quarta-feira, 28 de abril de 2010

Modernismo e modernidade

Insuficiente, todavia, bastante

Modo. Moderno. Hodierno. A adoração do moderno tem a ver com um estado de consciência que se refere a si mesmo. Não existe, para um modernista, o tempo. Existe a apropriação da experiência do tempo numa consciência de movimento. Isso determina, quando ele pensa em um tempo, o tempo atual como um destempo, uma afronta ao tempo anterior, que é o passado, as coisas velhas que ele diz não ter nada a ver com ele. O modernismo se define pela negativa ciente (porque, por mais que pareça impossível, há negativas inscientes). Já uma modernidade é uma reflexão desse modernismo. É o estágio de pensamento sobre o alcance das afrontas modernistas e das novas experiências que surgem dessa interpretação das coisas.

Sidney Azevedo
É preciso ser moderno e modernista.
Mas como?

Entreato I

Creio que nunca publiquei uma entrevista no Antítudo. E esta também não será a primeira vez. É que não se trata de uma entrevista, mas de uma conversa, devidamente consentida, de uma moça intrigante. Ela tem 19 anos e já iniciou três cursos de graduação, mas não chegou ao segundo ano de nenhum; são Biologia Marinha, Jornalismo e Artes Visuais - onde se encontra agora. Atua como atriz no grupo de teatro da Univille, e se autodenomina, por vezes, como uma pessoa lesada. É atéia convicta e sinceramente não sei com o que trabalha. Gosta de conversas sobre o ego, sobre o ser e sobre... Bem, veja na "entrevista":

Sidney: E aí, como vai de artes visuais?
Alessandra: Bem, mais ou menos.

Os dois riem.

Alessandra: As pessoas são doidas mas não costumam ler. Nem pensar.
Sidney: Sério?
Alessandra: Aí isso me irrita muito, muito, muito mesmo!
Sidney: Não sei como me movimentaria num espaço onde não houvesse gente que pensa.

Mais uma vez os dois riem.

Alessandra: Você acaba com tudo! Fala sério!
Sidney: Pois. Por falar nisso, que estás a ler agora?
Alessandra: A Náusea.
Sidney: Sartre?
Alessandra: Isso.
Sidney: Cara, esse livro é ótimo.
Alessandra: Sim, é bem massa.
Sidney: É o existencialismo de O Ser e o Nada posto, digamos... em prática. O Ser e o Nada, aliás, outro livro excelente.
Alessandra: Esse livro é bem para entender que não somos nada no mundo, por mais que tentemos..., e daí?
Sidney: O peso da nossa existência é nulo, existimos por "existir". Quando nos damos conta disso, o chão some, as linhas claras das coisas se desfazem e a existência é plena e una, mas não somos nada, esmagados sob essa realidade vazia.
Alessandra: E que se preenche através de uma criação de deuses, fantasias, amores.
Sidney: Creio que os deuses, os amores, as amoras e as fantasias têm mais relação com o momento em que estamos seguros da inexistência de nós como um ente. Quero dizer, existindo como uma pessoa determinada, com qualidades e preceitos definidos, "reconhecível" por si e pelos outros. Quando esse "chão" some, ante o relativismo existencialista, toda idéia perde sentido. Inclusive essas idealizações, como os deuses. Os deuses são a última fronteira, o último muro que impede essa plena experiência da existência.
Alessandra: Mas são poucos que chegam a última fronteira. E, são os sábios, os tolos ou os loucos?
Sidney: Sinceramente, não sei.
Alessandra: E eu gostaria muito da resposta!
Sidney: Acho que são-nos os três ao mesmo tempo.
Alessandra: Talvez
Sidney: Teria que conhecer alguém assim. Eu ainda não atravessei essa última fronteira.
Alessandra: Eu já!
Sidney: Tenho certeza que andei dando batidas no muro, e com violência, mas não foram suficientes.
Alessandra: E pode ter certeza que pesa, mas não vejo como voltar. O que pode ser mais deprimente. Tentar voltar, mas não conseguir!
Sidney: O deprimente, creio, está em não saber que as fronteiras das definições são estanques e tratá-las assim, como se fosse a única alternativa. Pois... Então, como te vês? Louca, sábia ou tola?
Alessandra: Uma pessoas vazia e insensível. Que a única sensibilidade que tem utiliza para manipular as pessoas os momentos. Isso cheira a tola.
Sidney: Manipular? Não sabia desse seu lado malvado...
Alessandra: Não faz muito tempo que descobri. E o pior é que eu fazia sem me dar conta!
Sidney: Curioso. Acho que também faço algumas coisas sem me dar conta.
Alessandra: Que bom, assim não me sinto sozinha nas minhas tolices!

Ainda outra vez os dois se riem.

Sidney: E como foi que descobriu que manipulava as pessoas?
Alessandra: Quando percebi como meu olhar podia falar, como algumas entonações mudavam todo um curso de uma discussão... E depois é só se aproveitar do fato que as pessoas são mais frágeis quando estão em grupo, talvez por medo de não ser bem aceitas, sei lá.
Sidney: Pode ser. Foi exatamente num grupo que fiquei sabendo que os outros achavam que eu passava por uma "síndrome de pavão".
Alessandra: Como?
Sidney: É como se diz entre a arraia-miúda, que eu sou uma espécie de sujeito que tende a querer aparecer.
Alessandra: (rindo) não acho isso de ti, mas eu sou um caso a parte.
Sidney: Mas é uma coisa que pensam sobre mim. Não fui eu que descobri isso em mim mesmo, como parece ter acontecido contigo.
Alessandra: Eu não tinha pensado nisso, mas as coisas que eu sei de mim costumo descobrir sozinha. A maior parte das pessoas me considera uma louca insegura.
Sidney: Pois é. Você consegue imergir em si mesma. Eu não tenho essa capacidade. Tenho capacidade de imergir no que pensam os outros e daí passar a tecer considerações sobre o mundo à minha volta. Você disse louca insegura?
Alessandra: Uma vez eu cheguei a acreditar nessa insegurança. Mas não me vejo nem um pouco insegura.
Sidney: Também não enxergo isso em você. Sabe como certa vez um amigo me definiu?
Alessandra: como?
Sidney: Um negativista inseguro.

Alessandra se ri largamente.

Sidney: É contraditório. Como um negativista pode ser inseguro? Me explica, por favor.
Alessandra: Muito! É contraditório mas nem tanto, você tende a profundeza, mas deseja voar!
Sidney: Compreendo. (Acho que compreendo...).
Alessandra: Você não sabe como essa conversa me fez bem! Ou mal..., porque talvez eu chore a noite inteira. mas fazia tempo que eu não conversava sobre o que eu gosto, com pessoas que têm algo na cabeça. Obrigada!
Sidney: De nada, Ale. Mas agora sou eu quem vai dormir com remorso... Não sabia que poderia te levar ao choro. (Na verdade, não sei em que posso ter provocado isso). Mas Também me fazia falta uma conversa assim. Ultimamente só tenho conversado sobre coisas técnicas de jornalismo e de teorias gerais da comunicação...
Alessandra: Não se sinta culpado, se não fosse você seria um livro que faria esse papel
Sidney: É a primeira vez que estou posto ao lado de um livro.

Mais risos, de ambos.

Alessandra: Isso pode ser considerado um elogio!

Ela se ri.

Sidney: Vejo desta forma sim.

É a vez dele rir.

Sidney: E você é uma música que me passa aos olhos, lembrando que lá fora há outros modos de existência, para além do muro.
Alessandra: Você tem mais para elogios.

Silêncio.

Alessandra: Puta merda!

Sidney ri.

Sidney: Pois, porque ela é puta? Não pode ser santa? Não entendo mais nada...
Alessandra: Os palavrões fazem parte da minha existência! É meu..., acho que aquele foi o primeiro que eu falei!
Sidney: Hoje foi. Ou melhor..., pelo menos o primeiro nesta conversa. Não sei se os tens falado durante o resto do dia.
Alessandra: Assim você me instiga!
Sidney: Posso dizer que estou aqui para isso. Para instigar as pessoas a serem o que são. Mas nem todos aceitam jogar esses joguinhos.
Alessandra: E eu, como uma pessoas cheia de vícios, aceito todos os joguinhos!

Mais um riso geral.

Alessandra: E principalmente quando se fala em vaidades do ego. Puta merda! O que você está querendo saber?
Sidney: Eu? Nada. O que sei é o que me dão a chave para descobrir.
Alessandra: Mas tem como atravessar uma porta sem a chave!
Sidney: Tem. A porta se atravessa. Eu é que não gosto de arrebentar as coisas. Sou um tipo de ladrão que não gosta de deixar evidente que esteve roubando.
Alessandra: Mas é um ladrão, e como manda o costume, é mau e deve ser condenado!
Sidney: O costume não importa aos ladrões. Importa-lhes, pelo menos aos ladrões do meu tipo, que a coisa roubada leve o outro ao pensamento, seja de si mesmo, seja dos outros, seja do transcendente ou seja do nada.
Alessandra: Roubo é roubo! Se vc praticar coisas positivas com seu roubo, parabéns! Mas ele continuará sendo um roubo!
Sidney: Sim, isso é.
Alessandra: Vou ter que sair
Sidney: Sim. Mas quero perguntar uma coisa.
Alessandra: Tenho que acabar minhas obras!

Alessandra ri.

Alessandra: Sim.
Sidney: Hum, quererei vê-las um dia. Apreciá-las.
Alessandra: Tudo bem.
Sidney: Que acha de nos encontrarmos uma hora dessas para papear?
Alessandra: Acho uma boa idéia. Estou para sair do meu trabalho e, quando sair, te procuro.
Sidney: Certo.
Alessandra: Então, fica bem, estuda, roube os melhores e os piores pensamentos.
Sidney: Você também, salve-se da falta de boas conversas.

Ela demonstra mais uma vez ser uma pessoa de sorriso fácil.

Sidney: E invista no existencialismo, para o bem ou o mal.
Alessandra: Você não é do tipo que dá conselhos ortodoxos!

Risos e despedidas.