quarta-feira, 27 de agosto de 2008

In neo loco

Agradabilidade é uma questão de tempo.

A eleitor'é bastonante n'o-ar d'acto, quand'a vida n'erro se matà'o se perceber. É incrível-o q'há-de se fazer co'umas poucas palavras para dizer'o que se pensa d'ummodo quase perfeito. Só m'incomod'o jeito d'escrever'isso. Porém, s'ò que me não cust'é-isso mesmo: o-acto d'escrever, com'ao bastão d'um-eleitor, sem demarcação de sílabas!, dessez'instantes lógicos, vazios d'horas..., que sã'os da compartimentação das coisas, da su'insípida percepção...

Sidney Azevedo
Neogrammatica
(Sine necessitas a pulchrumitates vitae altri...)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Rápido e rastejante...

Destempo

O antítudo comemora um ano.
Não, não comemora, este blogue tinha a inicial intenção de não permitir que o tempo o deixasse contar e matar enquanto algo passível de conhecimento.
Tuo o que se conhece é antes uma certeza de morte que não significa a necessária morte, mas a perda da coisa e a saudade da perda da coisa e a conseqüente vontade de não querer nada porque o que se quer está tão intacto numa posição como se permanecesse e as coisas pudessem ao fim existir sendo e não existir como possibilidade intrínseca do que não há enquanto vida em si mesma. A questão é simples: a escrita mata. A fala mata. E mata o pensamento. Matar deveria ser também tornar-se mato. Aliás, matar deveira era ser nada, essa vírgula que há no tempo e indica a falta do tempo lembrando-o. Perdi.
E a definição está coisa sem artigo ou preposição. É ridículo...
Mas bastava ter dito isto:
"O tempo está na presença do aniversário, e ência quer vida no pensamento"...

Sidney Azevedo
Contratempo
(Temposterior...)

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A perda e o vício vaticínico de continuar a dissertar em linhas mortas

A senha de acesso, biltre!...

Não, isto não é sobre computadores... Deveis antes ir a uma suja taberna portuguesa onde o pouco que há de claro é o brilho dos azulejos, limpos, só e diariamente, orgulho exclusivo dos outros ao dono do bar. O contraste das paredes pensa-se do mesmo modo que se pensa a existência, sem perceber-lhe a tolice de ser assim que é antes a inexistência de uma tolice e sim o instar de pensar desse modo.
O mosaico de cores some no copo de ferro enchido de vinho, e quando vazio o tonel foram-se as confissões. "Levai a escada ao fiorro que o cigano disto precisa". O sotaque morto aparece, talvez na resistência sem vontade de um família que insta fiorro a forro, jiogo a jogo e tiomar a tomar.
Sim, chegara um forasteiro vindo de Beja - há sempre de existir um estrangeiro da cidade vizinha a chegar para dar "vida" a um cenário morto -, mas como que inteiro e conhecido, mudado só o que lhe havia de moderno para o pós-moderno e tudo cheirando ainda ao tal extrume da idade média. Não é nada.
Arrasta-se o dono do taberna, toma a escada, e prepara o bolso com os vinténs de escudos já sacados à bolsa do cigano, dividida pelos então presentes que haverá de ganhar daqueles loucos na sua mente insalubre, tomada do pântano de sangue das porradas que levara.
O gajo de Beja quieto no canto, morre aí no texto e na necessidade de pensamento do autor de algum leitor perdido de atenção de haver movimento em momento nenhum por que não é importante.
"Tejo, rio triste dessa gente do fado, me leva embora da saudade de não ter idéias e sonhos para voltar à virgem sensação de não saber as coisas!, se conhecimento é isto, livre-me". berrou o Benteja em Lisboa uns anos antes, antes de ir à gare da praça do Comércio que nunca existiu, rindo-se dele os truculentos matarruanos desta freguesia ridícula de tamanho.
Ó, Benteja, por quê o suicídio?
Parece que não podes responder...
Conhecer é morrer e agora que conheço isto matei a humanidade.

Sidney Azevedo
Deixai-me andar sem me dar conta disto...
(Indiscernibilidade já!...)

Só p'ra não dizerem que deixei o blogue morrer

E que é tempo para além da hora?
Apenas para anotar uma idéia que vem há tempo incomodando este sandeu:
é-nos possível viver sem tempo?
Continuo a pensar que uma coisa não existe para aquele que não a apercebe. Assim, não há o tempo para aquele que o não vive.
Quando assisti à defesa de banca da monografia de Paulo Horn, intitulada, infamemente, Tempo, esta questão se refletiu num espectro de mera narrativa... Descobriram por mim que o texto tem tempo. Descobriram por este enigma que o tempo existe no lugar em que sua indiscernibilidade mais é necessária: na contemplação do texto. Mas não descobriram, deram antes ao tempo tal existência. Uma leitura temporalizada de um texto me parece exatamente a morte de sua fecundidade de interpretações. Que esquizofrenia..., Foucault e Deleuze fazem-me sugerir uma geografia do conceito e ainda tem-se de lutar com tempos...
Ó, raios!, tempo deveria ser só o clima, como o era aos antigos. A tempestade do passado deveria ser o o-que-já-foi e a ventania do futuro o o-que-virá, e não essas estruturas, chaves de leitura, horas pré-agendadas que se constroem a partir de uma matematização de nossa relação com as coisas in nomine efficientiae, em temor ao ente indiscernível do Mercado – que o raio o parta!...
Minha avó fala do tempo como algo alheio, e mesmo em minha mãe e em meu pai ele assim parece. E quando entre minha família me encontro assim o sinto. É quando me jogo fora de casa que essa maldição aparece. Eu o ligo a uma série de entidades que não existem: à empresa da imaginação lá daquele que corre apressado, ao shopping a que vai a moça para comprar o ingresso do show antes de pagar as contas, à sociedade em que vi o socialista da turma de jornalismo falando ontem.
Ora, eis que vejo o aracuã a voar raso pelo Centro. Sim, eu tenho razão: tempo não há. E assim rumo à Catedral rezar. Isto ontem. Hoje agradeço pela terça-feira a Horn por toda essa reflexão. Mas deixemos o tempo a morrer, tal conceito é inútil já.
Sidney Azevedo
Uma nova questão
(Até à nova vir...)

sábado, 9 de agosto de 2008

À moda do porto

Ou tá quetinho ou lebas no fucinho...


Há quanto tempo não ouvia trabalhadores do comércio? Uns cinco anos talvez. E eis que me cai às mãos o álbum na braza. Em tempo: levar um pensamento até às barreiras do ilimitado e não aí parar! Pois se somos todos - ó, fraqueza desgraçada!, deixa-me para atormentar a outros mais, instou-me a pensar em jogar cá entre as palavras um advérbio que é insípido por nem ser ainda verbo, mas um impositor de preexistências - crianças a quem os modos de vida possível se querem parecer os únicos através das mãos imundas dos outros. Enrolados ao papel alumínio, silentes fazemo-nos.
Por quê agora o estrabismo? Por quê não o olho cansado, está a ver o vazio quando se cala para olhar estúpido?, está a vida tão silenciosa de sobressaltos..., de turras e qüiproquós. Esturra a paciência, leva a alma à conseqüência de si com o que se quer do mundo e não com o que é ele porventura querendo.
Alquebrar-se. É só essa a grande verdade do mundo? Prefiro dormir pueril e acordar ancião: o resto é calculismo raso: casca de ovo caída no convés do navio por descuido daquele marinheiro e que uma vaga põe como igual ao que é a clara, o sal de si, o sol dos instantes escassos e a gema dourada de tudo isso que é indiscernível. Não, não vale o resultado da fórmula o seu esforço.
"Está quietinho e aguarda a mão ao focinho!" O pecado é isto: tranferir o pouco do infante medroso aos que te querem criança no sentido deles...

Sidney Azevedo
O meu número é zero nesta democracia
(Mas a ela não quero pertencer...)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Cartola

15 de março, de uma leitura descompromissada

Após algumas tentativas frustradas de escrever algo minimamente útil, sobrevém a intensa vontade de desistir (em verdade, desistir não é um processo intenso, mas desgastante, um desgaste de relevo lento, lento...). Mas me lembrei de um texto de outros tempos, que transcrevo na íntegra:

Autores até podem pretender querer ter um método para seu texto, mas ele sempre se rebela, descobre atalhos e vielas, salta uns muros, atravessa a cidade, corre pela passarela e daí à ponte sem intervalo claro entre algo e o nada que está a seguir. Uns perguntam: "que estás a procurar?" e outros: "foi por ali", acreditando ajudar. Diz só o que procura: "obrigado, posso fazer isso sozinho". Continua a corrida no forte, as palavras seguem do corredor ao canhão, donde pula ao cais do porto numa lepidez de antílope e aquele que o quis engaiolar vê-se preso à perseguição, aproximando-se do mar, dono do mar, consegue então ver ao longe que seu objeto se transformou em sal e dispersado está no mar. Secar o mar e continuar a busca? Não... o autor só vem e deixa o sal de sua lágrima estar no mar a conversar com aquelas ingratas criadas por ele. Busca a barca, molha a mão n'água e brada: "cá estou com o vazio das coisas de prender e a certeza sempre cheia da liberdade!".
Sidney Azevedo
Um texto que estava perdido
(mas que sempre se acha em bom momento...)
Post scriptum: após o texto Sentimentos, de Aneska Kolaceke.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Antigüidade... sensação estranha

Autêntica insular

Sente-se lá a antigüidade como ela pode ser sentida.
Sim, a frase é essa. Não errei. Se me viéreis a dizer que antigüidade é uma ideação, fico em silêncio. Ninguém vê que a idéia é um modo de sentir, e talvez o mais forte deles. O instante de ser, sentir-se como tal, só há quando a partir daí se raciocina. O sentimento de antigüidade, próprio dos que não intentam nem atinam com coisa alguma, só persiste na alma dos outros mediante outras ideações. Ninguém admite sentir o Estado por o pensar, e racionalizam apenas seu poder, deixando-o como uma coisa afastada, e... existente! Ninguém admite pensar a humanidade por a sentir, e a emocionalizam em uma universalidade - igualmente pensada sem ser sentida - pressuposta e pressentida sem distinção do que seja pensamento e sensação. Fica a humanidade assim frívola.
Fica assim, aliás, toda discussão sendo infrutífera.
Não, não adianta, teorização continua sendo maquiagem, as palavras pensadas, se levam alguém a sentir alguma coisa, é só um sabor de insolubilidade, uma teimosia do espírito em não se entender o que se lê porque o que se lê é antes qualquer coisa com gosto de café frio.
Se tudo assim vai sem vida, fica esta dica: tentai sentir uma antigüidade, com sua ambigüidade e desgosto, sua eqüidade forçada através do pensamento e sua iniqüidade querida pela sensação, quando tudo, ao fim, é o mesmo.
Ou, se quereis uma contemplação fácil, permanecei lá onde estais, com vossos rótulos.
Talvez seja besteira esta tentativa de captar o momento de sentir e pensar por ser escrito. O texto parece matar toda espécie de vida possível, e tornar frágil toda palavra. Não sei, mas o texto devia ter findo sido umas linhas antes...

Sidney Azevedo
Incompreensão
(Assim esperada, porque pensada e sentida)

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Nostalgia

Deveis repousar!

Durma,
durma, durma, durma, durma!,
sob o refrescar da bruma,
leve brisa que não é verruma.

Durma,
durma, durma, durma, durma!:
já caiu a noite lá fora
sob o odor da jovem cânfora...

Durma,
durma, durma, durma, durma!;
cerre seus olhos com uma âncora
e não note a barbárie do mundo.

Não durma!
Isto é uma armadilha
que parece uma trilha
a levar a milhas de distância...

Não durma!
Isto é uma armadilha!
Para que se ser pilha
duma máquina qualquer?

Sidney Azevedo
Escrito em 27 de dezembro de 2004, quando faltava sono, para o tempo em que os nervosos d'alpendre miravam ao longe...
(Antítudo logo vai estar de aniversário... 20 de agosto)

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Findo um dia, por hora...

Jornal

Tudo a jornada torna mais falso,
o dia insosso e o público imanente.

"Por ela faz-te ou não?",
dizem as fontes lá da praça
exauridas das moedas que lhas instamente jogam.

"Fica com o que tens, furtador do não próprio,
menino que és, pois dos níqueis de hoje que te dei
já os não hão mais..."

E há-lhe um barulho nas calçadas,
marulho na aba, gorgulho a tapar o sol.

Grita lá o ser: "vem cá, indiscernível objecto,
algo hás-de ter a me dar!"
"Quê, bicho d'agouro?"
"Tema um à jornada d'amanhã"
"Ide-te a escrever, besta, a hora já é com o dia
e esvai-se-te o tempo..."

Sidney Azevedo
Avlas, lectivas indiscernibilis!
(Até uma dessas...)