sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Sem importância, sem necessidade, sem motivo

Três correndo

Eu saía da faculdade para o terminal central quando me deparei com uma cena dessas que atrai atenção sem a clamar. Eram três sujeitos correndo. O que há de especial nisso é que não é todo dia que se alguém correndo pelo Centro. Muito menos três pessoas. Todavia, acredito que, para a maioria dos joinvilenses, ver alguém correndo no Centro é tão impactante quanto saber que há uma formiga debaixo do pé. Então, porque escrever sobre isso? Pela formulação de uma sensibilidade maior? Para denunciar a morte da sensibilidade no processo de metropolização ideológica de uma província que não se vê como tal? Nada disso. É que há, no evento, mais algumas coisas interessantes.

A coisa um é que os sujeitos carregavam sacolas plásticas e mochilas e, nestas sacolas e mochilas, objetos que lembravam a venda de CDs com a qual deparamos sempre que passamos pelas galerias e centros nervosos de Joinville protegidos da vista imediata da polícia. Isto deve soar sugestivo. Haveria no fato uma perseguição policial, então. Haveria, mas não havia. Haveria porque está-se acostumado a prever esse tipo de ação. Em uma mente destreinada como a minha, nada parecia mais normal que pensar um vendedor de material pirateado fugir de agentes da polícia encarregados da fiscalização. Mas não estava a polícia a tentar alcançar os sujeitos. Na verdade, mesmo os que presenciaram o episódio viraram a cabeça sem se perguntar muito mais sobre o que havia naquelas sacolas ou sobre o que faria os sujeitos correrem.

Na verdade também eu não dediquei muito à questão. Que talvez se resumisse àquele instante muito breve em que nos perguntamos, “O que é isso?”, talvez fosse uma ilusão, não sei. Talvez ainda não tenha cessado em mim o existencialismo. Há antídoto para isso?

Sidney Azevedo
Um antídoto!, por favor!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Toques superficiais na teoria

De sentir o tempo

Ontem este que vos escreve pensou em refletir no dia seguinte - que seria hoje e efetivamente é... - alguma coisa ligada à questão da sensibilidade. Por que isso? Bem, comecemos com isto do tempo, que talvez tenha saltado aos olhos argutos que leram a anterior e estranha frase. Reside no tempo a nossa fundamental forma de sensibilidade? Nós, modernos de tanto assim nos dizermos? Lembro-me muito de um livro do historiador francês e estudioso da medievalidade Jacques Le Goff, em que ele descreve a sensibilidade medieval como fundada no valor da insegurança.

- Insegurança como valor? Estás doido é?

Não, não é bem como valor... É como uma constante, digamos, sentimental, e, relembrando outra vez - espero não estar a me fazer incômodo com isto - "sentir e pensar é, no fundo, a mesma coisa". É o sentimento de insegurança que levava os medievais a agirem como agiam. Buscando sempre meios de fugirem da instabilidade e da mão incerta do clima que ora fustiga e ora reaviva a certeza da sobrevivência, entre fomes e farturas que criam um eremitismo e uma busca itinerante da vida ameaçada pelo avanço sereno e inevitável da chegada de um céu e de um inferno.
Mas está muito medievalizado este texto quando a intenção inicial era apenas mostrar que há outras fontes de sensibilidade, sempre em desenvolvimento. Mas, a questão central, que faço consciente de não poder responder aqui, em tão exíguo tempo e reflexão, é se não é o tal de tempo nossa matriz de sensibilidade. Vide Kant, é.

- Kant de novo não...

- Mas é preciso, já vais ver:

O filósofo de Königsberg diz que o começo e o motivo de todo o nosso conhecimento, ou pelo menos aquele relacionado às coisas mais simples e imediatas, ainda não abstratas, mas que vão ajudar na construção dos nossos instrumentos racionais, são nossas relações com o espaço e o tempo. Por infelicidade não recordo com precisão quais são as definições desses conceitos. Mas o espaço se relaciona com o lugar, com o estabelecimento de uma certeza referente à forma. Isso não quer dizer que o espaço tenha alguma correspondência na imagem, mas na constituição de corpos que permitem o reconhecimento de distintas entidades. Tempo, todavia, nada mais é que a relação de diversos estados de formas em modificação coerente. Para uma tradução, seria necessário dizer assim:

- É que tens vários negativos que, se colados e passados diante dos olhos, rendem o entendimento de uma seqüência perfeita, como uma película fílmica.

O que nos interessa aqui não é o absurdo dessa proposta espaço-temporal de Kant, que tenta racionalizar ao extremo a existência como numa tentativa desesperada de fazer que o tempo se arraste até uma contemplação eterna. O que interessa é que Kant é o cara do pós-Revolução Francesa e aquele que funda filosoficamente a ciência. É o sujeito moderno. E esse conceito de tempo que ele formula nada mais é do que a relativização das relações. Ou seja, se por um lado, pressupõe-se uma linearidade na construção temporal, por outro entrevê-se que é exatamente o contrário, que as relações entre as coisas podem ser estabelecidas em quaisquer aspectos que constituam sentido. Isto é. O moderno implica a possibilidade de se relativizar o tempo, talvez a única fixa na Idade Média - exatamente por inexistir.
Isso é metarialmente possível porque o burguês cada vez mais deve maximizar sua produção e atender à demanda de um mercado que se expande com a tranformação cada vez maior da moeda física em capital abstrato.
Mas, que é moderno para que se lhe atribua tantas características dialéticas, dignas de um monstro feérico de garras afiadas?
À etimologia: moderno vem de modus em latim, que, fundamentalmente, representa modo, ou como que se faz. A palavra implica, ainda, menção conceitual ao tempo presente. Ou seja, moderno é o feito agora, mas ainda não acabado. Com tudo isso, de fato a característica da modernidade é a instabilidade do tempo que se almeja dissipar com a recrudescente institucionalização das coisas que fazem parte direta da formação das pessoas (Igreja, escola, família, trabalho).
Ou seja, a aparente redução da instabilidade material da medievalidade nos entregou a outra insegurança: a do tempo, da hora, do minuto, do segundo, do instante. O Deus que se propor mestre do tempo, e não um provedor como o foi na I. M., há de ser o que vai reger a religião daqui para a frente, porque será preciso tranqüilizar o homem com o tempo, fonte de sua abstração e realidade.
Talvez me faltem provas concretas para dizer que é o tempo que domina as relações do homem moderno com a existência. Mas fica aí. O sentimento do tempo é a matriz de sensibilidade do moderno.

Sidney Azevedo
Um excerto
(Aguardando pedidos...)

sábado, 18 de setembro de 2010

Em prol de novos modos de pensar

E de sentir, pois, já dizia Fernando Pessoa...

Há dias desses que parecem existir só para que se tenha passado um dia. Imaginai um sujeito que passa por um dia superior a todas as expectativas que vós podeis ter. Se ele não assistiu ao programa de auditório dominical, descobriu que ainda consegue ler, sem dificuldade, em latim, praticou bungee-jumping, inventou um novo alfabeto baseado em runas poveiras da Beira Interior, criou um método para memorizar os conceitos do "mais indecifrável cidadão da sociologia", desenhou, reconstituindo com fidelidade ao sonho da noite anterior, a cria impossível de um triceratops com um megatherium, como seria possível que ainda se sentisse em um dia comum, dos que há por haver?
Haveria nele algo de remorso? Uma raiva que não se sente capaz de expressar do modo devido? Por que se creria tão incapacitado para tudo quando na realidade é talvez a mais indicada pessoa para a criação do mundo novo? O que trai a expansão de tal indivíduo? Seria o fato de ele se fazer só quando mais precisa de gente ao seu redor? Seria sua paixão por não permitir a existência de perguntas por um mero formalismo? Seria a vontade de se reduzir? Como é possível que alguém pense isso? Imaginai, pois, que esse cara não tem outras pretensões para além de sua pequenez. Não é isso algo estranho? Ele se impede de fixar os olhos nas informações que tem ao seu redor para se sentir pequeno na esperança de uma totalidade que consiga dominar precisamente por ser pequena e fácil, mas que vê, cada vez mais, que lhe é impossível fechar a bolha porque há sempre um duto que leva ao exterior.
E ele ainda se nega a ver nesses dutos o que de fato interessa, isto é, a transformação da vontade em ato aberto, continuidade de existência que a leva a um grau mais alto. Isto porque, é na relação, e não no simples produto da relação - quer seja isto o conhecimento, a fé, o amor, a esperança, a verdade ou qualquer outra figura conceitual que prove sua efemeridade à medida que torna um sentimento intenso em uma memória rota da qual nasce a raiva de não o poder reviver (o que, aliás, é classico do espírito gagá...) -, que existe a juventude e a reação e a ação capazes de tornar o mundo uma arena de novas idéias, sensibilidades e mentalidades.
Talvez digam: "mas era aquele cidadão que imaginavas algum velhuço?" Não, pois... Era... Ah, deixa para lá. Há coisas mais importantes para perder tempo com idéias velhas.

Sidney Azevedo
Se precisar explicação
(comente...)

PS: O "indecifrável" é o sociólogo francês Pierre Bourdieu, a sacada é de uma professora de antropologia da minha faculdade.
PS2: Não é tão importante, mas é importante também. O Antítudo não vai mais usar tags precedidas pelo prefixo "anti-", mas etiquetas simples que enunciem temas relacionados diretamente ao texto. Encarem isso como quiserem.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Primeira incursão pela noite da história

Um momento em 1830


Não sei se há pior que descobrir-se descendente de donos de escravos. Tinha já uma vaga certeza, mas que não era certeza por falta de prova documental. Antes dela, tudo levava para um plano dos princípios puros e simples em que todos os homens são iguais e a existência de latifundiários não passasse de uma possibilidade distante e inconsistente do desenvolvimento humano.

Acontece que não há muitos dias, descobri uma carta de meu trisavô encolhida e esperando ser aberta em um dos velhos álbuns de fotos da família. Eu apenas sabia que Vicente Antonio Aguiar Caetano Rosa sabia ler e escrever e que isto representava uma das maiores formas de poder da época. Não sei por qual motivo, mas pensava que fosse algum advogado aposentado saído dos centros urbanos de São Vicente e São Sebastião do Rio de Janeiro. Mas não era. Era um latifundiário produtor de milho, arroz e café.

Na carta, ele explicava à "muy estimmada irman que se iria encontrar com o tabelliam em alguns dias para o accerto do vallor da transação de vinte escravos de bons dentes para a colleta dos grães de algodam". Talvez fosse um projeto novo que, porventura, estivesse dando certo. Na mesma carta, ele pedia o apoio dessa irmã que morava em Parati, no Rio de Janeiro, "o appoyo para a venda ao marques" Que marques ou marquês é esse não faço ideia, mas em 1830, além do português estranho, descobri esses traços de vida.

Mas há no passado esse quê de surpreendente. E, quiçá, seja isso o pior. O passado é duro por sua inflexibidade. Pode-se dar como certo que algo ocorreu, mas será correto falar dele em termos de verdade? Eu não sei mais. Tenho lido heresias demais contra o conceito de veritas e percebo que, se conseguiram tirar da verdade seu caráter perene, também puseram o homem em uma grave insegurança de si mesmo.

Na Idade Média a verdade era a própria vida como era vivida. Era o que se percebia - veritas est adaequatio rei ad intellectus, (verdade é a adequação do objeto à inteligência). Não havia nada além disso, porque a verdade de tudo estava com o homem, revelada por Deus. O homem médio feudal não conhecia o possível. Ou talvez não conhecesse a possibilidade de expandir o objeto que se adequa à inteligência. Se assim não fosse, conheceria a verdade pessoalmente, como os homens de tempo nenhum talvez tenham conhecido. Mas é desonestidade muita pretender pensar o que gente de muito tempo atrás pensou.

Os meus antepassados eram sujeitos feudais. Se médios, isso não tenho idéia, mas fazendeiros donos de extensas propriedades nas regiões que hoje compreendem os municípios de Araquari, Balneário Barra do Sul, São João do Itaperiu, Massaranduba e Barra Velha. É certo que durante muito tempo foram representados na figura de reis e rainhas nas festas negras do Divino, que continuam até hoje, mas sem tal ligação, porque meus antepassados perderam seu poder há cinco gerações.

Todavia, tinham desprezo pelo possível. Meu tataravô descobriu que existia a possibilidade quando morreu sua esposa de uma doença contagiosa que vitimou muitos moradores na época. Desesperado, só lhe ficou a espera pela morte, que não demorou muito. A nós restou a lenta e progressiva corrosão dos bens familiares até o ponto em que apenas um punhado de jóais do segundo reinado e as velhas cartas de meu trisavô. Jack London chama insistentemente tal processo, em O povo do abismo, de "fatalidade", pois os pobres de Londres só iam parar no East End devido aos azares de partir o osso de uma perna, de adoecer gravemente, de separações, ou de instabilidades emocionais.

Mas a possibilidade de retorno, há-a também. Voltando à questão da verdade, penso que não é que ela não exista, é que quem toma seu lugar é a surpresa. A surpresa tem seu instante de real vívido, e depois cai em uma realidade morna, quando deixa de ser surpresa. Me parece que o desenvolvimento moderno tem muito disso. E o acompanha também minha ancestralidade.

Em um ensaio Henri Lefebvre disse que o moderno se constitui de uma referência constante ao presente. Não existe o "sempre" e o "nunca", mas o agora, o ontem e o amanhã. Neste terreno o ideal humanista do século XIV foi de suma importância. Deus e as coisas celestes não foram negadas, simplesmente se entendia que também para elas havia um momento. Tal momento se designou por ascese. A verdade, assim, estava fora. E para chegar a ela, era preciso conhecer, só o conhecimento poderia levar à verdade.

É difícil dizer se o homem circulariza sua existência ou se consegue retilineamente caminhar. De algum modo, há um pouco dos dois: por um lado, o ser humano está limitado ao universo quando se pensa em probabilidades teóricas, mas quando se descobre sozinho num mundo que lhe põe o ser em uma planificação, em um espaço com um "acima" e um "abaixo". Quando há algo de sólido e certo abaixo de si, a história parece querer dizer-nos que, pelo menos até agora, temos duas posturas.

Basta, ainda, abrir os olhos na hora de dormir e ver que há, tão-só, escuridão, medo e tortura à frente do olhar para um céu vazio chamado História.


Sidney Azevedo
É ser escravo de si mesmo a pior escravidão?
(Ou ser um escravo da má interpretação?)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Isto não é, ainda, literário

Ser notívago

Já não me resta muito tempo para escrever. Não, nada de muito grave está acontecendo. Simplesmete é isto: não sei quando o sono me virá colher esta noite. Por alguma razão eu me tornei notívago, e sem, em absoluto, querer. Não que haja, por sua vez, algum problema em ser notívago. O problema é que eu dei à palavra uma denotação que me decepciona. E há pior: Não foi uma simples atribuição de significado - a qual se poderia eliminar sem dificuldade com um pouco de raciocínio -, foi algo mais intrínseco, algo mais prático. Sim, a ênfase aqui é para a ação (dito melhor, para a ausência dela).
Antes, eu entendia um notívago como alguém em um estado de espírito elevado e que encontrava na solidão e no silêncio da noite o barulho e a presença de suas ideias. É uma noção errônea e aprendi isso da pior forma que se o pode fazer. Aprendi esperando encontrar no canto da sala - exatamente como se faz quando se procura um pano encardido, uma peça perdida de um jogo de xadrez, uma lata de cerveja vazia ou uma coisa que, por ironia da lógica peculiar dos acontecimentos, não se está a procura - uma parte da minha criação pronta e esquecida em algum canto remoto da memória e que fosse, por esse mesmo motivo, capaz de escorrer, como um líquido qualquer, da minha mente para a caneta sobre o papel ou sobre o teclado do computador e que configurasse destarte um texto, poesia ou prosa, música ou diálogo ou fosse o que o que fosse, mas pronto.
Agindo dessa forma não poderia, jamais, encontrar coisa alguma. Seria dar razão à existência desse ente a que chamam dom. E o estava sendo. Mas como é uma angústia que acredito não ser apenas minha, é justo compartilhá-la aqui. Eu sei que prometi, e não há pouco tempo, que faria postagens diárias. Mas já percebi que isso é impraticável. Não que eu tenha muito o que fazer, mas um motivo, isto sim, muito mais vil, o tornava em nada: simplesmente idealizava em demasia a minha produção para o blogue, exatamente quando ele deveria ser um espaço para o devir incerto das palavras, sem a preocupação com uma finalidade que não fosse a simples expressão. Aliás, aquela mesma plavra, "produção", é grande parte do problema. Produção pressupõe não só regras, mas uma forma específica à qual o ser humano, quando se tenta a ela amoldar, descobre-se mais incondicional do que quando se entende em liberdade. A negação do produto, do pronto, é uma parte da libertação da sombra.
É assim que quando se deixa de se ter certa coisa por dada, podemos ter conhecimento. É desse modo, verdadeiramente, que se é notívago naquela forma que eu pensava. Mas a idealização desmesurada tornou minha "notivaguidão" algo sem motivo. O que é preciso, tão-somente, é fazer, senão o notívago será aquele que vagueia, desatinado, pela noite do nada.

Sidney Azevedo
Um problema a menos
(Sim, o primeiro...)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Despertadores

Sobre como tirar alguém da cama

Havia um cara dormindo. O cara era eu. Para completar a história, é preciso que algo aconteça. E acontece. Toca o telefone. Atende-o minha mãe. (Ao longo de tudo isso continuo dormindo). Após algumas palavras ela vem até o meu quarto, com o telefone na mão e dizendo que há alguém na linha querendo falar comigo. Alguém, assim sem precisão, não. É a moça do banco Itaú, que há algum tempo vem me incomodando com ligações a cada dois dias, nos mais diferenciados horários na esperança vazia de me oferecer linhas de crédito. Eu não quero linhas de crédito, caramba. É preciso todo esse descomunal esforço para me fazer gastar sem necessidade?

Telemarketing é uma desgastante forma de bullying social em prol do consumo.

Não há problema com os operadores. São sujeitos a essa condição, certamente estressante, de receber 400 nãos na cara por semana - se não for mais - sob a pressão de um chefe exigente que exige na cara um sorriso e um ar jovial de felicidade para o potencial cliente. Se é você que lê o meu blogue a pessoa que fica me ligando para saber se tenho interesse em receber linhas de crédito, telefone-me para oferecer um emprego antes. Quem sabe podemos então fazer negócio.

Sidney Azevedo
Raiva
(cinco minutos?)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Velhice e fala (primeira reflexão)

O silêncio já não é arte

Conheço muito bem uma velha preocupação que ronda a cabeça dos jovens humanos que rodopiam na dança incansável de viver. É aquela que estima ser melhor calar-se quando não se tem algo a dizer. Há momento piores em que "algo" vira "muito", e não vou fazer essa observação àquela altura da frase porque dela já me estou distanciando, levado pelos meus ágeis dedos a continuar o raciocínio que deu nascimento a este texto. Eu sei que talvez seja já um discurso repetitivo - e constantemente! Mas eu não sou velho. Já me afirmei desse modo e me arrependo muito. Sou jovem, e percebo, uma vez mais, que é preciso escrever. Escrever para livrar-se da angústia que aquela ontologia mínima que nos leva à criação de mitos na vaga esperança de pôr ordem no mundo. Não pode haver-nos tempo para uma mescla insalubre de saudade e energia.

Sidney Azevedo
Porque essa assinatura?
(Passo a passo...)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Carta de intentos

Aos eventuais leitores,

Este texto (sim, uso esta palavra por não querer dizer que isto é um post) está para o blogue como um termo de compromisso. Sei que não devo ter leitores, mas não custa lembrar da capacidade virtual de mobilização que estas páginas perdidas têm. Então, se os há, quero que cobrem minha presença. Em primeiro lugar, acho que nunca houve uma "cara" para o Antítudo. E quero continue sendo assim porque, uma vez ilimitado, há muito mais espaço para a minha intelectualidade. O silêncio que nele houve nesses últimos meses não foi daqueles calares que eu gostava de provocar e de reconhecer em mim, mas o resultado de uma crise de incertezas sobre a qual espero ir falando aos poucos, em mediações repentinas nos conteúdos que for "postando".

Também quero fazer o leiaute voltar à velha cara. E é provável que leve o dia de amanhã nessa reformulação (ou nem tanto, uma vez que ela é bem mais fácil). E, embora não esteja certo de conseguir cumprir este objetivo, pretendo que o Antítudo volte a ter uma postagem diária, como aquelas entre outubro e dezembro de 2007.

Esta Carta de intentos não vale só para o Antítudo, mas para outros blogues em que também estou envolvido. Para o Mappa Mundo, talvez meu único projeto real de jornalismo, ainda que embriagado de um articulismo de alcance breve - é um espaço de comentário sobre assuntos diversos que permeiam as editorias de mundo de outros países -, deve ter pelo menos três materiais em cada semana. Atualizá-lo-ei às segunda, quarta e sexta-feiras. O Dia Litúrgico, página aberta, mas ainda sem nenhuma produção, é um blogue que criei para discussão de temas relacionados à religião - um dos meus preferidos. Espero atualizá-lo duas vezes por semana, às terça e quinta-feiras.

O quarto blogue de que pretendo dar conta é o Resenhário - também por inaugurar -, que é destinado à publicação de resenhas e leituras de livros e coisas que eu tenha lido durante a semana. Uma vez por semana, aos sábados, está de bom tamanho. É provável que nos primeiros meses a maioria das postagens seja referente a foucaults, bourdieus, feyerabends e coisas do gênero, em virtude de minha monografia.

Assim, temos o seguinte diagrama:

Segunda-feira: Antítudo e Mappa Mundo;
Terça-feira: Antítudo e Dia Litúrgico;
Quarta-feira: Antítudo e Mappa Mundo;
Quinta-feira: Antítudo e Dia Litúrgico;
Sexta-feira: Antítudo e Mappa Mundo;
Sábado: Antítudo e Resenhário;
Domingo: Antítudo.

A postagem dominical deve ser preparada aos poucos, durante a semana (pelo menos espero que seja assim). E, apesar da prioridade do Antítudo, imagino que seus textos deverão ser feitos para uma postagem posterior às dos outros blogues.

Sei que a postura de planejamento indicada por esta carta é estranhíssima, até para mim - que dir-se-á daqueles que me conhecem melhor. Mas, que seja! Ela é necessária no momento atual. E não é preciso discutir metafisicamente isso. Pois quanto mais se pensa menos se faz pensar. Pois a interiorização não permite fazer do pensamento um fermento verdadeiro.

Então, esta carta vale a partir de hoje.

IMPRIMATUR,
19 de julho de 2010.

Sidney Azevedo
Por que nos propomos tantas tarefas?
(Se delas mal damos conta de meia-dúzia?)

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Antioquia

Salmo

É sem olhos o homem,
e feliz a não mais poder,
até descobrir-se sem eles
na presença maldita do espelho.

O problema da maçã de Adão
não é o conhecimento,
nem o bem e o mal.
É quando um certo deus
vem reclamar essas coisas
e criar o império dos homens.

Deus bem disso sabia,
mas o homem, ainda cego,
ainda incompleto e inocente,
descobriu-se.

No fundo do espelho está si mesmo.
No fundo dele também o diabo.
Quiçá o velho narciso.
E o jovem descartes também.
Num plano em que zero é a consciência
e quando ela se expande
se recolhendo ao oco de si,
gela-se o homem.
E morre-se;
e destaca-se.

No fundo do espelho está si mesmo,
está medusa e sodoma e gomorra.
Deus, dê aos homens os olhos antes que tu
olhes um deles e se estatue também.

Sidney Azevedo
Ah, a raiva!
(Há, sim, e egoísmo também).

Tempo falto

Sem revisão
Outra vez

Não sei que é que se pode escrever nos escassos nove minutos que me faltam para as 2h e para que me comece a oprimir a obrigação de já ir para o quarto e tentar dormir o quanto antes. Como sempre, muitas são as coisas sobre as quais se pode escrever. E muitas ocorrem ao longo do dia. Mesmo um dia que seja dedicado ao ato não tão nobre de pôr a casa em ordem. Isto é, lidar com documentos e folhas que comprovam nossa existência ante as instituições e seu peso que, por menor que seja sua idade, sempre soa como algo perene e constante no tempo.
Vá bem. Embora pudesse escrever algo sobre isso, me vejo obrigado a abandonar a temática por um motivo muito insensato: acho que, a essa hora, não teria criatividade para dar novo tom à questão e não faria mais que repeti-la. Quiçá - inclusive - já o esteja fazendo. E me restam quatro minutos para acabar. Tenho vergonha de publicar algo que nem a mim satisfaz. Mas, convenhamos, não há muito que escrever em pouco mais de quatro minutos.

Sidney Azevedo
Exercício
(até quando?...)

terça-feira, 22 de junho de 2010

Carta ao leitor

Principalmente ao do Primeira Pauta

Quem pegou a edição nº 92 do principal jornal-laboratório do Ielusc há ter percebido uma grotesca incoerência entre o título do "Editorial" e o texto que a ele se segue. Pode até parecer uma piada inteligente, ainda mais pela primeira rodada da Copa - em si mesma uma grande galhofa. Acontece que aquilo não foi algo planejado como as receitas de bolo nas matérias cortadas pelos censores durante a ditadura militar. Foi um erro crasso, resultante da não-revisão.
Para começar, o texto que foi escrito para essa edição específica não é um editorial, e sim uma apresentação que, em linguagem de jornal, chama-se "carta ao leitor". O texto era meu e, por algum desses desastres que acompanham a experiência humana na Terra, não foi publicado. Mas o meu blogue é um espaço para apresentá-lo intacto, ainda que haja referências ao jornal.
De qualquer forma, aí segue.

***

Copa com cê maiúsculo

Por que permitem que certos irresponsáveis escrevam essas cartas?

A copa das mangueiras não tem mangas porque quase é inverno. Na copa ainda não se fez o café. Mas o que é jogado a toda hora na nossa cara é que a Copa, com cê maiúsculo, está prestes a começar. Tanto é que na edição passada já tivemos uma matéria sobre o favoritismo do Brasil. Mas a edição passada já foi, e a que tens em mãos teve uma particular preocupação com a Copa.
Começamos apresentando algo que só esteve na pauta e que, por infelicidade, não pudemos trazer à vossa leitura. Seria uma entrevista com Ramires, volante da seleção brasileira e ex-jogador do JEC. Todavia, apesar de grande esforço, não conseguimos contato e essa entrevista caiu.
Mas não se desespere. Se quiser ir para a Copa, poderá conhecer como dois irmãos joinvilenses se prepararam durante seis meses para passar 30 dias na África do Sul. Assim, vá pensando em 2018, que, espera o editorialista, seja em Portugal e Espanha.
E, olhe só, novamente estamos falando de viagens. Há duas edições a carta ao leitor versava sobre repórteres-andarilhos. E os nossos cruzaram os céus. Jacqueline Rauter, foi até Manaus para entrevistar um andarilho da língua portuguesa, o professor Pasquale, na página 8. Também voou Valmir Fernando com o Águia para fazer a matéria sobre o helicóptero da polícia militar.
Esta edição ainda traz matéria sobre as bandas de rock da cidade e sobre um policial federal que escreveu um livro. Despeço-me aqui, indo à copa fazer o meu café que não chega, desejando uma boa leitura, lembrando que várias são as copas e que o melhor a fazer é ler um livro. Inda inté!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Ex-perimetral

Um experimento a mais

Houve tempo que não fazia poesia.
Houve tempo que não fazia pesquisa.
Houve tempo que não sentia correr pelas veias o incrível sangue jovem de intelectual.
Houve tempo, até, que não fazia coisa alguma.
Houve tempo para tudo, até para parar.
Pára o tempo, que para isso não se pode parar:
A parada militar das pardas, mentes, para mim.
Virgulando errado o Virgulino descobre o par.
Da meia cancha o descanso escança o tempo
Tempo de eventos pequenos de guerras de formigas
Abrigas sim! A moradia está a fazer!
Poesia, pesquisa, debate! Jornada, mas dessa vez sem mentira.

Sidney Azevedo
Deixando o silêncio
(Todavia silencioso...)

terça-feira, 25 de maio de 2010

Pequenas ausências

Velho perde passo no espaço público

Aquele velho parado, pousado acima do piso do ônibus, viajava. Sim, viajava tão-somente. Por uns instantes as coisas passavam pelos seus olhos sem receber reconhecimento. Voltava a ser bebê, mas um bebê que sabe não poder reconhecer o ambiente onde está. Mas que sabe estar em algum lugar. Tal neném, se for neném mesmo, não sabe. Simplesmente está. E não quer, por meio de uma série de misteriosas interconexões cerebrais, chegar à conclusão de que está numa grande lata pintada de amarelo capaz de carregar até 72 pessoas e, resignado, ceder a essa verdade. Esse pequeno tem por interesse-mor o reconhecimento do imediato, das coisas pontuais que aos seus famintos olhos abertos se oferecem como algo desprovido de conexão com o resto do mundo. É preciso, pois, provar, testar aquilo, mas sem pretensões. O pequeno vai querer pegar, morder e cheirar o balaústre da porta – é verdade, o transporte coletivo de Joinville nem mais isso tem –, mas não há meio de querer saber se está num zarco, nem que linha faz, nem quais são as ruas e bairros por onde passa ou as leis que dão o alvará à verdureira em frente à qual passa o ônibus. E muito menos possibilidade de querer entender a política de uma concessão não-renovada que custa, diariamente, 30% do salário de sua mãe, cortando-lhe a possibilidade de passar o dia com a avó em casa porque a conta atrasada de telefone, do mês anterior, impossibilita a mãe de ligar para pedir o favor.

(Só um parêntese: a mãe, à janela, por incrível que pareça ao mundo moderno e industrializado desta cidade cinza, não possui um celular. Ela mesma disse, tentando acalmar a cria, a uma mulher, sua conhecida, no interior do veículo. Esta estava sentada, sem ser obstáculo aos olhos perscrutadores do velho, por sua vez a meu lado, enquanto eu ia de frente para a porta.)

Voltemos, pois, ao idoso. Só percebi sua presença quando, no alto dos 72 anos, em pé e firme ao segurar o encosto do banco da amiga da mãe daquele bebê chorão, pergunta-me se é, aquela, a rua São Paulo. Digo-lhe que sim, que é a rua São Paulo. Agradece-me e explica que perdeu, brevemente, a consciência de onde estava. Duas ou três vezes mais quis fixar-me a razão de sua pergunta. Creio que queria se assegurar da minha compreensão. O idoso tem duas ou três vezes mais necessidade de se assegurar das coisas, ainda mais se já teve da falta de memória alguma surpresa desagradável.

Perguntei-lhe aonde ia descer. Ele ia descer “no ponto da Cipla”, mas não disse exatamente em que lugar. Não importa. No chão, livre da obrigação de conhecer os espaços, basta andar.

Sidney Azevedo
Jovem andarilho
Colecionador de miudezas

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Modernismo e modernidade

Insuficiente, todavia, bastante

Modo. Moderno. Hodierno. A adoração do moderno tem a ver com um estado de consciência que se refere a si mesmo. Não existe, para um modernista, o tempo. Existe a apropriação da experiência do tempo numa consciência de movimento. Isso determina, quando ele pensa em um tempo, o tempo atual como um destempo, uma afronta ao tempo anterior, que é o passado, as coisas velhas que ele diz não ter nada a ver com ele. O modernismo se define pela negativa ciente (porque, por mais que pareça impossível, há negativas inscientes). Já uma modernidade é uma reflexão desse modernismo. É o estágio de pensamento sobre o alcance das afrontas modernistas e das novas experiências que surgem dessa interpretação das coisas.

Sidney Azevedo
É preciso ser moderno e modernista.
Mas como?

Entreato I

Creio que nunca publiquei uma entrevista no Antítudo. E esta também não será a primeira vez. É que não se trata de uma entrevista, mas de uma conversa, devidamente consentida, de uma moça intrigante. Ela tem 19 anos e já iniciou três cursos de graduação, mas não chegou ao segundo ano de nenhum; são Biologia Marinha, Jornalismo e Artes Visuais - onde se encontra agora. Atua como atriz no grupo de teatro da Univille, e se autodenomina, por vezes, como uma pessoa lesada. É atéia convicta e sinceramente não sei com o que trabalha. Gosta de conversas sobre o ego, sobre o ser e sobre... Bem, veja na "entrevista":

Sidney: E aí, como vai de artes visuais?
Alessandra: Bem, mais ou menos.

Os dois riem.

Alessandra: As pessoas são doidas mas não costumam ler. Nem pensar.
Sidney: Sério?
Alessandra: Aí isso me irrita muito, muito, muito mesmo!
Sidney: Não sei como me movimentaria num espaço onde não houvesse gente que pensa.

Mais uma vez os dois riem.

Alessandra: Você acaba com tudo! Fala sério!
Sidney: Pois. Por falar nisso, que estás a ler agora?
Alessandra: A Náusea.
Sidney: Sartre?
Alessandra: Isso.
Sidney: Cara, esse livro é ótimo.
Alessandra: Sim, é bem massa.
Sidney: É o existencialismo de O Ser e o Nada posto, digamos... em prática. O Ser e o Nada, aliás, outro livro excelente.
Alessandra: Esse livro é bem para entender que não somos nada no mundo, por mais que tentemos..., e daí?
Sidney: O peso da nossa existência é nulo, existimos por "existir". Quando nos damos conta disso, o chão some, as linhas claras das coisas se desfazem e a existência é plena e una, mas não somos nada, esmagados sob essa realidade vazia.
Alessandra: E que se preenche através de uma criação de deuses, fantasias, amores.
Sidney: Creio que os deuses, os amores, as amoras e as fantasias têm mais relação com o momento em que estamos seguros da inexistência de nós como um ente. Quero dizer, existindo como uma pessoa determinada, com qualidades e preceitos definidos, "reconhecível" por si e pelos outros. Quando esse "chão" some, ante o relativismo existencialista, toda idéia perde sentido. Inclusive essas idealizações, como os deuses. Os deuses são a última fronteira, o último muro que impede essa plena experiência da existência.
Alessandra: Mas são poucos que chegam a última fronteira. E, são os sábios, os tolos ou os loucos?
Sidney: Sinceramente, não sei.
Alessandra: E eu gostaria muito da resposta!
Sidney: Acho que são-nos os três ao mesmo tempo.
Alessandra: Talvez
Sidney: Teria que conhecer alguém assim. Eu ainda não atravessei essa última fronteira.
Alessandra: Eu já!
Sidney: Tenho certeza que andei dando batidas no muro, e com violência, mas não foram suficientes.
Alessandra: E pode ter certeza que pesa, mas não vejo como voltar. O que pode ser mais deprimente. Tentar voltar, mas não conseguir!
Sidney: O deprimente, creio, está em não saber que as fronteiras das definições são estanques e tratá-las assim, como se fosse a única alternativa. Pois... Então, como te vês? Louca, sábia ou tola?
Alessandra: Uma pessoas vazia e insensível. Que a única sensibilidade que tem utiliza para manipular as pessoas os momentos. Isso cheira a tola.
Sidney: Manipular? Não sabia desse seu lado malvado...
Alessandra: Não faz muito tempo que descobri. E o pior é que eu fazia sem me dar conta!
Sidney: Curioso. Acho que também faço algumas coisas sem me dar conta.
Alessandra: Que bom, assim não me sinto sozinha nas minhas tolices!

Ainda outra vez os dois se riem.

Sidney: E como foi que descobriu que manipulava as pessoas?
Alessandra: Quando percebi como meu olhar podia falar, como algumas entonações mudavam todo um curso de uma discussão... E depois é só se aproveitar do fato que as pessoas são mais frágeis quando estão em grupo, talvez por medo de não ser bem aceitas, sei lá.
Sidney: Pode ser. Foi exatamente num grupo que fiquei sabendo que os outros achavam que eu passava por uma "síndrome de pavão".
Alessandra: Como?
Sidney: É como se diz entre a arraia-miúda, que eu sou uma espécie de sujeito que tende a querer aparecer.
Alessandra: (rindo) não acho isso de ti, mas eu sou um caso a parte.
Sidney: Mas é uma coisa que pensam sobre mim. Não fui eu que descobri isso em mim mesmo, como parece ter acontecido contigo.
Alessandra: Eu não tinha pensado nisso, mas as coisas que eu sei de mim costumo descobrir sozinha. A maior parte das pessoas me considera uma louca insegura.
Sidney: Pois é. Você consegue imergir em si mesma. Eu não tenho essa capacidade. Tenho capacidade de imergir no que pensam os outros e daí passar a tecer considerações sobre o mundo à minha volta. Você disse louca insegura?
Alessandra: Uma vez eu cheguei a acreditar nessa insegurança. Mas não me vejo nem um pouco insegura.
Sidney: Também não enxergo isso em você. Sabe como certa vez um amigo me definiu?
Alessandra: como?
Sidney: Um negativista inseguro.

Alessandra se ri largamente.

Sidney: É contraditório. Como um negativista pode ser inseguro? Me explica, por favor.
Alessandra: Muito! É contraditório mas nem tanto, você tende a profundeza, mas deseja voar!
Sidney: Compreendo. (Acho que compreendo...).
Alessandra: Você não sabe como essa conversa me fez bem! Ou mal..., porque talvez eu chore a noite inteira. mas fazia tempo que eu não conversava sobre o que eu gosto, com pessoas que têm algo na cabeça. Obrigada!
Sidney: De nada, Ale. Mas agora sou eu quem vai dormir com remorso... Não sabia que poderia te levar ao choro. (Na verdade, não sei em que posso ter provocado isso). Mas Também me fazia falta uma conversa assim. Ultimamente só tenho conversado sobre coisas técnicas de jornalismo e de teorias gerais da comunicação...
Alessandra: Não se sinta culpado, se não fosse você seria um livro que faria esse papel
Sidney: É a primeira vez que estou posto ao lado de um livro.

Mais risos, de ambos.

Alessandra: Isso pode ser considerado um elogio!

Ela se ri.

Sidney: Vejo desta forma sim.

É a vez dele rir.

Sidney: E você é uma música que me passa aos olhos, lembrando que lá fora há outros modos de existência, para além do muro.
Alessandra: Você tem mais para elogios.

Silêncio.

Alessandra: Puta merda!

Sidney ri.

Sidney: Pois, porque ela é puta? Não pode ser santa? Não entendo mais nada...
Alessandra: Os palavrões fazem parte da minha existência! É meu..., acho que aquele foi o primeiro que eu falei!
Sidney: Hoje foi. Ou melhor..., pelo menos o primeiro nesta conversa. Não sei se os tens falado durante o resto do dia.
Alessandra: Assim você me instiga!
Sidney: Posso dizer que estou aqui para isso. Para instigar as pessoas a serem o que são. Mas nem todos aceitam jogar esses joguinhos.
Alessandra: E eu, como uma pessoas cheia de vícios, aceito todos os joguinhos!

Mais um riso geral.

Alessandra: E principalmente quando se fala em vaidades do ego. Puta merda! O que você está querendo saber?
Sidney: Eu? Nada. O que sei é o que me dão a chave para descobrir.
Alessandra: Mas tem como atravessar uma porta sem a chave!
Sidney: Tem. A porta se atravessa. Eu é que não gosto de arrebentar as coisas. Sou um tipo de ladrão que não gosta de deixar evidente que esteve roubando.
Alessandra: Mas é um ladrão, e como manda o costume, é mau e deve ser condenado!
Sidney: O costume não importa aos ladrões. Importa-lhes, pelo menos aos ladrões do meu tipo, que a coisa roubada leve o outro ao pensamento, seja de si mesmo, seja dos outros, seja do transcendente ou seja do nada.
Alessandra: Roubo é roubo! Se vc praticar coisas positivas com seu roubo, parabéns! Mas ele continuará sendo um roubo!
Sidney: Sim, isso é.
Alessandra: Vou ter que sair
Sidney: Sim. Mas quero perguntar uma coisa.
Alessandra: Tenho que acabar minhas obras!

Alessandra ri.

Alessandra: Sim.
Sidney: Hum, quererei vê-las um dia. Apreciá-las.
Alessandra: Tudo bem.
Sidney: Que acha de nos encontrarmos uma hora dessas para papear?
Alessandra: Acho uma boa idéia. Estou para sair do meu trabalho e, quando sair, te procuro.
Sidney: Certo.
Alessandra: Então, fica bem, estuda, roube os melhores e os piores pensamentos.
Sidney: Você também, salve-se da falta de boas conversas.

Ela demonstra mais uma vez ser uma pessoa de sorriso fácil.

Sidney: E invista no existencialismo, para o bem ou o mal.
Alessandra: Você não é do tipo que dá conselhos ortodoxos!

Risos e despedidas.

domingo, 14 de março de 2010

Os poetas e suas imagens

Entrevista breve com Fernando Pessoa

O caminho pelas ruas que levam da praça do comércio ao bairro do Chiado mostram uma Lisboa diferente daquela que esperava encontrar. Não é bom criar expectativas, ainda mais quando se é enviado a cobrir um simpósio de biotecnologia. O ideal é ir desarmado. E assim estava até encontrar um jovem músico empunhando uma guitarra portuguesa e tocando uma música chamada Em memória de uma camponesa assassinada.

Aquilo era triste sob o céu azul turvo e opaco que é o de Lisboa em tempos de inverno. Quando terminou de tocar e de quase me levar às lágrimas da raiva, Carlos Paredes – era esse o seu nome – disse que seus amigos estavam me esperando naquela manhã fria de 9 de dezembro. Achava estranho que fosse esperado. Não fui avisado de que alguém me receberia. Achei que fosse alguma espécie de chiste ou que fosse um desses miúdos que aguardam um momento propício para gamar a carteira aos estrangeiros. Mas não, logo vi que não, pois não era o país da União Europeia que me esperava. Era uma terra que não conhecia a ditadura arrastada de Salazar, nem a teoria social de Boaventura Santos.

Era um outro tempo, quando os boticários traziam torquesas na mão, oferecendo o serviço do que chamaríamos hoje de dentista, à frente de portas minúsculas e também os ambulantes com seus bigodes levemente torcidos para cima oferecendo apólices aos comerciantes e profissionais liberais que então circulavam. Era a rua do Arsenal por onde Paredes me levava, com seus inúmeros negócios a algaraviar a vida naquela parte da cidade. Mas não era ali que me esperavam. Paredes tinha de me levar além.

Dobramos a esquina só no cais Sodré, e subimos a leve ladeira do Alecrim, com o conjunto de construções mescladas e quase sem distinção umas das outras. Fizemos uma pequena parada para conhecer a igreja do Loreto e seguimos pela rua Garrett. A rua mudara de nome recentemente, em uma homenagem que a Câmara Municipal tinha feito à família do poeta João Batista da Silva Leitão Almeida Garrett, dona de pensões na freguesia do Sacramento, de onde nasceu Lisboa. Faltava ainda alguns metros e minha surpresa foi enorme, pois em frente ao café A Brasileira, reconheci de imediato a figura magra do poeta alfacinha, que criou-se em Durban, na África do Sul, e voltou para criar a nova face lusitana. Era justamente ele, Fernando Pessoa, que estava me esperando.

Estava só e quando eu e Paredes sentamos em sua mesa. Seus olhos arregalados atrás do óculos nos viram e tornaram a pousar sobre um artigo seu publicado na revista A Águia. Esperou até que Paredes me acalmasse com um pedido ao garçom para que nos trouxesse duas bicas pingadas. Não aceitei. Preferia um galão, que rende mais.

E após algumas primeiras palavras, animando-se a conversa e passando o poeta de taciturno a expansivo, travou-se a seguinte conversa:

AZEVEDO: E sobre a música, Pessoa, que tens a me dizer?

PESSOA: Não tenho a dizer, jovem, mas a gritar! A cultura me deu esta certeza de raiva contida, porque o fazer é tão rápido, tão pretenso, que tenho saudades do tempo de infante. Do tempo que não é tempo que a música faz renascer!

PAREDES: Se permitem que me intrometa, acho que essa impressão de renascer o infante só se consegue pelas cordas da guitarra portuguesa.

PESSOA: Sim, mas tu invertestes a lógica. A guitarra fala só de amor. Com a tua música é que pude viver, outra vez, o miúdo cabisbaixo que, por tristeza, também sou hoje, mas não plenamente.

PAREDES: Sim, não admito que só se fale de amor num instrumento de tanto contraste.

AZEVEDO: A propósito, não credes que esse contraste está há muito na alma portuguesa?

PAREDES: Sim, porque o português perde-se entre o indivíduo e o Estado.

PESSOA: Não senhora, ele se perde entre si e entre seus eus. E entre eles o eu da infância que se conflita com o eu presente que gente como tu consegue reviver na música. A música é uma maldição a que acedemos correndo a que façam a nós. Para-nos e nos força a pensar nesse eu múltiplo que é tudo o que somos e não é condenso e pleno.

AZEVEDO: E sobre a felicidade?

PESSOA: Felicidade só há quando não somos impingidos por uma certeza de ser algo. É, como digo, só na infância, desobrigados, no lúdico, de ser alguém.

PAREDES: E pá! Tens razão!

Terminamos a conversa só depois que a chuva começou a cair e tivemos de nos abrigar no interior do café. Ainda é inexplicável para mim, que, voltando ao Rio de Janeiro, não tenha encontrado Lima Barreto...

Sidney Azevedo
Transposições inexplicáveis
(Uma tentativa de tornar agradável a obrigação escolar)

sábado, 13 de março de 2010

Infantes

Geracional

Certa vez conheci um sujeito que era avesso ao tema da infância. Não que fosse a sua infância uma infância ruim. Ele brincou, galhofou e folgou de uma forma que poria inveja em Pinóquio, caso este existisse fora dos livros. Deu aos pais algum trabalho e aos avós muita alegria. Mas sua hostilidade ao tema da infância era de outra ordem. Era um problema geracional. É que não conseguia enxergar, nas crianças de hoje, a existência de crianças.

- Mas o que é uma criança para ti?
- Deves pensar que falo dos pequenos em si, os Joãozinhos e Mariazinhas empíricos que hão a brincar nas frentes das portas. Mas na verdade me refiro ao fim da essência de ser miúdo.

Seguiu-se um silêncio em que meus olhos fitavam severos, intimando-o a se explicar, pois até ali aquilo não me fazia sentido algum. Depois de remoer a expressão e os pensamentos, dirigiu-se destarte a mim:

- Olhe, a criança é um ser que não se dá conta de si mesmo. Não existe claramente um "eu" para ela.
- Então sugeres, se bem entendo, que os pequenos estão se entendendo como indivíduos, e cada vez mais cedo?
- Exato. É com gente igualmente adulta em controle com que se lida.
- Controle?
- Sim, esses indivíduos que ainda são chamados de crianças já são livres. Têm consciência de controle, de limite, tanto de si como dos outros. São conscientes de sua individualidade e solidão ante os outros também isolados em suas cercas individualizantes. O controle é a única espécie de certeza que tem um indivíduo sobre outro indivíduo, e é uma certeza que o indivíduo não tem sobre si mesmo. Em suma, meu caro, tenho saudades daquela criança que não sabia que existia. - - Simplesmente existia. Era isso que eu era e que já não há.

Ainda achava estranha aquela concepção. Pois crianças são crianças. E foi só hoje que mudei de idéia, passando a compartilhar a certeza desse meu amigo. É que perto do meio-dia, sentado no ônibus que me faz voltar para casa, vejo uma mãe e uma filha que chegam algo antes do motorista partir. A mãe deixa a filha no ônibus e lhe vai comprar algo.
A ordem da mãe era que a menina não saísse do lugar. Mas, irrequieta, ela olha à porta, e resmunga algo como:

- Sim, ela foi ao lugar certo! Pensei que não tivesse ido.

A criança é já um eu contra a mãe e o movimento.

Sidney Azevedo
Não-infante
(Em frente).

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Vista breve

Da letra morta nasce um verme vivo, o vermelho volúvel do casaco do velho a segurar um castiçal que brande ante a falta de luz do fogo que ondeia a vila vazia.

Sidney Azevedo
Um momento.
(Lumne)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O mal-estar do escolhido

Conjunto vazio

Isto aqui deve estar carcomido de poeira. Há muitos meses não passo por aqui... Espero não me demorar muito, pois nunca tive certeza se sou ou não alérgico à poeira. E espero que, se for alérgico, meu corpo aguente até terminar de escrever o que escreverei aqui.

Nunca imaginei que uma escolha errada pudesse me atrasar tanto. E pelo visto, vai me fazer regressar. O maior erro que cometi em minha vida foi iniciar a faculdade de jornalismo. Não, minto... O meu maior erro foi não ter saído dela já no primeiro ano. Deixei as coisas acontecerem certo de que as coisas aconteceriam sempre para melhor e que, todavia, um curso superior sempre é uma vantagem...
Todavia, é, desde que não seja Comunicação Social nas mãos de alguém cuja maior parte da vida tratou de ser antissocial.
Eu permaneço sendo aquele-que-viria-a-ser, o superdotado, aquele com quem não era necessário preocupar-se porque os caminhos se abririam a ele sem esforço. Mas vejo que o tempo das nobrezas e dos escolhidos só existem nas folhas dos livros de história e nas lendas de tribos anciãs. E não me há quem dirima esse maldito erro, porque sou orgulhoso demais para descer ao curso técnico e distante demais para tentar algo nas exatas. Sinceramente, o meu interesse pela comunicação se esvai a cada minuto que passa.
E a minha dor é maior a cada hora ao ver que isso não afeta só a mim, mas a todos os que me estão próximos. Porque me veem definhar. Definhar. A palavra é essa mesma, há uma âncora no fundeadouro que impede que minha nau siga. E ela está atada à nave por uma corda de aço num momento em que não tenho facas com fio o bastante para cortá-la nem força para desfazer o nó.
Queria poder saber o que fazer nessa hora tão perdida. Desses tempos de não ter vontade, dos quais já me devia ter livrado. Tudo por ser teimoso. Podia ter largado o compromisso na hora em que havia lucrado algo com ele e partir para outra, mas eu nunca tive vontade de ferir o meu orgulho de que tinha capacidade para fazer qualquer coisa.
Não definho por gosto. Antes por falta de vontade vontade de mudar. E logo eu que a tantos já mostrei outros caminhos! Por que eu não me posso salvar?
Maldito momento.

Sidney Azevedo
Vazio
(Zero)