sábado, 25 de abril de 2009

Poética do autocarro

Desrespeito
Uma lata à guisa de cabeça com
Mercúrio em horas de sangue.
Férrea admoestação aos de pouco níquel:
"Vos não há áurea liberdade".
E os homens livres que o ouvem,
De papel, de palavra e pensamento,
Sabem que o são e que a têm
Só vivem o ócio prateado de não o asseverar.
Sidney Azevedo
Metalidade
(Trinca-ferro a cantar ao longe).

Garatuja

Rabisco humano


O olho na mão estava a escapar aos dedos. Um imaginativo peixe de feixes luminosos vagava na escuridão de uma terra revolta por aquela mão que perdia sua compreensão. Infecunda, grafada por iluminuras eruditas que só a outrem servia, postos antes da vírgula de não conseguir rasgar a carne da linguagem para criar um reolhar... Um tubo ao nariz faz escorrer as idéias para um cesto que nada mais é que a rua, o espaço de todos, onde não existe instituições e instâncias, mas pessoas com seus prejuízos, tão-só. Só uma coisa tenta perfurar a bolha de proteção disto tudo: uma flecha, firmada no chão da incerteza estatística do acerto contra um olho que fita-a cético de sua acuidade e crente da impermeabilidade de si mesmo.
Sidney Azevedo
A erudição me cega...
(Mas não me deixa sem tato)

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Adiro

AVISO AO QUE CHEGA!

Nossa casa é podre.
Adro súdito das quintas adoradoras do metal...
Idéia afirmada no pedestal da aparência.
Que grite o vate:
"não há indústria!"
com a veemência do aço batendo-se.
Pois cá anda tudo a cinzento.
Cabeças cinzentas, e nada mais.
Sem um ai de alento,
tão-só tormento,
a rasgar o chão pantanoso de onde viram só o viço do fétido,
sem ver a insistência da vida.

Sidney Azevedo
Ente metálico por ideologias sobrais...
(Inda inté!...)

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Ambiental

Branco há-de ser papel.
E nele se há-de escrever.
Ainda que sobre si...

Sim, aqui as novas regras da grámatica são assim:
papel de rasurar e caderno escolar de anos atrás!

Não é o meu quarto a me alçar além de mim. É sempre o peso de uma obrigação a revelar sua insufiência. Pois o meu quarto não é um quarto. Ele é só um canto da casa - quiçá dela um oitavo -: aquele em que durmo... É por isso não ser meu. Tenho-o como coisa dista, branca, asséptica. Cirurgião do cadáver que é ele próprio não-putrefato!
Em o quarto que se diz ser meu não entro sem mãos recém-lavadas. Não me permito ali pulos. Não crio mundos de ocupado demais que estou a pensar em como dar a mim o privilégio de ser eu mesmo no quarto, pois ele nem deixa a mim o privilégio de ser eu. Desconfiado, sempre, nele estou a andar.
Em nada aí creio sem vistas meticulosas... Meus livros ficam insípidos, estando entre eles sem valor a constituição, o catecismo, a enciclopédia e o portifólio. Até dinheiro vira bloquinho de anotações. Ao extremo relativismo do nada forçado fico a comparar meu quarto branco... Some-se à consciência meu pequeno São Francisco e os ideais de pobreza, caridade e castidade. Num quarto branco como a paz. Alvo como uma nuvem trigueira. Mentira! Branco de paz não é cor!
É só um pedaço de queratina, uma pena de pássaro, que indica haver um outro modo de viver lá fora. E que meu quarto, sim, já fora outro. De azuis paredes de madeira, talvez o único a servir de passagem entre o quarto dos pais (pois este sempre é o maior, ainda que não sejam os pais a ocupá-lo) e o resto da casa, onde os buracos e os cupins indicam que pobreza aí é mera questão de disposição de matéria. Talvez também o único com um berço aos insetos fidedigno, acompanhado de um colchão sujo carcomido, à guisa de armário em dias de frio.
Ainda que nesse mesmo berço pretendesse meu futuro filho deitar tinha algo a me dizer esse quarto não mais haveria. Só a proposta de niilismo que à frente de mim vejo perder o sono. Está mais fácil dormir entre os azulejos verdes da sala (neste maldito calor é o que convém fazer...) ou entre as paredes cimentadas da lavanderia. Mas, tolo eu, cá fico, nesta alvura, pensando sempre em como fazer serem as coisas um nada. E esquecendo que minha vida só vale quando delas torno nota musical de acordeão.

Sidney Azevedo
Quatro voltas à rotunda.
(Isto, vades...)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Breve

Brevíssimo...

Porém, é-me falto o primevo contacto, o que transforma um simplório passadio na mais crua filosofia metafísica.

Sidney Azevedo
Que mais é preciso dizer?
(Sinto falta da velha escrita...)