domingo, 14 de março de 2010

Os poetas e suas imagens

Entrevista breve com Fernando Pessoa

O caminho pelas ruas que levam da praça do comércio ao bairro do Chiado mostram uma Lisboa diferente daquela que esperava encontrar. Não é bom criar expectativas, ainda mais quando se é enviado a cobrir um simpósio de biotecnologia. O ideal é ir desarmado. E assim estava até encontrar um jovem músico empunhando uma guitarra portuguesa e tocando uma música chamada Em memória de uma camponesa assassinada.

Aquilo era triste sob o céu azul turvo e opaco que é o de Lisboa em tempos de inverno. Quando terminou de tocar e de quase me levar às lágrimas da raiva, Carlos Paredes – era esse o seu nome – disse que seus amigos estavam me esperando naquela manhã fria de 9 de dezembro. Achava estranho que fosse esperado. Não fui avisado de que alguém me receberia. Achei que fosse alguma espécie de chiste ou que fosse um desses miúdos que aguardam um momento propício para gamar a carteira aos estrangeiros. Mas não, logo vi que não, pois não era o país da União Europeia que me esperava. Era uma terra que não conhecia a ditadura arrastada de Salazar, nem a teoria social de Boaventura Santos.

Era um outro tempo, quando os boticários traziam torquesas na mão, oferecendo o serviço do que chamaríamos hoje de dentista, à frente de portas minúsculas e também os ambulantes com seus bigodes levemente torcidos para cima oferecendo apólices aos comerciantes e profissionais liberais que então circulavam. Era a rua do Arsenal por onde Paredes me levava, com seus inúmeros negócios a algaraviar a vida naquela parte da cidade. Mas não era ali que me esperavam. Paredes tinha de me levar além.

Dobramos a esquina só no cais Sodré, e subimos a leve ladeira do Alecrim, com o conjunto de construções mescladas e quase sem distinção umas das outras. Fizemos uma pequena parada para conhecer a igreja do Loreto e seguimos pela rua Garrett. A rua mudara de nome recentemente, em uma homenagem que a Câmara Municipal tinha feito à família do poeta João Batista da Silva Leitão Almeida Garrett, dona de pensões na freguesia do Sacramento, de onde nasceu Lisboa. Faltava ainda alguns metros e minha surpresa foi enorme, pois em frente ao café A Brasileira, reconheci de imediato a figura magra do poeta alfacinha, que criou-se em Durban, na África do Sul, e voltou para criar a nova face lusitana. Era justamente ele, Fernando Pessoa, que estava me esperando.

Estava só e quando eu e Paredes sentamos em sua mesa. Seus olhos arregalados atrás do óculos nos viram e tornaram a pousar sobre um artigo seu publicado na revista A Águia. Esperou até que Paredes me acalmasse com um pedido ao garçom para que nos trouxesse duas bicas pingadas. Não aceitei. Preferia um galão, que rende mais.

E após algumas primeiras palavras, animando-se a conversa e passando o poeta de taciturno a expansivo, travou-se a seguinte conversa:

AZEVEDO: E sobre a música, Pessoa, que tens a me dizer?

PESSOA: Não tenho a dizer, jovem, mas a gritar! A cultura me deu esta certeza de raiva contida, porque o fazer é tão rápido, tão pretenso, que tenho saudades do tempo de infante. Do tempo que não é tempo que a música faz renascer!

PAREDES: Se permitem que me intrometa, acho que essa impressão de renascer o infante só se consegue pelas cordas da guitarra portuguesa.

PESSOA: Sim, mas tu invertestes a lógica. A guitarra fala só de amor. Com a tua música é que pude viver, outra vez, o miúdo cabisbaixo que, por tristeza, também sou hoje, mas não plenamente.

PAREDES: Sim, não admito que só se fale de amor num instrumento de tanto contraste.

AZEVEDO: A propósito, não credes que esse contraste está há muito na alma portuguesa?

PAREDES: Sim, porque o português perde-se entre o indivíduo e o Estado.

PESSOA: Não senhora, ele se perde entre si e entre seus eus. E entre eles o eu da infância que se conflita com o eu presente que gente como tu consegue reviver na música. A música é uma maldição a que acedemos correndo a que façam a nós. Para-nos e nos força a pensar nesse eu múltiplo que é tudo o que somos e não é condenso e pleno.

AZEVEDO: E sobre a felicidade?

PESSOA: Felicidade só há quando não somos impingidos por uma certeza de ser algo. É, como digo, só na infância, desobrigados, no lúdico, de ser alguém.

PAREDES: E pá! Tens razão!

Terminamos a conversa só depois que a chuva começou a cair e tivemos de nos abrigar no interior do café. Ainda é inexplicável para mim, que, voltando ao Rio de Janeiro, não tenha encontrado Lima Barreto...

Sidney Azevedo
Transposições inexplicáveis
(Uma tentativa de tornar agradável a obrigação escolar)

sábado, 13 de março de 2010

Infantes

Geracional

Certa vez conheci um sujeito que era avesso ao tema da infância. Não que fosse a sua infância uma infância ruim. Ele brincou, galhofou e folgou de uma forma que poria inveja em Pinóquio, caso este existisse fora dos livros. Deu aos pais algum trabalho e aos avós muita alegria. Mas sua hostilidade ao tema da infância era de outra ordem. Era um problema geracional. É que não conseguia enxergar, nas crianças de hoje, a existência de crianças.

- Mas o que é uma criança para ti?
- Deves pensar que falo dos pequenos em si, os Joãozinhos e Mariazinhas empíricos que hão a brincar nas frentes das portas. Mas na verdade me refiro ao fim da essência de ser miúdo.

Seguiu-se um silêncio em que meus olhos fitavam severos, intimando-o a se explicar, pois até ali aquilo não me fazia sentido algum. Depois de remoer a expressão e os pensamentos, dirigiu-se destarte a mim:

- Olhe, a criança é um ser que não se dá conta de si mesmo. Não existe claramente um "eu" para ela.
- Então sugeres, se bem entendo, que os pequenos estão se entendendo como indivíduos, e cada vez mais cedo?
- Exato. É com gente igualmente adulta em controle com que se lida.
- Controle?
- Sim, esses indivíduos que ainda são chamados de crianças já são livres. Têm consciência de controle, de limite, tanto de si como dos outros. São conscientes de sua individualidade e solidão ante os outros também isolados em suas cercas individualizantes. O controle é a única espécie de certeza que tem um indivíduo sobre outro indivíduo, e é uma certeza que o indivíduo não tem sobre si mesmo. Em suma, meu caro, tenho saudades daquela criança que não sabia que existia. - - Simplesmente existia. Era isso que eu era e que já não há.

Ainda achava estranha aquela concepção. Pois crianças são crianças. E foi só hoje que mudei de idéia, passando a compartilhar a certeza desse meu amigo. É que perto do meio-dia, sentado no ônibus que me faz voltar para casa, vejo uma mãe e uma filha que chegam algo antes do motorista partir. A mãe deixa a filha no ônibus e lhe vai comprar algo.
A ordem da mãe era que a menina não saísse do lugar. Mas, irrequieta, ela olha à porta, e resmunga algo como:

- Sim, ela foi ao lugar certo! Pensei que não tivesse ido.

A criança é já um eu contra a mãe e o movimento.

Sidney Azevedo
Não-infante
(Em frente).