sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Machadadas e comentários infelizes

Ei-los...



Sonam as palavras invisíveis. Quanto mais precisai para ver que as coisas que soem conforme o soar dos edis são embustes, e, devo também dizer, medram-vos o medo e a insegurança . Não hão!, tão-só...



Sidney Azevedo
Machadadas.
(falta a viagem de oitenta dias...)

Epístolas lúdicas além-crepúsculo eléctrico

Um baralho espanhol


De repente as cartas se acabaram. Isto quando se apagou a luz, a estar os jogadores sem se ver. Nem janelas, portas ou lugar onde se tenha um resquício de iluminação.
– E pontas de cigarro?
Não estes jogadores não fumam..., não é necessário que todo jogador de cartas fume..., vá ver os senhores da praça Nereu – talvez algum, mas longe de serem todos (há-de se considerar também os possíveis [sempre possíveis...] problemas de saúde).
Voltando à partida..., destarte escrevo: Pensam que sua primeira reacção foi levantar-se e ir ao encontro do interruptor da iluminação? Não, o interruptor só era aí interessante ao fotógrafo que estava no laboratório do apartamento ao lado, que ao revelar o filme trocara, na escuridão das vielas encimadas estreitamente por telhados que se uniam em deixar ver do céu só uma fresta, o fixador pelo revelador. Mas este desastrado toma sua importância logo mais.
As cartas continuaram, os jogadores estando privados da vista que não a da memória e a do sistema de jogo. Os papéis com modos de cartolina prosseguiam seu passeio. E carolíngia era a expressão (e inexpressão) dos homens, ainda que ocultassem seriíssimos problemas individuais. Um senhor de idade e dono de padaria o primeiro jogador joga o seu seis de espadas, ele precisa de um oito e de um nove de paus, que não caíra na rodada anterior. Como se pensasse noutra coisa. O seguinte, professor de geografia e doutorando de economia, viu no escuro, agora ampliado, do símbolo de espadas do seis jogado pelo oponente o seu esperado sete de paus. Ele toma o sete de paus, a esperar um último rei de copas. Como se pensasse noutra coisa.
Desta feita, o bancário fariseu que destes outros cobra as dívidas está a perder três partidas consecutivas, e seu nervosismo já o faz perder os entrecruzos dos números e naipes, a ponto de estar desistido. Seu olho se põe no nebuloso escuro da filha, perdida nalguma ladeira com o filho do deputado Meira Espanca, que só a quer para divertimento. O olho outro (claro, era desgraça muita ser ciclope ou cego...) perdido na memória da mulher que o naufraga em dívidas numa ilha onde os navios só lhe passam para rir da cara. Toma uma qualquer carta e joga uma quarta qualquer.
O quarto é o ágil, mas contido, padre filho segundo do deputado Meira Espanca, irmão do violador de mocinhas. Aguarda a chegada de um ás de ouros, mas vê chegar, com a nula esperança que tinha, um, um..., hum... (agora está complicado, o que será assaz escuro para não tautologizar a própria escuridão?...), um obscurecido dois de ouros, que já tem em mãos, mas não lhe permite fazer uma nova jogada. Descarta então o incómodo três de copas. Como se em outra coisa pensasse.
Lépido como qualquer coisa que assim seja que venha à cabeça de quem isto lê cata este seu necessário oito de paus. E joga uma das cartas incómodas, que deixara ao canto da mão para livrar-se dela mais rápido.
O coração do segundo jogador palpita, ele vê a carta que precisa, mas ainda mantém dúvida, parece algo nebulosa. É o seu último rei de copas, mas as sinapses cerebrais e um grau mínimo de instinto lhe revelam que algo ocorre ali de muito errado.
– Não!
O grito vem do quarto ao lado. Todos parados, como que feitos de estuque. Era o fotógrafo, que ao ver a luz filtrada da clarabóia informal dos telhados da ladeira percebe que seu filme fora perdido. Então os jogadores silenciam-se ao perceber a situação. Na sala o cheiro de pólvora mergulha pelas cavas nasais dos presentes, atinge o pulmão, mas não mata ninguém. Ele segue o estampido surdo de três pistolas juntas. O gemido agonizante cheira a sangue, e não demoraram os ratos a lamber as feridas e a roer o salgadinho, então esparramado no chão. A luz volta. O padre joga algo pela janela, o dono da padaria segura dois revólveres e o professor murmura algo contra si mesmo, quase inaudível: “Eu, fi... is...?”, deveras baixinho, com seu trinta e oito à mão esquerda, onde empunhara a bandeira do país na última copa. O bancário agoniza, tendo às mãos a certeza da vitória em suas mãos, o conjunto de cartas vencedor. Os outros eram conjuntos aleatórios, que só se sustentavam com o vício do terceiro.
Logo chega o primogénito do deputado Meira Espanca:
– Deu tudo certo.
– Está aí!, responde, apontando, o irmão.
– Vejo.
– Então, e agora?
– Deixe aí os ratos, estes senhores de terno cinza concluírem a história ao defender a sociedade...


Sidney Azevedo
Um experimento literário outro...
(a derrocar a vida outra)

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Arre! Irra!

Engambelamento

Documento para documento.
Documento para o que não há.
Sarnento o atendente à hora
em que lhe não vem aumento.
Tormento, diversos ventos,
aos papéis há de chegar.
Nestes versos evidentes
não o são seus interesses
que só vêem os que o lêem.

Sidney Azevedo
Poema tosco:
(resultado é do trabalho...)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Esterilidade anunciada

Idéias e razões findas após um dia desastroso


Já há algum tempo que nada publico no Antítudo. Tenho estado tão raso de idéias. As fecundas idéias que nasciam do simples ato de abrir a página de edição de mensagens na rede - que já me propunha uma série de projeções brilhantes - a partir de um dado ponto se sufocaram no estado de descoberta de um sentido anti-descoberta. Como é possível isto? Até então não entendi. mas, não quero, efetivamente, entender. Quero só deixar perdidas essas palavras cujo escritor não soube vestir de modo literário. Findo é com o ponto.



Sidney Azevedo
Um desânimo
(e o descabido, acho-me tão improfícuo...)