domingo, 27 de abril de 2008

Dezenove terremotos pelo mundo no dia de ontem

De como uma paralisia cerebral pode virar um terremoto.






Este prefixo – “de” – lembra, ao menos para mim, um tratado qualquer, pois, lá se trata da estética transcendental; aí, de um modelo de óptica; e acolá, da possibilidade do universo ser de cristais de gelo. Entretanto, dificilmente as linhas dos referidos tratados esperaram criar esperanças de uma visão mais universal em alguém. E só me parece que neles alguém se possa afirmar para apoiar um pôr termo à noção de terremoto.
“Movimento de terra” é o básico da noção. E daí?…, diz-se se esconde alguns outros conceitos possíveis? Há-lhos aos montes: se terra é o conjunto dos recursos naturais para um economista, seu movimento implica a transplantação (outra palavrinha curiosa) para o trabalho e manufatura dessa mesma terra. Uma terraplanagem é isto de um modo mais evidente. Não, não é necessário o evidente…, só é preciso dizer que pensar o Financeiro, esse ente balofo que se diz determinado, é continuar a jogar uns tantos de pessoas longe de suas casas e vidas sem coisa alguma e derrubar alicerces que não os são – isto em uma intensidade de -5% de graus na escala Richter do instituto de “pesquisas” Dow Jones.
Outra expressão liga a idéia de terra ao plano dos prazeres. Para entender basta pensar como estóico… E de que servem os estóicos? Boa pergunta. Como não sentem, servem dor tão somente. São os que se propõem a testemunhar o nada, a morrer se isto for necessário ao seu ideal (se há um ar nitzscheano nesta frase, é-o efêmero). Servem dor quando uns lhes querem imitar em busca de uma energia cósmica de sossego. É curioso…, pois esta energia será gasta para, precisamente, estressarem o conceito de espiritualidade.
São terremotos e terremotos de que me lembro, mas penso que, se continuar a dar exemplos, passarei por ridículo. Deixo então um muito bom episódio.






Havia uns dois dias do terremoto à brasileira, e discutíamos eu e meu pai ainda sobre coisas como falhas, tectonia, movimento de rochas, circunferência elíptica e discutindo as teorias que nos levaram a adotar tais termos. A mãe tinha saído e a avó estava a dormir. Estava. Logo acordara. Ouvia nossa conversa à porta sem entender o que era dito, mas remoendo uma palavra.
Sabem vocês o que é o terramote, que dizia antigo?
Não, vó. Qual era o fenômeno antigamente?
Pois vou dizer. Era um velho – mas mais velho assim que nem eu – alemão, da Alemanha mesmo, que contava uma história lá pelos meus 17 anos de idade. Já vai longe, não?
Vai mesmo – disse o pai.
Sim… Isso, o terramote, é o movimento que a alma recomendada faz quando não tem saído do corpo.
Indagou o pai:
Tens como dizê-lo melhor?
Pois é. Contava esse velho que anos antes da guerra que fez eles correr de lá uma moça havia morrido, jovem como devia ser eu na época [fez então uma pausa como que para imaginar a tal moça]… Pelo que dizia, devia ser uma dessa, como é?…, ai, sim: paralisia cerebral; como a que teve o falecido Antônio Aguiar do Itaperiú. E creio que deve ter sido velada e enterrada antes de vinte e quatro hora…
Um enterro não acontece antes de um dia!… – redargüiu o pai.
É mesmo. Não aqui, e acho que lá no teu Portugal também não, conjeturou a avó.
Sim – anuiu.
Mas sabe como é alemão. Geralmente apressado, querendo trabalhar muito, como se se ganhasse dinheiro na labuta. Decerto inventou a família de enterrar a moça logo, de modo a fazer que ela fosse logo aceita no céu. Mas não era a hora… Ela estava em terra, daí o terramote… A terra se revirou, revirou, e acharam a moça sentada na cova três dias depois. E nesses três dias viveu com a carne da mão. Tava toda roída.
Essa para mim é nova… e muito boa história – disse eu.
Se é verdade não sei, os velhos é que contam isso.
Não faz mal em contar vovó, queremos mesmo ouvi-las.






Aí a conversa desceu de comboio para Queluz ou de zarco para o Saguaçu, pouco importa agora. Interessava resgatar esse momento. Penso como seriam os navegadores voltando do oceano, onde jazem aqueles que ficaram, e que quando se levantaram provocaram o terremoto. Ou no que deve ter sido a abertura do mar Vermelho. Teorias são muitas. A Verdade, se é que existe uma só, transita-lhes e nada é mais agradável do que pensar a verdade quando nasce a andar em outra.




Sidney Azevedo

Descortinar verdades

(e continuar a encontrar muros…)

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Pensar texto... e absurdo...

Só uma breve reflexão sobre os critérios de noticiabilidade
Quem sou eu para discutir sobre noticiabilidade? Mal leitor sou (e, aliás, se bom redator fosse, deveria ser muito mais direto: ‘mal sou leitor’; mas, não o digo, no entanto, por que creio que um tom menos árido de escrita – e aridez cá é vista como indigestão de um texto que nem intercalações tem para que dela se reclame – não torne a vida de uns homens por aí mais veloz por sua mera sintaxe reforçadora do ideal de correria dos tempos modernos atuais, onde não só basta saber muito de sua área, mas um pouco possível daquilo que está distante de si e de seu campo), e menos ainda jornalista para que me atreva dizer algo sobre o texto jornalístico.
Peço perdão ao Leitor desde já pelo mui extenso parêntesis que acabei por escrever no anterior parágrafo. Ocorre que devo pedir perdão desde já caso termine por defasar o Leitor. Pois este é uma criatura que parece vir das profundezas do inferno para exigir alguma coisa do jornalista: “Eu quero isto deste modo, ouvistes bem?, deste modo!…”. Ele é o superego do jornalista, mais do que a empresa onde ele trabalha, se bem que ela também tenha lá sua força na construção desse Leitor de Tal, que tem, em alguns casos, até sobrenome (jornais começaram servindo à elite, não?).
Penso curioso esse medo do Leitor para uma média que se pretende independente. Não vivo no meio com intensidade devida, mas não é sempre, ou pelo menos com a mesma força, que ouço alguém de televisão dizer pensar no Telespectador. Ele aparece, aos que fazem tevê, distante, bebendo cerveja nas mesas de bar, com problemas outros. O vínculo é, cá, com a estrutura formal de execução. Volto a repetir, é o que tão somente acho. Caso o que digo seja tolice peço desculpas por diminuir o tamanho do Telespectador ao cortar-lhe os pés.
Tenta-se mensurações do Leitor, e uma dessas, decisivas, cá em Joinville, é a que se fez sobre o jornal a Notícia, que resultou na modificação do formato standard (que interessantemente significa padrão…) para o tablóide. Tenho medo de ser o único, no mundo atual, que detesta resultados de pesquisas – sejam científicas ou de opinião (aliás, os critérios não são tão distantes) – por pensar que posso estar a ser enquadrado num retrato que nada diz do Sidney homem de 18 anos, descendente de portugueses, caboclos e alemães que morou um tempo na Terrinha, que se integra a movimentos sociais quando lhe dá na telha, católico praticante, ex-seminarista, sem posição política claramente demarcada; mas somente de um Sidney número binário, que optou num momento qualquer, por uma descrição do que esperaria em um jornal.
Esse empirismo institucionalizado (a expressão parece grandíloqua, mas se desfaz a impressão se a analisar, senhor Leitor – de ti não tenho medo) só reforça a autenticidade de existência do Sr. Leitor. Não se quer discutir metafísica hoje, porque o Sistema Capitalista, o Proletariado, o Mercado, o Leitor, a Empresa, o Estado, e também aquelas que me parecem as maiores das ficções, a Sociedade e o Número, podem desaparecer na maiêutica do “O que é?”. Palavras não podem transmitir algo em plenitude, mas só lhe espalhar o odor.
“Fazei conta!, é a matemática que salva!; metei a estatística no gráfico!; criai o texto no formato!; jogai o real no ideal prefigurado implantado no teu ideário!; a metafísica?, ponde-lha na História da filosofia!; e vede se vos não esqueceis de criar vós próprios vossos métodos”, são os que me parecem serem brados nas escolas – aliás, o último mais cruel, pois só engana o aluno com a existência de uma originalidade. E para não desperdiçar o título, diz-se cá que é o medo do Leitor a razão da necessidade dos critérios de noticiabilidade, o que é evidente por si mesmo. Criar novos critérios é reafirmar o medo do Leitor, mas não deixa de ser uma possibilidade agradável, caso se pense em mudar com eles a existência do Leitor, jogar contra ele. Mas é uma idéia maldita, foge do padrão, do standard, que é neste caso adaptar-se à mudança (a Darwin dá-se muita ênfase: adaptação e evolução criam um duo a que a retórica diria que acabam se casando pela conjugação do discurso com a prática, pela mera aproximação, dando a idéia de que se confundem).
Penso que se deve dar ao Leitor ou outra face, ou mudar-lhe o nome ou simplesmente se o esquecer. Penso ser uma saída. Não espero com isso resultados. Resultados contam pontos no mundo do Financeiro – outra ficção gramática –, um desmundo onde o que se pensa escrever é assombrado também pelo fantasma do Produzir. E há quem diga que a Idade Média foi ruim… Deus, Diabo, Céu, Inferno, Purgatório, Anjos e Arcanjos, Demônios, Indulgência, Perdão, Amai-vos Uns aos Outros, Perdões, Rei, Divino, Feudo, Igreja e outros tantos fantasmas pouco são quando vemos o Hades a que somos lançados. Pensar que os jornais acabam por fazer isso rodar é cruel. Mas vá escrever contra: logo és fuzilado, e mesmo na Academia…

Sidney Azevedo
Uns vinhos a mais e se perde a Conseqüência.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Um pouco de pouso. E vê se repoucas!

Ludismo palavresco
Assertivas acertadas são declarações propostas em acordos. Alguns têm sensações monocordiais em suas paradas cardíacas. Se as têm por aquilo creio verdadeiro ser. Cada momento em que não estão claras as coisas parece estar um doido a menos no mundo, mas sua agonia em ver o fim do mundo de uma forma que não aquela em que deveria ocorrer é constante.
Findo o sofrimento. O autor não o quer mais por perto. Deixa de querer sentir para evitar essa cena triste. Deixa de querer estar. Sofrer é estar. Estar é receber o soco do furacão bem no meio da testa. Receber continua como algo esperado. O algo esperado é o sentimento. O in não é prefixo de negação. É-o de diferenciação. O inesperado só se põe como algo que não é outra coisa. Não é uma ausência de determinação, mas de estrutura, de facilidade. O contrário é o que não se quer e precisamente por isso é chamado de contrário.
Permanece fora-de-cogitação. Não é merecido-lhe o pensar. Pois pensar precisa servir, precisa ser justo a um projecto de povo – projecto: jeito preconcebido –, para fora construir um despovo. Toquem o monocórdio, a corda única a emitir monotonia, um só tom de som. Coisa insípida para os crêem gostar de desafios sem enfrentar a contemplação desse que se lhes desnuda. Toque harmónico demais da angústia aguda.E há rima e bom tom. Ao falta idéia firme a transcender a sensação.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Dominó sem apostas, torneios e compromissos

As pedras em sorteio: qual irá para quem?

Por Sidney Azevedo
O jogo de dominó parte da informalidade nas mesas da praça Nereu Ramos. “O jogo aqui não tem muita regra”, diz José de Sousa, aposentado de 69 anos. Um traz o dominó e convida os que estão próximos para a partida, formam duplas e logo deitam as pedras de marfim na mesa de mármore. Mas José, então, só observa o divertimento. Ouve Aderbal Amado da Silva Filho, aposentado de 61: “com seis senas na mão não se pode perder!”.

José mora no Comasa e vem à praça de duas a três vezes na semana. Nasceu em Jaraguá do Sul e se diz descendente de ingleses. “O cartão do idoso é uma benção”, ri. Ele discute a tática do jogo com Aderbal, que mora no América e joga na praça há dois meses e meio. Este tem casa em Itapema, onde também joga. “Seis doble eu já peguei!”, comenta.

Na mesa estavam Daniel Santos, 63, Jorge, 67, Salvinho, de 55, e um senhor de 43 que pediu para não ser identificado com medo de que a mulher soubesse. O único inconveniente é a chuva, da qual fogem para o ponto de táxi ou para o palco. Salvinho tinha um guarda-chuva consigo. “Sabes como é Joinville...”, riu.

Todos católicos, uns relaxados, outros que rezam em casa. José disse: “a igreja sou eu mesmo, a fé que eu tenho, que não preciso ir na igreja pra manter”. Sobre política, discutiram se o jogo poderia ser impedido. “O jogo é um divertimento público, até a polícia nos vê bem”, disse Jorge.
Robson Hass, de 28 anos, acompanhou as seis partidas que aconteceram durante a entrevista. José comentou em tom de brincadeira: “eu e esse alemão aí somos até campeões brasileiros”. Robson, que é gerente de estacionamento e mora no Itaum, aparece quase todo dia. “Só agora começam a aparecer jovens para jogar”. Ele trouxe um conjunto de peças. Começou a jogar com os aposentados quando foi abordado na calçada, num momento em que eram três. Ele joga há seis meses.

José saiu. Disse ser tarde. Logo saiu também Daniel com suas peças. Robson pôs as suas na mesa. “Aqui é tudo na amizade, para tirar o estresse, sem apostas e torneios e compromissos”, conclui Aderbal, antes de ir para mesa com Robson.

Jogador aguarda sua vez.

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O ambiente

Em 1930 um espaço aberto no Centro de Joinville ganhava o título de praça e o nome de maestro Carlos Gomes. Neste ano construiu-se a sede dos Correios, prédio que já abrigou a Secretaria do Turismo e onde hoje fica o Ipreville. O terreno tem uma rica história. Já sediou a Prefeitura, o Fórum e a Câmara de Vereadores de 1898 a 1920. Foi palco do início de muitos namoros entre 1930 e 1960. Passou a se chamar praça Nereu Ramos em 1938, uma homenagem marcada pelo medo tido do então interventor catarinense no governo de Getúlio Vargas.

A praça já foi considerada lugar de desocupados. Desde 1971 faz-se mudanças que pretendem torná-la mais humana. 1982, 1989, 2000 e 2003 marcam algumas dessas modificações. Os arquitetos Vânio Lester Kuntze e Jairo Alexandre Mrowskowski planejaram a reforma de 2000, que fez reaparecer as áreas verdes, retirou o banheiro público e pôs as mesas onde jogam os aposentados, que a princípio apareceram tímidos, mas logo se tornaram constantes.

Fotografias de Valmir Fernando.

PS: Para ver mais reportagens de qualidade (não pretende qualidade ao grupo...), aceda ao sítio http://jornalosino.blogspot.com