terça-feira, 25 de maio de 2010

Pequenas ausências

Velho perde passo no espaço público

Aquele velho parado, pousado acima do piso do ônibus, viajava. Sim, viajava tão-somente. Por uns instantes as coisas passavam pelos seus olhos sem receber reconhecimento. Voltava a ser bebê, mas um bebê que sabe não poder reconhecer o ambiente onde está. Mas que sabe estar em algum lugar. Tal neném, se for neném mesmo, não sabe. Simplesmente está. E não quer, por meio de uma série de misteriosas interconexões cerebrais, chegar à conclusão de que está numa grande lata pintada de amarelo capaz de carregar até 72 pessoas e, resignado, ceder a essa verdade. Esse pequeno tem por interesse-mor o reconhecimento do imediato, das coisas pontuais que aos seus famintos olhos abertos se oferecem como algo desprovido de conexão com o resto do mundo. É preciso, pois, provar, testar aquilo, mas sem pretensões. O pequeno vai querer pegar, morder e cheirar o balaústre da porta – é verdade, o transporte coletivo de Joinville nem mais isso tem –, mas não há meio de querer saber se está num zarco, nem que linha faz, nem quais são as ruas e bairros por onde passa ou as leis que dão o alvará à verdureira em frente à qual passa o ônibus. E muito menos possibilidade de querer entender a política de uma concessão não-renovada que custa, diariamente, 30% do salário de sua mãe, cortando-lhe a possibilidade de passar o dia com a avó em casa porque a conta atrasada de telefone, do mês anterior, impossibilita a mãe de ligar para pedir o favor.

(Só um parêntese: a mãe, à janela, por incrível que pareça ao mundo moderno e industrializado desta cidade cinza, não possui um celular. Ela mesma disse, tentando acalmar a cria, a uma mulher, sua conhecida, no interior do veículo. Esta estava sentada, sem ser obstáculo aos olhos perscrutadores do velho, por sua vez a meu lado, enquanto eu ia de frente para a porta.)

Voltemos, pois, ao idoso. Só percebi sua presença quando, no alto dos 72 anos, em pé e firme ao segurar o encosto do banco da amiga da mãe daquele bebê chorão, pergunta-me se é, aquela, a rua São Paulo. Digo-lhe que sim, que é a rua São Paulo. Agradece-me e explica que perdeu, brevemente, a consciência de onde estava. Duas ou três vezes mais quis fixar-me a razão de sua pergunta. Creio que queria se assegurar da minha compreensão. O idoso tem duas ou três vezes mais necessidade de se assegurar das coisas, ainda mais se já teve da falta de memória alguma surpresa desagradável.

Perguntei-lhe aonde ia descer. Ele ia descer “no ponto da Cipla”, mas não disse exatamente em que lugar. Não importa. No chão, livre da obrigação de conhecer os espaços, basta andar.

Sidney Azevedo
Jovem andarilho
Colecionador de miudezas