quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Surge úmida a gravura... por estar na parede

Da imagem, nascimento da transcendência

Há meses não crio boas frases – ou ao menos frases que a mim deixem algo aproximado a uma plenitude justa (conforme o meu poder de sentimento compreenda-a toda, pois justo é o que perfeitamente se enquadra em uma forma a ponto de dela não se distinguir).
Penso na palavra falta e percebo que a ausência não dela advém…, da secura de um novo discurso por mim adotado é que surge. Túrgido o turíbulo de um altar onde o sacrifício é a entrega de um labor vadio e inconsistente – ou poderia tê-lo dito vazio e incoerente (um vate certo mencionou um “heroe que a si assiste vario e inconsciente”).
Mas persevera a questão da ermida… O ponto onde o homem vago se reencontra a olhar as vagas indolentes do mar (sim, o mar não é tão poderoso como dizem por aí, seu maior poder é a letargia não lembrada). A lida não lida, o agravo persiste, e a peste hasteia panos por todos os cantos.
A autoridade, se a há, em casos assim é tomada por rateios…, e os ratos que dela aguardam obediência só são queridos em sua imunidade sacra.
Se o sábio é o que discerne e sapiência é fruto de Gno, talvez haja que seguir o caminho de gnu. Migrar e mirar. A doutrina não se desvia para além do caminho de sempre. E cair ao enfado. E só.
Comunhão é também conhecimento, mas o temor é não mudar – ainda que à repetição. Pois o sal vem já aos olhos, e não se pode aguardar que a santa expie. Ela espia ali quieta. E a forma é levar à transcendência o que as palavras não podem medicar.

Sidney Azevedo
Um cala-te me basta
(o silêncio me pede os votos...)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Persistência em rótulos é isto...

Ignomínia nominalista (a vaga...)

Rezinga ao alto do morro um lobo ruivo
da luz que lhe não há a bater.
Cena tal é esta que a ninguém dá de reter.
Leio e oiço o que me dizem:
“Há que sentir, pressentir e ressentir!
Isso se vens a ser um vate…”
Sinto-me oco, e só. Sinto-me nada, nada sentindo.
E cai a rezinga do cão ancestral em meu vidro,
que vidro é de meu quarto se não o for antes da janela.
Insta em espatifar o som laivo ao ar do rebate da janela.
Pede fim aos “dês” quando fala.
E a hora de calar evidencia-se-lhe.
Vai, silencioso e pedindo barulho além dos seus passos.
A rezinga é-lhe o silêncio que incomoda.
E daí em diante extingue-se-lhe o jogo.
Sidney Azevedo
O tempo do lobo quer-se outro
(mas dão-no conforme a cantiga dos homens...)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Altruísmo inconteste

Anti-névoa

À névoa deu-se forma.
À hora em que não exibe contornos.
Seus limites são meras lembranças
talvez equívocas da existência dum inferno.

Vê lá que a hora se esvai.
Enegrecidos e embranquecidos
juntam-se em confusão que só então é moral.
Alvéolos andam em trabalho de limpeza.
Mas a limpeza quem faz é só a dúvida.
A névoa tem de ser desforme.

Sidney Azevedo
Em vezes de roedor
(outras de coisa nenhuma...)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Alvíssara da meia-noite à gare

Idéias passageiras
O bonde chegara. Partiam-se uns, chegavam-se outros. Estavam terceiros a olhar. Então no alto de um dos degraus do veículo via inquieta a insatisfação das saudades, tanto de quem se despedia do amigo ou parente, quanto de quem os encontrava na plataforma. A moça regressava da cidade onde a memória lhe disse ficar, onde fizera seus planos e os não concretizou, por não ser a metrópole lugar para a conturbada visão da menina.
Idéia se chamava. E mesclava idéias entre os goles de chá que tomara na casa da tia conforme a estadia em meio à gente muita, desorganizada como as primas. Não as bastantes para tirar daí uma filosofia, mas apenas as que isto prometiam.
Restava-lhe das idéias a lembrança. Um rabisco em fumos de noção que um senhor à cadeira sentado expelia para fora do seu cachimbo, enquanto passava-lhe à percepção as paredes húmidas de outros tempos, secas de um sol berrante e sujas a quem disso não soubesse. Elas eram assim. E ali, em meio à maltrapilhos tais quais ela, ia a pensar na inconsistência desse espaço exíguo.
Tempo, parece que assim lhe ordenava a casca de um nominalismo universal. E assim se reduzia a genialidade, sem a presença do ânimo. Morto, ruma à ceifa, então gasta a energia do corpo, e esquece o que vai no pensamento. Idéias lhe vêm sufocadas e vêem sofrida do sol a rapariga que conheceram. “São talvez só nomes”, pensa. “Nomes não enchem a cabeça”, diz-lhe a mãe. Mas fica aí o debate, chegara à segunda estação…
Sidney Azevedo
Idéias passageiras
(passem por mim, por favor!...)