inconsistente – ou poderia tê-lo dito vazio e incoerente (um vate certo mencionou um “heroe que a si assiste vario e inconsciente”).
Mas persevera a questão da ermida… O ponto onde o homem vago se reencontra a olhar as vagas indolentes do mar (sim, o mar não é tão poderoso como dizem por aí, seu maior poder é a letargia não lembrada). A lida não lida, o agravo persiste, e a peste hasteia panos por todos os cantos.
A autoridade, se a há, em casos assim é tomada por rateios…, e os ratos que dela aguardam obediência só são queridos em sua imunidade sacra.
Se o sábio é o que discerne e sapiência é fruto de Gno, talvez haja que seguir o caminho de gnu. Migrar e mirar. A doutrina não se desvia para além do caminho de sempre. E cair ao enfado. E só.
Comunhão é também conhecimento, mas o temor é não mudar – ainda que à repetição. Pois o sal vem já aos olhos, e não se pode aguardar que a santa expie. Ela espia ali quieta. E a forma é levar à transcendência o que as palavras não podem medicar.

Sidney Azevedo
Um cala-te me basta
(o silêncio me pede os votos...)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Persistência em rótulos é isto...

Ignomínia nominalista (a vaga...)

Rezinga ao alto do morro um lobo ruivo
da luz que lhe não há a bater.
Cena tal é esta que a ninguém dá de reter.
Leio e oiço o que me dizem:
“Há que sentir, pressentir e ressentir!
Isso se vens a ser um vate…”
Sinto-me oco, e só. Sinto-me nada, nada sentindo.
E cai a rezinga do cão ancestral em meu vidro,
que vidro é de meu quarto se não o for antes da janela.
Insta em espatifar o som laivo ao ar do rebate da janela.
Pede fim aos “dês” quando fala.
E a hora de calar evidencia-se-lhe.
Vai, silencioso e pedindo barulho além dos seus passos.
A rezinga é-lhe o silêncio que incomoda.
E daí em diante extingue-se-lhe o jogo.
Sidney Azevedo
O tempo do lobo quer-se outro
(mas dão-no conforme a cantiga dos homens...)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Altruísmo inconteste

Anti-névoa

À névoa deu-se forma.
À hora em que não exibe contornos.
Seus limites são meras lembranças
talvez equívocas da existência dum inferno.

Vê lá que a hora se esvai.
Enegrecidos e embranquecidos
juntam-se em confusão que só então é moral.
Alvéolos andam em trabalho de limpeza.
Mas a limpeza quem faz é só a dúvida.
A névoa tem de ser desforme.

Sidney Azevedo
Em vezes de roedor
(outras de coisa nenhuma...)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Alvíssara da meia-noite à gare

Idéias passageiras
O bonde chegara. Partiam-se uns, chegavam-se outros. Estavam terceiros a olhar. Então no alto de um dos degraus do veículo via inquieta a insatisfação das saudades, tanto de quem se despedia do amigo ou parente, quanto de quem os encontrava na plataforma. A moça regressava da cidade onde a memória lhe disse ficar, onde fizera seus planos e os não concretizou, por não ser a metrópole lugar para a conturbada visão da menina.
Idéia se chamava. E mesclava idéias entre os goles de chá que tomara na casa da tia conforme a estadia em meio à gente muita, desorganizada como as primas. Não as bastantes para tirar daí uma filosofia, mas apenas as que isto prometiam.
Restava-lhe das idéias a lembrança. Um rabisco em fumos de noção que um senhor à cadeira sentado expelia para fora do seu cachimbo, enquanto passava-lhe à percepção as paredes húmidas de outros tempos, secas de um sol berrante e sujas a quem disso não soubesse. Elas eram assim. E ali, em meio à maltrapilhos tais quais ela, ia a pensar na inconsistência desse espaço exíguo.
Tempo, parece que assim lhe ordenava a casca de um nominalismo universal. E assim se reduzia a genialidade, sem a presença do ânimo. Morto, ruma à ceifa, então gasta a energia do corpo, e esquece o que vai no pensamento. Idéias lhe vêm sufocadas e vêem sofrida do sol a rapariga que conheceram. “São talvez só nomes”, pensa. “Nomes não enchem a cabeça”, diz-lhe a mãe. Mas fica aí o debate, chegara à segunda estação…
Sidney Azevedo
Idéias passageiras
(passem por mim, por favor!...)

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Machadadas e comentários infelizes

Ei-los...



Sonam as palavras invisíveis. Quanto mais precisai para ver que as coisas que soem conforme o soar dos edis são embustes, e, devo também dizer, medram-vos o medo e a insegurança . Não hão!, tão-só...



Sidney Azevedo
Machadadas.
(falta a viagem de oitenta dias...)

Epístolas lúdicas além-crepúsculo eléctrico

Um baralho espanhol


De repente as cartas se acabaram. Isto quando se apagou a luz, a estar os jogadores sem se ver. Nem janelas, portas ou lugar onde se tenha um resquício de iluminação.
– E pontas de cigarro?
Não estes jogadores não fumam..., não é necessário que todo jogador de cartas fume..., vá ver os senhores da praça Nereu – talvez algum, mas longe de serem todos (há-de se considerar também os possíveis [sempre possíveis...] problemas de saúde).
Voltando à partida..., destarte escrevo: Pensam que sua primeira reacção foi levantar-se e ir ao encontro do interruptor da iluminação? Não, o interruptor só era aí interessante ao fotógrafo que estava no laboratório do apartamento ao lado, que ao revelar o filme trocara, na escuridão das vielas encimadas estreitamente por telhados que se uniam em deixar ver do céu só uma fresta, o fixador pelo revelador. Mas este desastrado toma sua importância logo mais.
As cartas continuaram, os jogadores estando privados da vista que não a da memória e a do sistema de jogo. Os papéis com modos de cartolina prosseguiam seu passeio. E carolíngia era a expressão (e inexpressão) dos homens, ainda que ocultassem seriíssimos problemas individuais. Um senhor de idade e dono de padaria o primeiro jogador joga o seu seis de espadas, ele precisa de um oito e de um nove de paus, que não caíra na rodada anterior. Como se pensasse noutra coisa. O seguinte, professor de geografia e doutorando de economia, viu no escuro, agora ampliado, do símbolo de espadas do seis jogado pelo oponente o seu esperado sete de paus. Ele toma o sete de paus, a esperar um último rei de copas. Como se pensasse noutra coisa.
Desta feita, o bancário fariseu que destes outros cobra as dívidas está a perder três partidas consecutivas, e seu nervosismo já o faz perder os entrecruzos dos números e naipes, a ponto de estar desistido. Seu olho se põe no nebuloso escuro da filha, perdida nalguma ladeira com o filho do deputado Meira Espanca, que só a quer para divertimento. O olho outro (claro, era desgraça muita ser ciclope ou cego...) perdido na memória da mulher que o naufraga em dívidas numa ilha onde os navios só lhe passam para rir da cara. Toma uma qualquer carta e joga uma quarta qualquer.
O quarto é o ágil, mas contido, padre filho segundo do deputado Meira Espanca, irmão do violador de mocinhas. Aguarda a chegada de um ás de ouros, mas vê chegar, com a nula esperança que tinha, um, um..., hum... (agora está complicado, o que será assaz escuro para não tautologizar a própria escuridão?...), um obscurecido dois de ouros, que já tem em mãos, mas não lhe permite fazer uma nova jogada. Descarta então o incómodo três de copas. Como se em outra coisa pensasse.
Lépido como qualquer coisa que assim seja que venha à cabeça de quem isto lê cata este seu necessário oito de paus. E joga uma das cartas incómodas, que deixara ao canto da mão para livrar-se dela mais rápido.
O coração do segundo jogador palpita, ele vê a carta que precisa, mas ainda mantém dúvida, parece algo nebulosa. É o seu último rei de copas, mas as sinapses cerebrais e um grau mínimo de instinto lhe revelam que algo ocorre ali de muito errado.
– Não!
O grito vem do quarto ao lado. Todos parados, como que feitos de estuque. Era o fotógrafo, que ao ver a luz filtrada da clarabóia informal dos telhados da ladeira percebe que seu filme fora perdido. Então os jogadores silenciam-se ao perceber a situação. Na sala o cheiro de pólvora mergulha pelas cavas nasais dos presentes, atinge o pulmão, mas não mata ninguém. Ele segue o estampido surdo de três pistolas juntas. O gemido agonizante cheira a sangue, e não demoraram os ratos a lamber as feridas e a roer o salgadinho, então esparramado no chão. A luz volta. O padre joga algo pela janela, o dono da padaria segura dois revólveres e o professor murmura algo contra si mesmo, quase inaudível: “Eu, fi... is...?”, deveras baixinho, com seu trinta e oito à mão esquerda, onde empunhara a bandeira do país na última copa. O bancário agoniza, tendo às mãos a certeza da vitória em suas mãos, o conjunto de cartas vencedor. Os outros eram conjuntos aleatórios, que só se sustentavam com o vício do terceiro.
Logo chega o primogénito do deputado Meira Espanca:
– Deu tudo certo.
– Está aí!, responde, apontando, o irmão.
– Vejo.
– Então, e agora?
– Deixe aí os ratos, estes senhores de terno cinza concluírem a história ao defender a sociedade...


Sidney Azevedo
Um experimento literário outro...
(a derrocar a vida outra)

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Arre! Irra!

Engambelamento

Documento para documento.
Documento para o que não há.
Sarnento o atendente à hora
em que lhe não vem aumento.
Tormento, diversos ventos,
aos papéis há de chegar.
Nestes versos evidentes
não o são seus interesses
que só vêem os que o lêem.

Sidney Azevedo
Poema tosco:
(resultado é do trabalho...)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Esterilidade anunciada

Idéias e razões findas após um dia desastroso


Já há algum tempo que nada publico no Antítudo. Tenho estado tão raso de idéias. As fecundas idéias que nasciam do simples ato de abrir a página de edição de mensagens na rede - que já me propunha uma série de projeções brilhantes - a partir de um dado ponto se sufocaram no estado de descoberta de um sentido anti-descoberta. Como é possível isto? Até então não entendi. mas, não quero, efetivamente, entender. Quero só deixar perdidas essas palavras cujo escritor não soube vestir de modo literário. Findo é com o ponto.



Sidney Azevedo
Um desânimo
(e o descabido, acho-me tão improfícuo...)

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

In neo loco

Agradabilidade é uma questão de tempo.

A eleitor'é bastonante n'o-ar d'acto, quand'a vida n'erro se matà'o se perceber. É incrível-o q'há-de se fazer co'umas poucas palavras para dizer'o que se pensa d'ummodo quase perfeito. Só m'incomod'o jeito d'escrever'isso. Porém, s'ò que me não cust'é-isso mesmo: o-acto d'escrever, com'ao bastão d'um-eleitor, sem demarcação de sílabas!, dessez'instantes lógicos, vazios d'horas..., que sã'os da compartimentação das coisas, da su'insípida percepção...

Sidney Azevedo
Neogrammatica
(Sine necessitas a pulchrumitates vitae altri...)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Rápido e rastejante...

Destempo

O antítudo comemora um ano.
Não, não comemora, este blogue tinha a inicial intenção de não permitir que o tempo o deixasse contar e matar enquanto algo passível de conhecimento.
Tuo o que se conhece é antes uma certeza de morte que não significa a necessária morte, mas a perda da coisa e a saudade da perda da coisa e a conseqüente vontade de não querer nada porque o que se quer está tão intacto numa posição como se permanecesse e as coisas pudessem ao fim existir sendo e não existir como possibilidade intrínseca do que não há enquanto vida em si mesma. A questão é simples: a escrita mata. A fala mata. E mata o pensamento. Matar deveria ser também tornar-se mato. Aliás, matar deveira era ser nada, essa vírgula que há no tempo e indica a falta do tempo lembrando-o. Perdi.
E a definição está coisa sem artigo ou preposição. É ridículo...
Mas bastava ter dito isto:
"O tempo está na presença do aniversário, e ência quer vida no pensamento"...

Sidney Azevedo
Contratempo
(Temposterior...)

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A perda e o vício vaticínico de continuar a dissertar em linhas mortas

A senha de acesso, biltre!...

Não, isto não é sobre computadores... Deveis antes ir a uma suja taberna portuguesa onde o pouco que há de claro é o brilho dos azulejos, limpos, só e diariamente, orgulho exclusivo dos outros ao dono do bar. O contraste das paredes pensa-se do mesmo modo que se pensa a existência, sem perceber-lhe a tolice de ser assim que é antes a inexistência de uma tolice e sim o instar de pensar desse modo.
O mosaico de cores some no copo de ferro enchido de vinho, e quando vazio o tonel foram-se as confissões. "Levai a escada ao fiorro que o cigano disto precisa". O sotaque morto aparece, talvez na resistência sem vontade de um família que insta fiorro a forro, jiogo a jogo e tiomar a tomar.
Sim, chegara um forasteiro vindo de Beja - há sempre de existir um estrangeiro da cidade vizinha a chegar para dar "vida" a um cenário morto -, mas como que inteiro e conhecido, mudado só o que lhe havia de moderno para o pós-moderno e tudo cheirando ainda ao tal extrume da idade média. Não é nada.
Arrasta-se o dono do taberna, toma a escada, e prepara o bolso com os vinténs de escudos já sacados à bolsa do cigano, dividida pelos então presentes que haverá de ganhar daqueles loucos na sua mente insalubre, tomada do pântano de sangue das porradas que levara.
O gajo de Beja quieto no canto, morre aí no texto e na necessidade de pensamento do autor de algum leitor perdido de atenção de haver movimento em momento nenhum por que não é importante.
"Tejo, rio triste dessa gente do fado, me leva embora da saudade de não ter idéias e sonhos para voltar à virgem sensação de não saber as coisas!, se conhecimento é isto, livre-me". berrou o Benteja em Lisboa uns anos antes, antes de ir à gare da praça do Comércio que nunca existiu, rindo-se dele os truculentos matarruanos desta freguesia ridícula de tamanho.
Ó, Benteja, por quê o suicídio?
Parece que não podes responder...
Conhecer é morrer e agora que conheço isto matei a humanidade.

Sidney Azevedo
Deixai-me andar sem me dar conta disto...
(Indiscernibilidade já!...)

Só p'ra não dizerem que deixei o blogue morrer

E que é tempo para além da hora?
Apenas para anotar uma idéia que vem há tempo incomodando este sandeu:
é-nos possível viver sem tempo?
Continuo a pensar que uma coisa não existe para aquele que não a apercebe. Assim, não há o tempo para aquele que o não vive.
Quando assisti à defesa de banca da monografia de Paulo Horn, intitulada, infamemente, Tempo, esta questão se refletiu num espectro de mera narrativa... Descobriram por mim que o texto tem tempo. Descobriram por este enigma que o tempo existe no lugar em que sua indiscernibilidade mais é necessária: na contemplação do texto. Mas não descobriram, deram antes ao tempo tal existência. Uma leitura temporalizada de um texto me parece exatamente a morte de sua fecundidade de interpretações. Que esquizofrenia..., Foucault e Deleuze fazem-me sugerir uma geografia do conceito e ainda tem-se de lutar com tempos...
Ó, raios!, tempo deveria ser só o clima, como o era aos antigos. A tempestade do passado deveria ser o o-que-já-foi e a ventania do futuro o o-que-virá, e não essas estruturas, chaves de leitura, horas pré-agendadas que se constroem a partir de uma matematização de nossa relação com as coisas in nomine efficientiae, em temor ao ente indiscernível do Mercado – que o raio o parta!...
Minha avó fala do tempo como algo alheio, e mesmo em minha mãe e em meu pai ele assim parece. E quando entre minha família me encontro assim o sinto. É quando me jogo fora de casa que essa maldição aparece. Eu o ligo a uma série de entidades que não existem: à empresa da imaginação lá daquele que corre apressado, ao shopping a que vai a moça para comprar o ingresso do show antes de pagar as contas, à sociedade em que vi o socialista da turma de jornalismo falando ontem.
Ora, eis que vejo o aracuã a voar raso pelo Centro. Sim, eu tenho razão: tempo não há. E assim rumo à Catedral rezar. Isto ontem. Hoje agradeço pela terça-feira a Horn por toda essa reflexão. Mas deixemos o tempo a morrer, tal conceito é inútil já.
Sidney Azevedo
Uma nova questão
(Até à nova vir...)

sábado, 9 de agosto de 2008

À moda do porto

Ou tá quetinho ou lebas no fucinho...


Há quanto tempo não ouvia trabalhadores do comércio? Uns cinco anos talvez. E eis que me cai às mãos o álbum na braza. Em tempo: levar um pensamento até às barreiras do ilimitado e não aí parar! Pois se somos todos - ó, fraqueza desgraçada!, deixa-me para atormentar a outros mais, instou-me a pensar em jogar cá entre as palavras um advérbio que é insípido por nem ser ainda verbo, mas um impositor de preexistências - crianças a quem os modos de vida possível se querem parecer os únicos através das mãos imundas dos outros. Enrolados ao papel alumínio, silentes fazemo-nos.
Por quê agora o estrabismo? Por quê não o olho cansado, está a ver o vazio quando se cala para olhar estúpido?, está a vida tão silenciosa de sobressaltos..., de turras e qüiproquós. Esturra a paciência, leva a alma à conseqüência de si com o que se quer do mundo e não com o que é ele porventura querendo.
Alquebrar-se. É só essa a grande verdade do mundo? Prefiro dormir pueril e acordar ancião: o resto é calculismo raso: casca de ovo caída no convés do navio por descuido daquele marinheiro e que uma vaga põe como igual ao que é a clara, o sal de si, o sol dos instantes escassos e a gema dourada de tudo isso que é indiscernível. Não, não vale o resultado da fórmula o seu esforço.
"Está quietinho e aguarda a mão ao focinho!" O pecado é isto: tranferir o pouco do infante medroso aos que te querem criança no sentido deles...

Sidney Azevedo
O meu número é zero nesta democracia
(Mas a ela não quero pertencer...)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Cartola

15 de março, de uma leitura descompromissada

Após algumas tentativas frustradas de escrever algo minimamente útil, sobrevém a intensa vontade de desistir (em verdade, desistir não é um processo intenso, mas desgastante, um desgaste de relevo lento, lento...). Mas me lembrei de um texto de outros tempos, que transcrevo na íntegra:

Autores até podem pretender querer ter um método para seu texto, mas ele sempre se rebela, descobre atalhos e vielas, salta uns muros, atravessa a cidade, corre pela passarela e daí à ponte sem intervalo claro entre algo e o nada que está a seguir. Uns perguntam: "que estás a procurar?" e outros: "foi por ali", acreditando ajudar. Diz só o que procura: "obrigado, posso fazer isso sozinho". Continua a corrida no forte, as palavras seguem do corredor ao canhão, donde pula ao cais do porto numa lepidez de antílope e aquele que o quis engaiolar vê-se preso à perseguição, aproximando-se do mar, dono do mar, consegue então ver ao longe que seu objeto se transformou em sal e dispersado está no mar. Secar o mar e continuar a busca? Não... o autor só vem e deixa o sal de sua lágrima estar no mar a conversar com aquelas ingratas criadas por ele. Busca a barca, molha a mão n'água e brada: "cá estou com o vazio das coisas de prender e a certeza sempre cheia da liberdade!".
Sidney Azevedo
Um texto que estava perdido
(mas que sempre se acha em bom momento...)
Post scriptum: após o texto Sentimentos, de Aneska Kolaceke.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Antigüidade... sensação estranha

Autêntica insular

Sente-se lá a antigüidade como ela pode ser sentida.
Sim, a frase é essa. Não errei. Se me viéreis a dizer que antigüidade é uma ideação, fico em silêncio. Ninguém vê que a idéia é um modo de sentir, e talvez o mais forte deles. O instante de ser, sentir-se como tal, só há quando a partir daí se raciocina. O sentimento de antigüidade, próprio dos que não intentam nem atinam com coisa alguma, só persiste na alma dos outros mediante outras ideações. Ninguém admite sentir o Estado por o pensar, e racionalizam apenas seu poder, deixando-o como uma coisa afastada, e... existente! Ninguém admite pensar a humanidade por a sentir, e a emocionalizam em uma universalidade - igualmente pensada sem ser sentida - pressuposta e pressentida sem distinção do que seja pensamento e sensação. Fica a humanidade assim frívola.
Fica assim, aliás, toda discussão sendo infrutífera.
Não, não adianta, teorização continua sendo maquiagem, as palavras pensadas, se levam alguém a sentir alguma coisa, é só um sabor de insolubilidade, uma teimosia do espírito em não se entender o que se lê porque o que se lê é antes qualquer coisa com gosto de café frio.
Se tudo assim vai sem vida, fica esta dica: tentai sentir uma antigüidade, com sua ambigüidade e desgosto, sua eqüidade forçada através do pensamento e sua iniqüidade querida pela sensação, quando tudo, ao fim, é o mesmo.
Ou, se quereis uma contemplação fácil, permanecei lá onde estais, com vossos rótulos.
Talvez seja besteira esta tentativa de captar o momento de sentir e pensar por ser escrito. O texto parece matar toda espécie de vida possível, e tornar frágil toda palavra. Não sei, mas o texto devia ter findo sido umas linhas antes...

Sidney Azevedo
Incompreensão
(Assim esperada, porque pensada e sentida)

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Nostalgia

Deveis repousar!

Durma,
durma, durma, durma, durma!,
sob o refrescar da bruma,
leve brisa que não é verruma.

Durma,
durma, durma, durma, durma!:
já caiu a noite lá fora
sob o odor da jovem cânfora...

Durma,
durma, durma, durma, durma!;
cerre seus olhos com uma âncora
e não note a barbárie do mundo.

Não durma!
Isto é uma armadilha
que parece uma trilha
a levar a milhas de distância...

Não durma!
Isto é uma armadilha!
Para que se ser pilha
duma máquina qualquer?

Sidney Azevedo
Escrito em 27 de dezembro de 2004, quando faltava sono, para o tempo em que os nervosos d'alpendre miravam ao longe...
(Antítudo logo vai estar de aniversário... 20 de agosto)

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Findo um dia, por hora...

Jornal

Tudo a jornada torna mais falso,
o dia insosso e o público imanente.

"Por ela faz-te ou não?",
dizem as fontes lá da praça
exauridas das moedas que lhas instamente jogam.

"Fica com o que tens, furtador do não próprio,
menino que és, pois dos níqueis de hoje que te dei
já os não hão mais..."

E há-lhe um barulho nas calçadas,
marulho na aba, gorgulho a tapar o sol.

Grita lá o ser: "vem cá, indiscernível objecto,
algo hás-de ter a me dar!"
"Quê, bicho d'agouro?"
"Tema um à jornada d'amanhã"
"Ide-te a escrever, besta, a hora já é com o dia
e esvai-se-te o tempo..."

Sidney Azevedo
Avlas, lectivas indiscernibilis!
(Até uma dessas...)

terça-feira, 29 de julho de 2008

Texto esporádico

Morte às linhas de explicação

Tenho, em meus textos, enunciado algumas vezes o conceito de medo do Leitor, e não me parece uma idéia absurda, pois já a vi sob outros nomes (e que raio é um nome?...) citada por muitas pessoas. Alguns o chamam de Lógica, por pensar que todas as palavras jogadas por lá e cá, para fazerem sentido, precisam passar por esse crivo para terem o estatuto de falar aos outros por si mesmas. Outros denominam de Linguagem, por que só as imagens conceituais, geradas em parte pela própria palavra - e esse é talvez o mais violento dos pressupostos que já conheci - teria o poder de gerar um entendimento entre as pessoas. Por algum tempo pensei, enquanto escritor amador, na entidade do tal de Leitor. Seria natural, para que haja, pois, algum conhecimento, a necessidade de respeitá-lo... Arre! Por quê tanto limitam o conhecimento?...
Chegando a tomar contacto com o tal de jornalismo, estendi a ele o conceito de medo do Leitor. Hoje penso seriamente se o Leitor não é mais que uma ficção do molde - haja calma..., ficção do molde quer dizer o espaço conceitual territorializado do critério de um fazer. É comum o pressuposto (também pouco questionado) de que «milhares de jornalistas disputam diariamente a atenção de bilhões de espectadores» e se aguarda, quando não se planta a ficção (no sentido do latim facere - fazer, criar, construir) de que «todos precisam de informação». Pois, vê que o jornalismo supre seu "Leitor" auto-por-si-mesmo-construído (essa composição é esquisita, mas todos os sentidos interpretados são válidos), precisamente por construí-lo.
Nunca me pareceu que desejassem as pessoas alguma informação, e aproximar uma técnica qualquer - como a humanização, a etnografia, a literatura, ou o método que o raio venha a partir - dessa informação na esperança de suprir o Sr. Leitor é um esforço auto-entrópico porque o jornalismo insta em manter a informação como cabresto. O dado, aquilo que se deveria apresentar igualmente perante todos, só o é diante do deus que os cria: o autor dele. Ora, a perspectiva - e ela não está 'dada' no espaço delimitado - inverte a lógica do jornalismo: há quem o despreze por não querer ser informado. Um jornalismo sem pautas e exigências poderia tomar um raio de método - que não a apuração - e fazer um "diário" (ainda que de um só dia) sobre um facto (mantém-se o 'c' da grafia portuguesa para relacionar ao latim facere), tomar uma personagem, escrever ser a obrigação de ser didáctico ou facilitar a coisa ao ponto do ridículo...
Exactamente: o jornalismo se quer filosofia, arte, religião, sabedoria e mais que tudo isso, ciência, quando não deixa de ser, tão-só, o jornalismo: um conjunto de idéias pulando num local público (aquelas formas de conhecimento não se pretendem públicas sem um grão-instante de reflexão). Não penso cá razões económicas: parecem-me deveras batidas, porque, como o jornalismo, fornecem explicações..., pois explicações são a datação (o conjunto de dados) teorizada que a própria pessoa que a lê tem de montar - não há provocação de idéias, mas se exige uma operação matemática...
A crença do Leitor é o mal do jornalismo, não o fato da exactidão (isso qualquer um que tenha escrito sabe da dificuldade). Fui cretino? Se fui, melhor... «Jornalismo que não incomoda não incomoda não é jornalismo», diz o professor Mick. Se realmente é assim, espero ter feito jornalismo.

Sidney Azevedo
Notícia apela...
(Arre!...)

sábado, 26 de julho de 2008

Um canto..., e só.


Ponto de ônibus


Está-me já o olho bem cansado
de aquilo tudo que vê ser o que sei.
Resta lá subir da gare ao autocarro
em direcção ao meu só saber!



Sidney Azevedo
Aguarda, pois, o ônibus...
(E o resto das coisas...)

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Babel, como evitá-la?...

Debilidade

As conversas - sim, as conversas... - já não põem ao grau de enlevo que antes conseguiam. Tudo é falto. Principalmente paciência para precipitar-se. Precipitar tem por cair sinônimo. E se é o ato que vale o verbo porquê o velamos (ao primeiro ou ao segundo?...) como defunto no texto?
Precipitam diálogos às lixeiras. Sejam eles ruins? Não. É que talvez todos saibam que no monólogo está - preferia cá que fosse... - a única comunidade. Débil para argumentar. Comunidade não depende de mais de um, em comum, mas de um, com o interior fechado.
Não há meio... A linguagem foi novo saqueada. Como o fazer parar?

Sidney Azevedo
Débil para argumentar.
(Céus, o que ocorre comigo?...)

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Derradeiro

Senectude precoce

Venho sendo medíocre. O ruim de ser dest'arte: ser um médio sob o mezanino. Sumiu de mim aquilo que escrevia. Não sei mais dissertar... Qual foi o última menção inteligente que fiz? Penso isto; tudo o que tenho feito tem provocado bocejos. Nada mais se me quer bastar - não por que tenha insaciável vontade das coisas e precise delas sempre em verdes cores. Nada me quer. A não ser meus pais e quiçá - por de mim dependerem - o casal de cães de minha casa...
Sidney Velho Azevedo
O Antítudo se esvai
(Desânimo...)

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Os da ilha de Creta

Vitral
Eu sou cretino.
Eu li Plotino
e o sol a pino...

Eu sou ignaro rei e réu.
Vendo o céu
e filtro o seu.


Sidney Azevedo
Mais poesia e foto cretinas
(escassas linhas bastam...)

terça-feira, 15 de julho de 2008

O guia indiscernível

Um banco diferente

Uma vicissitude de acontecimentos ruins e é permanente a moratória...
- Suma-te daqui!
Berrara a gerente do banco que não era banco a não ser que o fosse de dados, pois uns o chamam 'memória', outros 'história' ou 'conhecimento' e uns ainda perdidos lá ao fundo das ambições: 'humanidade'. Mas não era. O que era, à hora, era um tal de pensamento.
- Suma-te daqui!
Mesmo o narrador se pergunta como pode ter havido no pensamento um gerente..., acha que foi ludibriado - e o pior deste verbo é que ele parece ser uma troça que enaltece a vítima, não o traíra... -, pela necessidade que tem, da narração, de afastar-se do contar.
- Quem me guia? - Pergunta o narrador...
Janota, olha um outro a vidraça:
- Ninguém guia-te; vem cá... - Chama mansamente o outro e continua: - Vê!, há lá fora de ti um mundo. Esse conglomerado de coisas é que te controla.
O narrador não crera... Encerrou...

Sidney Azevedo
Criatividade nula pela noite!
(Mas não é a noite responsável...)
Post-Scriptum: Esse texto é experimental..., e parece-me que ficou uma merda. Que dizeis vós?

A rede e o novelo.

Da palavra

O texto não é pensado
deveria-o a poesia ser.
Sem graça vai sendo rimado
em palavras gastas como o são as ter...

Sê eterna, palavra!,
quero-te ver assim...
E uma janela se abra
nesse tom mudo de estopim.

Pois finda a ser estás
se destarte o querer eu:
desvaloro-te com músicas
e pensamento de corifeu...

Mas, penso-a, vida, ela, muda
sem plano nenhum ou futuro.
Palavra está agora carrancuda
à visão do indiscernível obscuro.

Sidney Azevedo
Perda uma ou outra palavra.
(vai, uma hora as acha...)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Com texto presente, que siga...

O alfarrabista

Ter na presença da língua um café dormido à noite toda é o que resta da noite em alfarrábios, em meio a pó, imundície e vermes roedores. O que pode haver nessa biblioteca de Alexandria, intacta de gente, mas em decomposição?... Só um heraldista a perder-se do mundo, sem já lar que seja seu sem ser esse esse espaço reticente. Há excesso. Contínuo uso de um som só em um dos parágrafos que lê. É o som das intercalações, pausas pantanosas, em que difícil é o movimento e só o vento se embrenha aí sem problemas. Permanece o café ao mesclado do frio das guerras púnicas, do pó que não fora bem coado e do sorvo inquieto sem vontade nem gosto. Finalmente um "que há?..." soa entre os séculos das linhas escritas. Que se fez... É tarde. O dia amanheceu. Um punho de pó cobre os olhos, que não são louços, mas um agastado de fraqueza e outro de catarata. Segue a ler. E sem saber mais... Sem saber..., sem distinguir ou mencionar umas tantas perdidas palavras sem muito nexo. Raia o sol em vividez. E essa verve matutina: não tens força. Cai, prostra-te e desce. Não és!
No entanto, ninguém havia...

Sidney Azevedo
Um sentir vazio da voz é difícil...
(E é quase impossível)

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Defenestração

Um desenho defenestrável...
Aos que não sabem ainda, já digo que defenestrar é o "insólito" acontecimento de se jogar algo pela janela - ainda que esse algo seja, no entanto, alguém... Tem-se tornado um hábito comum, com incidências recentes contabilizadas em todos os cantos do mundo... Hoje mesmo, vi uma vizinha defenestrando o seu gato pela janela, um rapazinho que defenestrou um papel de bala, e, eu mesmo, ao terminar o desenho que por hora vos apresento, tive grande vontade de o defenestrar...
Acontece que, com o recente caso da queda da criança do segundo piso do Mueller, há que se ampliar o conceito, pois uma tão bela palavra - defenestração - tem que reter conter um crime que, apesar da crueldade intrínseca, requereu certa dose de glamour... - afinal, só pessoas com graves distúrbios cerebrais internos (que não são, segundo uma grafia politicamente correta, doidos varridos [e isto é um eufemismo]) cometeriam um ato destes...
Pensei hoje à tarde em defenestrar o blogue, mas, convenhamos, basta-me de ser pessimista..., é só não aderir às novas modas para ficar vivo...



Já havia cinco publicações sem imagens algumas neste blogue - a última é a (giga-) crônica do teatro ocorrido há mais de vinte dias... E, referindo-me a desenhos, talvez se possa a este número somar mais quinze postagens - estimativa, não pus uma fieira de palavras do gênero "mais ou menos" pois tencionava escrever esta fieira maior entre travessões para fazer sofrer o leitor em linhas desnecessárias sendo este um muito divertido esporte.
O que importa, na publicação do presente rabisco, é a extrapolação do gênero charge para qualquer coisa mais ampla: um desenho, em fato..., pois a seu autor, mediante uma abstinência desta arte das linhas, volta a ela com vontade de não apenas evocar alguns elementos simples e soltos numa página, mas de entregar algo mais acabado - ainda que confuso... As manchas e grafos não pensados foram mantidos ao máximo possível com o tratamento da imagem, que só sofreu alterações com o reforço do contraste. Ficou um desenho razoável, para quem não desenhava há mais de duas semanas...

Sidney Azevedo
Faltou habilidade...
(... e alguma dedicação à idéia original...)

PS: o que importa aqui é esta nota de rodapé..., pois tencionava eu com as palavras acima mostrar o como um texto pode ser ruim quando clichê de jornais...

sábado, 5 de julho de 2008

Anticontrato: contato inexistente

Um texto de rescenso

Faltava ao escritor uma frase com que começasse seu texto a ser entregue em exíguo espaço. Não há, até aí, novidade alguma..., reconheço. Mas a novidade é que a dita frase, sendo já existente faz-lhe por hora uma ara que lavrar. Saiu, pois, sem para onde ir ter, a escrever coisas, talvez belas aos ouvidos e à vista, mas doridas à consciência que as quisesse em algum estúrdio instante entendê-las: "as sardas de Sardenha pouco tem de sossegadas quando ao mar tira-lhe a vista seu sal".
Tem-se agora um novo modo de chorar em palavras, esparso, como bem indica o próprio método que usou: esta lhe foi, com alguma devida correção gramatical que se exige, a impressão grafada em sons que cedeu ao fim de um suspiro clichê o editor a si. E de si perdeu o controle recuperando a pronome à hora em que com o punho fecho e no ar o braço estendido entendeu que o verde abaixo de si não era relva, pois deveras escuro, limo não, pois faltava brilho e a textura não era viscosa, mas era ainda, quando se chocou, um charco de água tingida em verde, talvez de suas algas embrionárias. Vira-o quando passara a uns trinta metros da casa de prensas da qual era o editor o dono. Perdera o si e a alegria das páginas, altas já com o rasante que passava, umas aos fios condutores de eletricidade, aquelas, creio, que reclamavam do exagero da expressões de que se necessita para fazer ao outro entender, o mais especificado possível, aquilo, aos quilos e médias, que se quer dizer. Outras, que clamavam paciência à liberdade do tempo, iam se encaminhando já à porta da torre eclesial do relógio - e o sino já a bater... Algumas, no entanto, sobravam ainda à mão do editor. E as findas restantes, cobriam ora a grama, ora as flores do jardim, se sobrepondo entre as ramas e as quilhas de barco que só o eram com as artes do jardineiro. Mas havia as que queriam em sua imobilidade atapetar o restante fundo da laguna além das pedras que já tal função cumpriam, e bem...
Perdido o texto. Achou-se, umas horas mais tarde, estarrado na orla da rua, o mesmo escritor, com duas garrafas ao lado, atrapalhando o caminho de ausentes transeuntes que deviam estar em casa, quietos, aquecidos e aguardando o mormaço do dia próximo. O que lhe restava era a companhia desagradável de um guarda a lhe dar pontapés contínuos ao dorso para que acordasse. Findo, cambaleou um pouco, resmungou, cedeu as restantes notas ao guarda, para não ter de passar frio em um a cela, e foi à casa sua. Chegando lá, viu a luz. E a luz era a de si mesmo escrevendo, ainda a mesma lembrança do texto feito ser incompleto pelo reconhecimento da alegria como sentimento desnecessário, sem saber se era já futuro ou passado. Perdeu de vez o que era a ara do si.


Sidney Azevedo
Cretinismo concreto puro!
(Novo movimento a ir!...)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Uma garrafa virtual, perdida, como se sempre espera.

Mensagem incontentora

Há em mim uma tal falta de vontade de fazer algo que o que faço parece estar sempre por terminar. Daquilo que queremos que perdure, fica-nos um sentimento de intensidade passada e que só pensada pode voltar a ser sentida.
Já não tenho ânimo de querer defender a tese de que sentir e pensar são de fato a mesma coisa. Nem esta, nem uma outra tese qualquer... E qual quer ver-me a defendê-las, se minha retórica nem tem amaro seu sabor? Nem a isto diz algo que chame a atenção. Aliás, quando dizem os discursos logo se esvaem no halo superior do pessimismo.
Que direi eu?... Se me falta modo de dizer... Resta-me ir à orla da praia, aguardar que traga-me o mar o que resta ainda de mim: que me devolva o que foi meu, e já!... Isto a ele ordenarei! E se me não devolver, estarei sem mais a logo vagar..., e chorando, o que se me perdeu nesta batalha de trocas...
Falta-me ainda alma para isto. Um humor ancestral iria lá a ver que tal monstro é esse mar, e veriam então que é ele algo que não guarda, pois é enquanto o modelam. "Devolve, pois, o tesouro!", diriam. Que fleuma é esta que se me quer falta para fazer bastar a mesa aos que a usam e deixar-me a comer só! Não há, não há. Há o outro sangue: que entende a morna criatura, branda, que aguarda, que está à beira, tanto da praia como do lugar em que sua tempestade não se era audível sem o ser o grito do silêncio que extrai a calma à certeza, criando o monstro, que, ainda que reconhecível como dúvida, rejeita o vinho desta embriaguez da facilidade de apelidar as coisas.
Sou este mesmo medroso que lá continua a escrever a carta sem a terminar. A garrafa a um canto, e ondas a esperar a mensagem... Não quero, entretanto, que caia a uma praia onde possam lá entender-me. Pois entender é algo que já de mim se perde sem mais ter dono.

Sidney Azevedo
Senhora do mar, vê se me ouve!
(De tua voz minh'alma vai vazia!...)

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Nova antirreportagem...

Ínfimo número de participantes conclui Hungaroring

Nova pancadaria em Hungaroring: desta feita apenas 8 dos 22 carros concluíram a prova desta semana. Os pilotos da décima à decima sétima posição se desentederam na primeira seqüência de chicanes da pista, tendo saído todos já na quinta volta.
Do gride de largada, composto por Vitória Brennaisen, Jacques Mick, Luiza Rosa, Ellen Moreira, Sidney Azevedo e Gisele Krama, apenas o segundo e o quinto concluíram a prova. Os maiores provocadores de quebras mecânicas foram a suspensão e o freio, mas os erros de cálculo de alguns pilotos lhes custaram caro, Mick perdeu o bico dianteiro em confronto com retardatário, Guiomar Sousa perdeu a roda traseira esquerda contra o muro da entrada dos boxes - erro que lhe custou cinco paradas, mas não a fez desistir da corrida -, Álvaro Diaz rodou na curva do grampo quando liderava e desistiu da corrida por raiva. "Já pensou, tu errando bem quando pode vencer...", disse, em tom de riso, um tanto mais tarde, quando empunhava uma câmara fotográfica para registar os seus companheiros restantes de corrida.
A Portucalense foi a única equipa a conseguir levar os dois pilotos ao fim da corrida: Mohandas Braga em sétimo e Sidney Azevedo em quinto - que poderia ter terminado em segundo se não tivesse rodado ao faltar onze voltas para o fim da corrida, também na curva do grampo, e perdido três posições: "Raios!..., saí vós daqui!...", esbravejou violentamente contra a imprensa.
A primeira vitória de Jacques Mick encerra-lhe a constância de segundos lugares que mantinha desde Nurburgring e veio gravar-lhe o nome com o recorde da pista mais ameaçadora do campeonato: 1'19"677, à décima quarta volta. Depois de aí, com o desgate intenso dos carros, as voltas andavam todas na casa dos 22 segundos. Em segundo lugar ficou Renato Sevald, seguido de Benta Cardoso, Elisa Máximo, Sidney Azevedo, Sebastião Azevedo, Mohandas Braga e Guiomar Sousa, que ficou com duas voltas de atraso.
Até Spa Francorchamps, semana que vem, esta é a situação:


Sebastião Azevedo (Fátima) - 74, vitórias em Interlagos, Ímola, Barcelona e Monte-Carlo;
Vitória Brennaisen (Polskaferrari) - 62, vitórias em Sepang, Montreal, Nurburgring, Magny-Cours;
Jacques Mick (Francarabic) - 36, vitória em Hungaroring;
André Nunes (Setúbal) - 22, vitória em A-1 Ring;
Gisele Krama (Russicranian) - 21, vitória em Albert Park;
Elisa Máximo (Lácio) - 14;
Sidney Azevedo (Portucalense) - 13;
Priscila Carvalho (Catarin) - 13;
Jessikha Todt (Deutschen) - 11, vitória em Silverstone;
Renato Sevald (Russicranian) - 11;
Jasmine Azevedo (Fátima) - 11;
Ellen Moreira (Francarabic) - 10;
Álvaro Diaz (Setúbal) - 9;
Benta Cardoso (Catarin) - 8;
Itamar Brennaisen (Polskaferrari) - 6;
Mohandas Braga (Portucalense) - 6;
Pedro Vexani (Lácio) - 3;
Sérgio Meurer (Deutschen) - 3;
Rodrigo Vargas (Brasilis) - 2;
Luiza Rosa (Brasilis) - 1;
Guiomar Sousa (Limoeiro) - 1;
Ernestina Sousa (Limoeiro) - 1.

Sidney Azevedo
A informação em segundo lugar
(Caramba, já foi ultrapassada...)
Post-scriptum: isto é jornalismo gonzo, antes que alguém o creia verdadeiro...

terça-feira, 1 de julho de 2008

Erratas (penso, logo devo ter querido despensar...)

Ração Ratio

Ando tão racionado. Magro de comer pães que não há. Fecha, a padaria ri-se de mim. Ando uns tantos, acho o granjal. Hei-de roubar então um frango. Não posso, vejo lá um outro perdido electrocutado à rede. Oras!... ai, nem posso elevar a voz para uma miúda ironia que doem-mos os pulmões. Ando tão racionado!, que me viesse uma só ração!... Peço na oração, mas também ela raciono, para não gastar energia. Devia estar parado de escrever. Mas não, tenho de mandar às galés, lá de onde os escravos as criaram, a ratio!... Racionemo-la!..., já!..., ai, ai!..., dói-me agora também a corda. E páro antes de uma morte previsível.

Sidney Azevedo
Ando tão racionado!
(Isto é tão justo a mim que é tolo...)

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Claros uns, turvos outros. Vede que o título não é este!...

Distinção


Resolvi um cálculo.
Resolvi?..., sim, fi-lo mesmo.
De aí em diante que me há-de entreter?
Ver do cão ao carteiro o pulo
ou o curtir sua pele em marasmo?...
Não, vou-me pois a ver o éter!

Mas é-o parte de eterno...
Raios!..., onde me vai já a distinção,
essa inter-rogação pelo conhecido conhecer
que graça tem só ao inverno,
talvez do inferno de saber vil a acção
que é ainda fraqueza de uns homoi-macer.

Raquíticos e esparsos,
ocos de si: ovos de chocar certezas de outrem,
vades pois a pô-los à ordem em cálculo...,
Macera-lhes um crânio e uns pés. Lassos
vêm ainda em distinguir também
que o mesmo do cão faltou a si: um pulo...

Sidney Azevedo
Eu sou, mas não quero escrever que sou...
(... porque isso significa: não sou mais)

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Luta de espetos de churrasco

Dom quixutos e pontapés

1º ato

- Ai, ele vai se jogar!
- Não, não vai!
- Aposto que vai!
"Aposta quanto?", perguntei-me, pensando em ganhar algum vintém para o café na faculdade - ou melhor, para o bolso da carteira, raio de café caro!...
- Parece que alguém vai se jogar... - comenta alguém com indiferença.
Lembro de alguma cena que n'algum dia formei quando pensava numa feira da Idade Média: as pessoas a acotovelar-se para conseguir o melhor pato, o que renderia a melhor criação, o banco trocando moedas, diferentes em cada vila, os pesos e as medidas a enganar trouxas (não digo trouxa para pessoas, digo-o para os sacos que retém baixa quantidade de sua capacidade), e os alguidares com as pinhas e os azevos a transbordar sem ninguém os comprar, e a taverna, cheia de beberrões e de palavras que soavam, "Estais querendo um pugilato cá à fronte deste testo" - a apontar para o elmo -, "vinde então!". Ora, e uma estreiteza de espaço abriga o que há de lojas de luxo, estas, no entanto, espaçosas por poucos que aí estão, mas às quais não vêm os aristocratas, que devem ler Aríosto, talvez, com o pé à lareira - sim, muito frio, como esqueci de dizer. As galerias mais estão para os vendedores de fora, esqueci de o dizer. E, ora, alguém ameaça cair e se espatifar ao chão do alto da torre da catedral. No entanto, o que há é um grupo mambembe a estrepuliar.
- Non se faze mais mortis com'anter - reclama um senhor do ano de 1140 de minha imaginação.
"Raios!" - suspirei, pensando ter dado um grito altíssimo.
Mas pensei que há cá de diferente? Há beberrões no Quiosque, a gritar, "que é isto?", assim como há uma galeria mais fechada, um tal Shopping Direto da Fábrica, e, ai..., ao outro lado, uma financeira, a reverter dinheiro virtual, abstrato de máquinas, em coisa alguma que se possa permutar em consenso. E lá está a gente das lojas a querer o muito do nada, nas fuças dos clientes a dar por alto o valor das peças quando não valem nem o proporcional à algibeira.
"Ninguém vai se jogar, é uma peça de teatro", confio o dito à vendedora de um loja.
Ora, era, pois, um teatro, o grupo mambembe da minha Idade Média.
Uma releitura de Dom Quixote, de Cervantes, mas com um tom moderno. Saíam noivas a passar pelo largo da peça e fugiam. "Dulcinéia!" - não, calma, não está bem representado. "Dulcinéééééiiiiiiiaaaaaaaaaa!" - agora sim!..., e vinha Dom Quixote, terno e gravata, a descer de rapel. As noivas ao longe. E a persegui-las: ele, inefável em sua sanidade de nobre...

2º ato


Um grupo de pessoas, no entanto, chega sem entender muito bem:
- Que é isto? O cara vai se jogar?
Digo, com ingenuidade: não, meus amigos, é uma peça de teatro.
- É uma peça de teatro?
E esvaem-se pelo mesmo ponto de onde saíram...
Enquanto isto o Quixote moderno atravessa a rua, a mencionar suas futuras aventuras, e tentando gritar mais alto do que as buzinas do automóveis que transportavam uma só pessoa, dizia:
- E isto, nobres senhores, é o princípio de uma história em que a liberdade se doa em nome do amor a uma mulher!..., pois a vida tem de ser vivida em nome da cortesia, vamos, tenho de salvar minha Dulcinéia!...
Soou-me estranho, pois o Dom Quixote tinha uma cara de Schopenhauer, aqueles mesmos cabelos cinzento-esbranquiçados com que ao vento gritava: "as pessoas devem andar do lado certo das calçadas". Penso como o pensador não estaria doido ao ver a principal rua de uma cidade como Joinville parada por uns mambembes, carrancudo, a espantar as crianças, enquanto o Quixote só atraía a curiosidade, com seu olhar esperançoso de encontrar, pois, sua Dulcinéia. E logo lhe atormenta a visão das noivas, e ele lhes seguia a berrar: Dulcinéia!, Dulcinéia!, venha cá!, meu amor! E os donos dos carros, impacientes já há muito tempo sem entender o que se passava e menos ainda a sinalização dos guardas a lhes fazer voltar.
- E a minha sessão na Acij? - é o que pareceu-me alguém ter dito (para os meus leitores de fora de Joinville digo que é a Associação de Comércio e Indústria, manda-chuva da cidade).
E o gajo Quixote encontra deitado então seu elmo de Mondrino, no carrinho de um catador de papel, na calçada da rua do Príncipe.
- Ora, eis o elmo de mondrino, o que pode fazer um cavaleiro nobre como eu sem uma proteção à cabeça...
Pessoas saíam, outras se aproximavam. Logo vem o professor de história da arte, o espectador de arte, outros artistas (de teatro também...), os críticos, os repórteres dos cadernos culturais de... arte, oras! Iam-se embora os poucos curiosos pelo assunto, embora quisessem permanecer as crianças, foram elas daí puxadas por seus pais.
- Mãe, eu quero ver.
- Vamos, filho, a gente não tem que perder tempo, aqui...
E o Quixote, soergue-se sem olhar para o que lhe parecia mais um ratinho de importância, perto de sua primeira indumentária de cavaleiro:
- Ora, que queres com o elmo de Mondrino?
O catador a lhe tentar alcançar o que, para ele, era a panela de suas refeições.
- Ô moço!, que é isso, dero em robá os catadô?
E aquele, então lhe olha e diz:
- Sancho, ó, meu caro Sancho? Demorastes em chegar!...
Levanta-se o catador de rua a protestar:
- Não enche, meu!, vai embora!, que papo é esse de Sancho?
- Sancho Pança!
- Pança?, má eu nem sô gordo!...
E os mais se juntam aos primeiros fotógrafos e câmeras, tentando pôr ao lado a multidão de aficionados que já os seguia como que em romaria ao adentrar a praça Nereu Ramos, acompanhando a negociação do cavaleiro:
- Sim, Sancho!, és Sancho Pança, meu fiel escudeiro!
- Escotero?, eu hein?...
- Não, Sancho, és escudeiro, todo cavaleiro de aventuras precisa ter seu escudeiro!
- E porque eu, catadô de papéu, ia sê do nada assim, esse negoço aí, como é?
- Escudeiro...
- É, escudero?
- Ora, os escudeiros, ao fim das batalhas, ganhas grandes somas de dinheiro, tornam-se vassalos e mais fortes que os demais plebeus.
- Dexa eu vê se eu entendi! Que é coisa demais pra minha cuca!, eu vô ganhá grana, vô tê terra e vô tê poder?
- Isso, caro Sancho, e posso ainda te tornar governador de ilha.
- Peraí, ilha é aquele troço meio que cercado de água por tudo que é lado?
- Sim, Sancho, uma ilha!
- Até'inda poco tava bom, mais governadô de ilha é esmola demais, até logo, Dom Chicote!

3º ato

Quando parecia que ia a ficar sem um escudeiro mais estava cheia de sombras a visão desse novo Quixote. E a maior das sombras era a presença de um certo pudor que relaciona vergonha e liberdade de si:
- Hei Sancho, mas como poderás conviver com a glória de ter fugido da aventura?
- Eu, fugido?..., oras! Só num sô é doido de te acompanhá!
- Ora, e que hás-de perder se comigo vires?
- Ai, tá bom! Mais vamo que eu num tô afim de perdê tempo; se é pra i vamo logo!...
A este ponto o circulo fechado em torno de Quixote e Sancho estava já bem consolidado. Uns transeuntes a ele mesclavam-se, mas não sem desânimo por entender que não conseguiriam acompanhar o que ocorria - a não ser que fossem altos o bastante para os dedos dos pés e suas respectivas articulações os pusessem sobre os ombros dos que aí se interpunham.
E havia a necessidade dos que, enquanto estavam na praça perdidos ainda e seguindo as noivas tal qual o Quixote, mas sem saber bem o porquê; tentavam estes, por ora, posicionar-se de um lado para outro, ao melhor modo de entender que "raios!..." havia entre as moças e o tal do cavaleiro andante - certa colega chamou aos que praticavam tais movimentos de suricatas, não como aos animais da savana africana, mas como àqueles bonequinhos que saltam de tocas e que temos de acertar com um martelo estilo Chapolim Colorado.
- Mas falta-me ainda um rocim ao qual de pompa terá o nome de Rocinante!...
Ora, que nobre mais chato, vem-me a interromper a narrativa quanto ela está em sua melhor parte..., a da descrição dos olhares curiosos, dos que hão, tão-só, à volta de um evento inusitado - e, ai, volta-me a idéia da procissão execucional medieval:
- No hai sanguina qui fax mundo im pace qui no sedi sangro dei partia! - segreda-me o vigário de Vigo, também da minha imaginação, de 1137, quando da execução de um superlativo das idéias de Orósio..., bem, isto não muito deve interessar a quem espera ver pessoas subindo nas árvores e ver o Rocinante. Pois, se o original era um cavalo velho, talvez já sem dentes, carne e força para uma viagem, que seria este tal senão uma carroça?
- Ora, houve evolução, pelo menos!
Evolução?, sim..., era isto mesmo o que ouvi. Pareciam dois que gostavam de teatro a rir-se do humor da peça. Mas não cri muito, ou melhor, não quis crer, pois que evolução imprime algo de valor no sentido de que o que se conhece está a ser melhor justamente por que se o conhece. Ora..., pois assim o que não se conhece não tem valor. E o que se conhece se conhece quase sempre do mesmo modo, tendendo a não mudar o olhar; mas como isto é uma crônica e não um dos textos dissertativos-desconstrutivistas - dos quais o Antítudo já se cansou de receber - que vamos ao Rocinante.
Sabeis já que se tratava de uma carroça, ou um carrinho de catador de papel como pode talvez ficar mais claro. Mas, aos olhos do Quixote - e caso nós o vermos com uma certa bondade - é um glabro cavalo, perdão!..., deixai-me pois corrigir: um garboso cavalo. E é com parte de um crânio de um cavalo morto na seca que se dá a ver, e ao próprio Sancho, que aquilo pode ser um Rocinante Frankenstein:
- Ó, seu Dom, eu acho qu'isso tá bom pra dizê que é a cabeça...
- É perfeito, meu caro Sancho - mas diz isso pensando na cota de malha ao outro lado da rua - que achemos na hora as coisas de que precisa um cavaleiro de aventuras!
E aí se vai, atravessando à frente do ônibus que o aguarda pacientemente - certamente sem a paciência mesma dos passageiros que as suas casas aguardavam seu passar o caminho atravessado por um sujo qualquer.
- Por favô, esse selim de bicicreta (em verdade de uma moto) tem que servi como assento!- Tá faltando rabo nesse cavalo - avisa alguém, o qual não podemos já saber se é da platéia cúmplice, ou se algum saltimbanco espião ou algo do gênero -!
- Ai, Deus, onde vou achar um rabo?..., aqui não tem - diz Sancho olhando os traseiros das pessoas, até que alguém lhe entrega um cachecol (é alvo suspeito também esse de que seja ator) azul.
- Eita, mais até que ficô um rabo bonito, azul.
E o Quixote voltava já vociferando o nome de Dulcinéia de Toboso que haveria de ser sua..., mas ainda lhe faltava a espada...
- E cá está a minha espada... (não me lembro muito deste trecho)... com a qual irei salvar minha doce amada.
- Ô, moço não faiz isso, qu'esse é pra sê o meu espeto de churrasco!
- Vê, Sancho, só me falta pouco: as aventuras (diz isso montado no Rocinante)
- Ô, seu Dom, cuida pra vê se num cai!
- Avante, Rocinante!
- Ai, vamo lá - e se vai o Sancho a puxar a carroça e o pouco de papelão que tinha além do sandeu.

4º ato

Apesar da movimentação da praça, ainda consigo um lugar alto - não, não subi numa árvore, mas podia dali, se quisesse, falar com os jogadores de dominó, que lá estavam, incansáveis, cavaleiros andantes das partidas infindas..., pare-se já que estou a forçar palavras onde elas pouco cabem. O Quixote estranha logo três rapazes:
- Ah!, estão cá os detratores!, em guarda!
E pouco se importam os jogadores de dominó...
- O que é, hein, tiozinho?
- Ousais desafiar o peso de minha espada, saibais que me rio de vós como rio de ditirambos!...
- Esse cara só pode tá loco - cochicham os rapazes -!
- Lutem!
E com essa palavra joga as espadas-espetos para os três, fazendo grande barulho o aço meio enferrujado e o cimento das pedras não-calcárias.
E a batalha começa com lutas um-a-um, tendo o Quixote sido derrubado logo no primeiro golpe e se levantado logo, igualmente, ao primeiro toque das costas com o chão.
Ergue-se e recomeça a batalha, desta vez com a intervenção de Sancho, munido de um bambu:
- Ô, povo, pára, não faiz isso c'o seu Dom, deixa ele!
De La Mancha consegue derrubar dois dos rapazes que se voltam contra Sancho, partindo-lhe o bambu.
- Ai, meu Deus! - e olha com uma cara de espanto bobo.
- A luta prossegue e o Quixote tem 7,5 pontos contra 18 dos rapazes, parece que ele vai vai perder essa luta!...
- Pois é, caro Fulano Narrador, ele tem dado poucas balestras, se tentasse, talvez conseguisse atingir em cheio o outro amigo.
E após pensar nesse outro diálogo possível olho para os aposentados do dominó: não lhes atrai o som das lâminas, enquanto as pessoas em um restaurante à frente, que tem uma sacada, de lá olhavam admiradas o que se passava na praça. E os fotógrafos novamente se acotovelam para encontrar ângulo, mas com alguma cautela. Esqueceram, a certo grau, da recomendação de Capa. Também os taxistas tentavam olhar. Os traunseuntes voltavam a parar. Até que Quixote se engalfinha, do nada, com seu escudeiro.
- Ô Dom, pára, pára, por favô!
Até que o cavaleiro cai exausto.
- Que cara loco, vam'bora, galera!Aos gritos de "é isso aí", vão-se os garotos por um outro lado.
- Ô, seu Dom, não adianta brigá co'essa gente, não!
Mas não dura muito tempo a advertência, logo passam correndo pela imaginação do Quixote as noivas, e volta ele à procura de Dulcinéia.
- Dulcinéia!
- E eu não digo que mulhé só desgraça a vida dos home?, ô, seu Dom, volta aqui!
E quem volta é o Sancho para trazer à rédea o Rocinante.
E alheios vão no jogo seu os aposentados, sem nem mesmo olhar o que lhes vai ao redor.


5º ato


E eis um marulho ensurdecedor. Estamos nós à beira da praia para que haja marulho?, e o mais: há marulho que deixe atordoado? Não, pois, tratava-se de um ronco meio surdo ao longe, que se aproximava, lento e crescente, com uns tantos de carros a buzinar atrás.
Penso um dos motoristas:
- Que é que tem agora, que não tem nem espaço para os carros passar aqui?
A rua era a Engenheiro Niemeyer. Acompanhava um degredo de som e de ouvidos, que a uma nova idéia tive de Schopenhauer a resmungar:
- Oras!, uma escavadeira!, mas até isto a atravancar o texto fluido de uma cidade, um texto que deveria correr com um andamento da natureza - diz isto como se esse andar da natureza não fosse só mais uma projeção do homem nas coisas.
- Vinde, dragão temeroso, que minha Dulcinéia não poderás roubar - berra Quixote para a escavadeira, tendo nas mãos o pedaço de bambu partido por Sancho na luta com os rapazes, encaixado em um pedaço de cano de pvc velho e partido nas pontas.
E golpeava com vontade, enquanto a Dulcinéia, partilhada que era sua visão por todos, na existência de um pequeno ser em véus de noiva na pá da escavadeira. Violento, continuava. E agora as buzinas pararam. Talvez estivessem os motoristas, sós, como costumam estar nesta cidade, a entender que ali ocorria um teatro. E aquele louco, já quedos uns pedaços do pvc, partidos com força, na calçada do outro lado, pára quando o funcionário da empreiteira, grita, após uma estupefação efêmera:
- Ei, meu amigo, que é isso!
Quando então cai o gajo Dom mais uma vez é ele levado por Sancho. Há uma saraivada de palmas - ai, esquecia das palmas, muitas, conforme a cena... - e o Quixote, montado em Rocinante.
- Voltemos ao trabalho! - o outro da construtura, que expressou o que para muitos poderia ser o pensamento.
Estando o carro ao fim da praça, mais próximo agora aos aposentados, o Quixote resolve dar, ao fim, o definitivo ar da romaria, pois que sobem todos em direção à Catedral. Antes, paro e converso com um antigo conhecido de Igreja, taxista, que me pergunta:
- Estás no teatro?
"Não, só vim assisti-lo" - e, ao certo, não falei com tal ênclise.
- Ah, bom, mas o jornalismo todo tá em peso aí, né?
Não pude deixar de rir: é, parece não há outra notícia.
E eis: volta-me a Média Idade, aquela lá de algum lugar, da capela dos ossos de Quixotes outros tantos que se foram.

6º ato


E eis que vem as pessoas todas subindo a rua do Princípe, o ar processional poderia fazer alguns pensarem que a romaria quixotesca seguia, de algum fato que é possível - subvertendo o fato de que o fato é necessariamente o que se passou para o que de fato pode ocorrer -, à Catedral (reconheço que o excesso de intercalações mata o meu texto...). O que há, então, dados alguns passos, é uma pregação dos valores da cavalaria andante, os quais não me lembro muito bem porque à calçada tudo se fazia apertado...
O Quixote não estava ferido, como se poderia imaginar, da luta com o dragão-escavadeira. Havia-lhe, ao que parece, força para ainda proclamar o discurso. E eis que a repetição torna algo inevitável. Pois novo perigo se posta, à entrada da rua das Palmeiras: dois palhaços mascarados, mantém presa Dulcinéia de Toboso da imaginação do Quixote em uma gaiola de paus atados com cadeados.
O ambiente, margeado por algumas casas ao estilo português - e outras tantas ao estilo do nada-é -, com sua quinta de palmeiras a cria, a impressão, como uma cidade ibérica do século XIV do qual perdeu-se a paixão do Quixote, relembrada em excesso pela gente romancista de duzentos anos após. Ao alto da torre - de uns poucos metros... -, embora não saiba se teve o Dom reparado ao prédio da farmácia Minâncora e visto lá as noivas e as nuvens que sobre elas se punham. Tinha olhos só para o degredo de sua amada. E as criaturas que a aprisionavam, vendo que o herói resolve atacá-las com o gládio às mãos, rolam a estrutura, fugindo a noiva para a torre. E o Quixote quedo ao chão e logo a polícia prende-o, ainda ele a distribuir espadadas à armação. Posto o gajo no carro, logo o vai pelas esquinas seguintes e some. Fica o Sancho a gritar que apenas ele o entendera, que o dera por alguém, enfim. E só.
Terminam as moças noivas em coro lírico, a rua com uma lembrança e os passantes com ar imbecil... Vão todos para casa. E eu ainda a pensar: ai, que idade é esta, raios!..., onde vivemos...


Sidney Azevedo
Irra, só linhas e linhas...
(Findo, nada é...)
As fotos são do nobre amigo Jacson Almeida, blogueiro do Photoart
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terça-feira, 17 de junho de 2008

Mundo esquisito, leia-me!... Vede que vós, ao vos ler, sou eu!

O mundo inacessível


Mundos esquisitos, inacessíveis, mas a criar portas para mim. Vê, a porta é o meu pensamento; "mim" é alguma coisa que não admite estar, mas está. E esta vida de estalajadeiro do mundo que sou, recompondo a desorganizar, propondo o fora que é o dentro - mas sem definir que sejam tais coisas... - como tal assim parece. Parecer lembra perecer: e, cá entre eu e mim (aí vive o nós!...), isto é talvez o que possa apelidar de Verdade.
Pois apelido falseia, alcunha readmite e liga, e nome-próprio, oras!..., quem sabe a faceta que representa? Mas o mundo é meu, pois sou eu quem lhe dito as regras!, vê tu mesmo que sou-me: há vida no fora, mas está incomunicável. Comunicação não salva. Destrói, e refaz o inefável do féretro social: és tu mesmo (desta vez tu, pois o eu já não quer ser-se, é-o, embora, ainda...). Vades embora!, e deixai o silêncio...



Sidney Azevedo
Mais um exercício
(... só funciona à falta de música, raios!)

Discussões e incertezas: a escrita está mudando

Quatro ratificações e Acordo Ortográfico segue sem implantação

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Por Sidney Azevedo

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A próxima reunião da Comunidade de Países de Língua Portuguesa deverá ter na pauta de discussão a implantação do Acordo Ortográfico nos próximos anos. O tema volta a ter força, após dezoito anos de negociação, com a ratificação do Acordo pelo parlamento português, em 16 de maio. Pelo acertado no segundo protocolo modificativo, de 2004, o Acordo passa a valer assim que três países o ratificarem. Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe já o tinham ratificado até 2007. Desde então a aplicação da nova ortografia tem se dado de modo hesitante. Professores, tanto no Brasil como em Portugal antecipam algumas regras, mas sem muita certeza de quando passam a vigorar. Com a ratificação de Portugal, o Acordo tem mais chances de aplicação.

Quando se fala nas modificações propostas pelo Acordo Ortográfico muitas vezes confunde-se ortografia e gramática. Muitos pensam que pode haver mudanças na estrutura frasal ou no vocabulário, quando, no entanto, ele só muda a forma de escrever as palavras: “Isso significa que teremos de escrever como brasileiros? Já nos não bastam as novelas a massificar?”, questiona o armador português Alberto Araújo, 26.

Noutras vezes não se sabe do Acordo: “O quê, vão mudar o português? Já não era sem tempo!”, exclama a vendedora brasileira Ketlin Espíndola, 19; “Isso é bom, precisava evoluir”, diz Renata Ganzenmüller, 18, brasileira que faz curso técnico de contabilidade.

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Nem sim, nem não

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A controvérsia em torno do Acordo não está nas ruas, entre os aproximadamente 230 milhões de falantes da língua, mas nos núcleos envolvidos com as letras, pelo menos no Brasil. O professor de português e músico Abdon da Silveira, 62, acompanha de longe e concorda resignado com a mudança por entender que ela facilita o trâmite burocrático entre os países, sem a necessidade de dois documentos oficiais, mas afirma: “as alterações devem ser outras”. Insistiu algumas vezes que “isso não fará do português uma língua com força internacional”, embora “aproxime os países falantes”.

O também professor de língua portuguesa Anilton Weinfurther é contrário ao acordo porque ele equivale a “trocar seis por meia-dúzia”. Questionado sobre que mudança deveria ser feita pelo Acordo, mencionou as regências verbais por serem grande fonte de confusão. Para modificá-las seria precisa uma nova gramática.

Pedro Tadeu Vexani, 26, estudante de jornalismo que cursou Letras por um ano, fala em uma “pasteurização do português”, e por isso não concorda com o Acordo. “A beleza da língua reside em sua complexidade”, comenta, e lembra que o middle-english de Shakespeare era complicado, assim como sempre o foi o francês, que era a língua padrão do século XIX. Vexani não crê que as mudanças possam tornar o português uma língua “mais forte”, mesmo que a ambição seja essa.

O aluno de jornalismo Rodrigo Silveira viveu três anos em Portugal e reconhece no país o tradicionalismo. Pensa que a modificação “tende a criar um espírito comum entre os países”, a aproximá-los não apenas no plano de documentos político-econômicos, mas no cultural também. “Em Portugal usam-se muitas gírias vindas de Angola, mas quando o assunto é o Brasil, as coisas parecem afastadas e se quer afastar mais”, observa.

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Extremadas e desmentidos

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A imprensa portuguesa polemizou bastante sobre o assunto. “Os jornais sempre davam às falas de Graça Moura um lugar primeiro por concordar com seu conservadorismo ranhoso”, explica o estudante de Letras João Manuel Azevedo, 29. Vasco Graça Moura é jurista, deputado europeu e um dos personagens da batalha de artigos contrária ao Acordo. Segundo o eurodeputado, o Acordo não tem validade enquanto todos os países não o ratificarem, como prevê o texto original de 1990. Outros defendem que poderia haver a obsolescência súbita de livros e a conseqüente destruição de bibliotecas. “Ora, não veem que não tem sentido manter um ‘p’ em ‘óptimo’ quando não se o pronuncia…, a não ser para quem gostou da Ditadura”, ironiza o vendedor Tiago Sousa, 22, ao relembrar a ditadura de António Salazar, que insistia que “as colónias voltariam a ser de Portugal”.

“Embora a maioria dos portugueses entenda e esteja indiferente ou aceite a modificação e não perca tempo discutindo em páginas da Internet”, diz João Azevedo, “o grupo antiacordo emprega pressões para impedir a promulgação do Acordo pelo presidente”. O Manifesto em Favor da Língua Portuguesa, liderado por Graça Moura, com quase 60 mil assinaturas, já foi entregue a Aníbal Cavaco Silva por duas vezes.

Um dos argumentos do Manifesto diz que “as editoras portuguesas ficam assim prejudicadas quanto ao mercado africano”. “Isso não é óbvio?”, pergunta Alberto Araújo, “não parece que o Acordo só atende aos interesses do Brasil?”.

Para o doutor em comunicação Jorge Pedro Sousa, que não tem acompanhado muito a questão, a idéia da obsolescência súbita é “ridícula” porque “hoje se lêem bem livros do século XVI”. Sobre o mercado editorial não vê mal nenhum na concorrência em cada país lusófono: "Oxalá os livros em Português possam circular com facilidade em todo o mundo!”. “Quando se fizeram mudanças na ortografia sempre houve oposição, mas depois de um período as novas grafias entraram facilmente nos hábitos dos falantes de Português”, conclui o pesquisador em entrevista por e-mail.

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Visão de um angolano

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“Angola tem mais a ganhar com a existência de uma ortografia unificada do que Brasil ou Portugal”, afirma o jornalista e escritor angolano José Eduardo Agualusa. O país tem, segundo ele, apenas uma editora, que é estatal, e que se destina à publicação de editos (textos oficiais do governo). Agualusa teve de ir a África do Sul para publicar seus livros. “Em Portugal o custo é demasiado elevado, voltei triste”, afirma na entrevista por e-mail. O autor afirma que a principal vantagem reside na educação. “Precisamos desesperadamente de livros. Importamos livros de Portugal e do Brasil. Isso significa que temos livros em duas ortografias no nosso território, facto que suscita natural confusão, sobretudo aos leitores recentemente alfabetizados”, expõe no artigo Acorda, Acordo, ou dorme para sempre. E também alerta: “caso o acordo não venha a ser aplicado – por resistência de Portugal –, entendo que Angola deveria optar pela ortografia brasileira”.

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Mudanças

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As estimativas estão em 1,6% de modificação para o português europeu e 0,5% para o português brasileiro. As mudanças são:
O alfabeto passa a ter 26 letras, com a inclusão oficial de ‘k’, ‘w’ e ‘y’, na aplicação de palavras de outras línguas.
Fica abolido o trema, até na poesia, à exceção de palavras estrangeiras: qüinqüênio passa-se a escrever ‘quinquênio’; lingüiça, alcagüete, e agüentar passam a ‘linguiça’, ‘alcaguete’ e ‘aguentar’, em seqüência; ‘müelleriano’, por exemplo, permanece com o trema.
É abolido o acento de ditongos abertos: heróico, jóia e idéia escrevem-se ‘heroico’, ‘joia’ e ‘ideia’; de paroxítonas dobrada com ‘oo’ e ‘ee’: enjôo, abençôo e lêem passam a ‘enjoo’, ‘abençoo’ e ‘leem’; e os diferenciais: pára e para grafam-se como ‘para’, pêlo, pélo e pelo grafam-se ‘pelo’.
O hífen cai em aglutinações quando a segunda parte começa com ‘r’ ou ‘s’, dando origem a um dígrafo: contra-regra e anti-sistemático passam a ‘contrarregra’ e ‘antissistemático’; mas permanece quando o prefixo termina com as mesmas letras: hiper-regulado e pós-surrealismo ficam do mesmo modo.
Os ‘c’ e ‘p’ mudos escritos no português europeu sem serem pronunciadas caem: baptismo, carácter, e electrónico escrevem-se ‘batismo’, ‘caráter’, e ‘eletrónico’; cai o ‘h’ de algumas palavras: húmido e herva passam a ‘úmido’ e ‘erva’; mas mantém-se o ‘h’ em onomatopéias: ‘hem’, ‘hum’, ‘hã’.
É facultativo o uso de acento agudo ou circunflexo conforme a pronúncia e de alguns usos de plural: ‘eletrônico/eletrónico’, ‘fêmur/fémur’, ‘hífens/hífenes’.
As regras e exemplos foram extraídos do próprio Acordo Ortográfico.

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Histórico do Acordo

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1911 – Com a Proclamação da República em Portugal, constitui-se uma nova ortografia, sem ser debatida com o Brasil.
1931 – Primeira aproximação e tentativa de Acordo entre a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Ciências de Lisboa.
1940 – Lançamento do vocabulário da língua portuguesa em Lisboa.
1943 – Lançamento do vocabulário da língua portuguesa no Rio de Janeiro.
1945 – Primeiro Acordo Ortográfico (bastante semelhante à proposta atual), realizado pela divergência dos vocabulários, aprovado em Portugal, mas vetado no Brasil.
1971 – Nova tentativa de aproximação com mudança local da ortografia no Brasil (supressão dos acentos de palavras como ‘sòmente’).
1975 – Tentativas falhas de acordo.
1986 – Reação à idéia de excluir os acentos das proparoxítonas. Criação da CPLP.
1990 – Elaboração do atual Acordo Ortográfico.
1998 – Primeiro Protocolo Modificativo, estendendo o prazo de ratificação.
2004 – Segundo Protocolo Modificativo, aceitando o Timor Leste na CPLP e permitindo que a ratificação de três países faça o Acordo entrar em vigor.
2005 – Ratificação do Brasil.
2006 – Ratificação de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe.
2008 – Ratificação de Portugal e encontro da CPLP sobre implantação da nova ortografia.