sexta-feira, 31 de julho de 2009

Não estou tão fora do mundo

A universidade fantasma

Se não quiser passar pelo parágrafo abaixo, que é denso - mais pela incompreensibilidade do texto do que pela concatenação das idéias - recomendo ir direto aos adágios abaixo dele.
Em geral se vincula à ciência duas idéias que considero incompatíveis: a noção de produção e o pressuposto de necessidade de encadeamento de raciocínios. Todas duas me parecem resquícios - naquele sentido de excremento - do que foi feito no pensamento que muitos ensaístas chamam de moderno; e que eu prefiro denominar de supercompartimentador, pela capacidade de catalogação, enciclopedização ou, simplesmente, soma, na crença de que o conhecimento era uma espécie de unidade cuja validade, determinada pela experiência, era tida como o coeficiente de verdade, afim à regularidade lógico-matemática daquelas noções mencionadas no início deste parágrafo. No fim, o que a ciência produz é o coeficiente de verdade.
Assim, aliás, os coeficientes de verdade da ciência catarinense em Joinville dar-se-ão na Curva do Arroz (um trecho da BR-101 que é conhecido por virar muitos caminhões...). Outro motivo desse belo nome da nossa via principal é o fato da estrada aí ser acompanhada de muitos banhados onde cresce com paciência o alimento parceiro do feijão que consumimos sempre que possível, e onde andam delicamente aqueles belíssimos quero-queros em busca de alimentos para seus filhotes.
Mas a situação me leva a publicar alguns adágios que escrevi quando soube que a novela vai se estender:
"E o conhecimento se fez, conforme o crescimento do arrozal".
"A nova arte da ciência política consiste em estudar a possibilidade de fazer o essencial de agricultura para semear as esperanças no brejo".
"Em moral, o valor é algo geralmente invariável; em economia, não o é..., principalmente quando se trata de especulação imobiliária"
Bem, fica aí...
Sidney Azevedo
Voltando a falar de assuntos sérios

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Ainda não consegui responder: "como é ser morto?"

Sobre ser forte
Há pessoas que me dizem que escrevo bem. No entanto sempre tenho a certeza de que elas não podem estar certas. As minhas idéias até podem ser boas, nisso concordo. Mas só nisso. Eu não possuo aquelas duas grandes virtudes que, aliadas, fazem um real escritor: a paciência e a perseverança. Minha pertinácia morre exatamente no ponto em que desisto de me expressar melhor por temer os longos minutos que terei de dispensar em limar os gestos trêmulos do agaste de minha voz grave, afastado daquela boa intuição-filha, tão cara que me fora tê-la. O sentido de perda se me torna tão próximo, tão terno, tão resignado ao meu espírito que nisso reconhece: não tem futuro.
Mas que faço eu!? Eu que gosto do fracasso, que saboreio seu azedume como aquele doce que aparentemente é a todos agradável, como me deixo evidenciar a bonomia da derrota aos infiéis? Eu sei que não posso fazer nascer do nada aquelas virtudes... Sim, essas que mencionei. E percorro desolado meu caderno de anotações entrevendo aqueles momentos sonhadores que despertei em mim no silêncio de meu agir. E tudo ao meu redor tanto gira, volteando-se sem pena textos muito melhores. E eu cá, remoendo meu ciúme...
Sim, eu sou desprezível. Eu sei no que erro e permaneço no errado, defendendo, com a força última da minha argumentação que a mais ninguém convence, essa dor. Eu sou moralmente sujo. E tão-só por deixar a mácula da dúvida me tocar. E como me gloriei por isso achando que tinha descoberto o mundo.
Ai, que desgraça! Eu me reconheço num borrão apagado do caderno da menina que olha incerta a equação da aula de matemática à beira da calçada. Então me defino: não sirvo para nada. É bem aí que, de repente, quero servir para alguma coisa... Contradigo-me e entendo, em algo finalmente resoluto: se a civilidade valoriza alguma coisa é o senso de contradição de alguém sobre si mesmo. Não se confia, pois, em gente insegura. E fiz da insegurança meu amor.
Sidney Azevedo

Encíclicas - II

Regula-ens

I

Ser hoje já não é verbo.
É lá mero substantivo.

II

O realismo é uma metafísica ingênua.
O abstracionismo é uma metafísica fugaz.
A religião é uma metafísica numênica.
A metafísica é uma metafísica abstrata.
A ciência, a língua, o papel e a arte
São umas metafísicas conceituais.
Toda metafísica é um amor inquieto.

Sidney Azevedo

terça-feira, 21 de julho de 2009

Encíclicas - I

Regula-mori

Régulo a regrar, rangendo o rango.
Uma régua passada na linha da fome
me impede o dinheiro de comer o nome.
Léguas a alegrar, sangrando langor,
a dor de uma ânsia em sorver que os outros,
ao fim, negam poder ter.

A presença não serve.
É só uma má verve de gente imberbe
à força de se falsear na janta!

Pois fome é uma benesse aos olhos
e grandes sombras feéricas atropelam
a regra da pavimentação:

O piso não serve!
É já piada ter chão!

Sidney Azevedo

sábado, 11 de julho de 2009

Expressões - IV

Donut plains 7


Mario é um jogo lisérgico... A tal ponto que me lembra Battletoads.
Sidney Azevedo
Também tenho minhas horas de nerd...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Expressões - III

Um esboço

Pôr a boca no mundo seria difícil num mundo onde a fragmentação identitária levasse necessariamente ao relativismo. Sei que a noção é já desgastada, mas como ria Nietzsche do livre-arbítrio - "sempre aparece alguém se julgando forte o bastante para vencê-lo" -, farei esse ato censurado com a aldeia global.
Basta o desenho.

Inda inté!

Sidney Azevedo

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Expressões - II

Um rosto que se vê no ônibus



Podem me dizer que um rosto, por mais que tentem desfigurá-lo, permanece um rosto. Mas são aqueles que lembram amontoados de riscos sugestivos de idéias os mais interessantes. Vi um desses ontem no ônibus. Como todos os demais, sério, prendendo a pele escamosa no vidro gelado de noite. Desarrefeço as pontas dos meus dedos na procura de três coisas: uma caneta, um papel qualquer e um pouco de espaço. Pois sim, tenho sempre a sorte de ter algum infeliz a meu lado. Minúsculo o desenho, mas consegui reproduzir nele toda a atmosfera do ônibus, um enfado descaído. Inda inté!

Sidney Azevedo

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Expressões - I

(Da) negação
Nada deve haver de mais traiçoeiro do que uma expressão. Não porque venha a revelar uma verdade - como se pode supor -, mas porque precisamente faz nascer a mentira da convenção simbólica em torno de alguma coisa.

Sidney Azevedo
Um olhar obtuso

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Um diálogo digno de Araque

Chiquinho Vilavelha veio de Araque para uma grande área fabril no Brasil, onde os parentes de sua ascendência viviam. Estava hospedado na casa de um primo, chamado Herone, a tentar entender certos aspectos do povo brasileiro, principalmente no que dizia respeito ao trabalho. Transcrevo um trecho da conversa que meu avô Sidney sempre me conta e que nunca foi posta no papel. Peço desculpas pelas incoerências e pelo pedaço desconexo. Espero melhorar a edição disso... Ainda até!

Titio é metaleiro!
Metaleiro é piada, Chiquinho!
Piada de onde?
Metaleiro curte metal pesado.
Pois! Titio trabalha com metal pesado.
É, mas trabalhar não é curtir.
E qual é a diferença?
Curtir tem muitos significados...
Fala todos, algum deve ser igual a trabalhar.
Trabalhar também tem muitos significados...
Fala de todos eles também!
Está bem, vamos a eles.
Estou pronto!
Curtir é estar gostando de alguma coisa que deixa feliz.
Hum..., e o outro significado?
Curtir é deixar o couro secando ao sol até ficar teso, mas quase ninguém usa esse significado.
Hum..., e o trabalho?
Trabalho é sofrimento!
Só isso?
Bem, é um sofrimento que afeta o corpo diretamente.
Mas porque existe trabalho então, o mundo não devia ser só curtir?
É, mas as pessoas trabalham para ganhar dinheiro.
E isso agora, o que é?
Não se faça de tonto, rapaz!
Não sei mesmo o que é...
Estás de piada comigo de novo, é?
Não.
O quê?! Os caras não te ensinaram nada lá em Araque não?
Não isso de dinheiro...
Como vou te explicar?... Bem,Dinheiro é um papel que todo mundo troca para conseguir alguma coisa que quer.
Lá em Vila dos Limões, no interior de Araque, não se usa papel, trocamos comida mesmo.
É, pelo menos você sabe o que é comé..., é, digo..., troca de coisas.
Acho que entendi o tal dinheiro!
Que bom.
Hum, então as pessoas trabalham..., ganham dinheiro... e vão curtir..., certo? Mas isso faz com que curtir e trabalhar sejam a mesma coisa!
É, você entendeu o dinheiro. Mas trabalhar e curtir não são a mesma coisa. É engano seu. Ninguém gosta de trabalhar, fá-lo por obrigação.
Acho que é sim, quando o sol queima a pele faz ela sofrer, curtir não é isso também?
É!
Então?
Sim, vá, que vá, é isso. Curtir e trabalhar são a mesma coisa, mas nesse aspecto somente.
Mas quem pretende curtir depois não tem que trabalhar? Há-de estar feliz só por lembrar disso...
Hunf... É...
O metaleiro vai curtir um metal pesado no trabalho e na curtição.
É...
Então titio é metaleiro?
Calma. Ele é metalúrgico!
Ah... E que diferença tem?
Mataleiro gosta de músicas que recebem o nome de "metal pesado" e metalúrgico trabalha com metal, mas isso não quer dizer que goste do que faz...
Ah...
Compreendeste agora? Por um instante botaste-me em confusão...
Sim, compreendo. Mas ainda acho a mesma coisa...
Ai, santo Deus..., e porque?
Heavy metal é uma merda!, vou-me para Araque!

Leandro de Azevedo Morujão

Sidney Azevedo
Um lampejo.
(Isso tem de ser escrito melhor)

sábado, 4 de julho de 2009

Título direto: Má argumentação

A erudição de mim se desprende. É uma pele arrancada que não me doerá mais. Uma pele que já não mais pedirá sangue. Até porque o sangue, o meu sangue, já não agüenta mais mentir.

Uma síndrome de imbecilidade apossa-se-me. É o fim da gloriosa mente. Em névoa caio por incompetência de não saber a hora de agir. Esfumaço-me e descubro que estado de graça é o não-saber. A inconsciência é a virtude-mor dessa hora morta.

De que vale o imperativo categórico de agir na esperança de uma coerência universal inexistente? Primeiro: esperança é um estado permanente de espera. Os atos dos outros dependem de valores que lhes sejam próprios, os quais nem mesmo a maior capacidade de previsão será capaz de mapear completamente. Segundo: mesmo que tal mapa fosse traçável, continua a não nos ser forçoso agir de modo determinado.

Anos e horas de estudo para num ponto deste ver-se idiota, ver-se ridículo. Só por isso mesmo: "ver-se". Bem como o imperativo kantiano: vê se faz aquilo que espera nos outros ver em ato para ti. Ver. Ver não é boa regra. Nunca foi. Pena que só agora me dou conta disso.


Sidney Azevedo
Minhas argumentações seguem cada vez mais pífias.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Rápida, para não acontecer de esquecer o que seja postar

Exercício

Eu queria escrever um texto fazendo igual o pensamento agápico e a vontade de conhecer as plenitudes enquanto plenitude una do mundo sem idéias fechadas em palavras que soariam vagas aos olhos de pelos menos mais de setenta e cinco por cento dos meus conhecidos.
Acabo de conseguir.

Sidney Azevedo