segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Primeira incursão pela noite da história

Um momento em 1830


Não sei se há pior que descobrir-se descendente de donos de escravos. Tinha já uma vaga certeza, mas que não era certeza por falta de prova documental. Antes dela, tudo levava para um plano dos princípios puros e simples em que todos os homens são iguais e a existência de latifundiários não passasse de uma possibilidade distante e inconsistente do desenvolvimento humano.

Acontece que não há muitos dias, descobri uma carta de meu trisavô encolhida e esperando ser aberta em um dos velhos álbuns de fotos da família. Eu apenas sabia que Vicente Antonio Aguiar Caetano Rosa sabia ler e escrever e que isto representava uma das maiores formas de poder da época. Não sei por qual motivo, mas pensava que fosse algum advogado aposentado saído dos centros urbanos de São Vicente e São Sebastião do Rio de Janeiro. Mas não era. Era um latifundiário produtor de milho, arroz e café.

Na carta, ele explicava à "muy estimmada irman que se iria encontrar com o tabelliam em alguns dias para o accerto do vallor da transação de vinte escravos de bons dentes para a colleta dos grães de algodam". Talvez fosse um projeto novo que, porventura, estivesse dando certo. Na mesma carta, ele pedia o apoio dessa irmã que morava em Parati, no Rio de Janeiro, "o appoyo para a venda ao marques" Que marques ou marquês é esse não faço ideia, mas em 1830, além do português estranho, descobri esses traços de vida.

Mas há no passado esse quê de surpreendente. E, quiçá, seja isso o pior. O passado é duro por sua inflexibidade. Pode-se dar como certo que algo ocorreu, mas será correto falar dele em termos de verdade? Eu não sei mais. Tenho lido heresias demais contra o conceito de veritas e percebo que, se conseguiram tirar da verdade seu caráter perene, também puseram o homem em uma grave insegurança de si mesmo.

Na Idade Média a verdade era a própria vida como era vivida. Era o que se percebia - veritas est adaequatio rei ad intellectus, (verdade é a adequação do objeto à inteligência). Não havia nada além disso, porque a verdade de tudo estava com o homem, revelada por Deus. O homem médio feudal não conhecia o possível. Ou talvez não conhecesse a possibilidade de expandir o objeto que se adequa à inteligência. Se assim não fosse, conheceria a verdade pessoalmente, como os homens de tempo nenhum talvez tenham conhecido. Mas é desonestidade muita pretender pensar o que gente de muito tempo atrás pensou.

Os meus antepassados eram sujeitos feudais. Se médios, isso não tenho idéia, mas fazendeiros donos de extensas propriedades nas regiões que hoje compreendem os municípios de Araquari, Balneário Barra do Sul, São João do Itaperiu, Massaranduba e Barra Velha. É certo que durante muito tempo foram representados na figura de reis e rainhas nas festas negras do Divino, que continuam até hoje, mas sem tal ligação, porque meus antepassados perderam seu poder há cinco gerações.

Todavia, tinham desprezo pelo possível. Meu tataravô descobriu que existia a possibilidade quando morreu sua esposa de uma doença contagiosa que vitimou muitos moradores na época. Desesperado, só lhe ficou a espera pela morte, que não demorou muito. A nós restou a lenta e progressiva corrosão dos bens familiares até o ponto em que apenas um punhado de jóais do segundo reinado e as velhas cartas de meu trisavô. Jack London chama insistentemente tal processo, em O povo do abismo, de "fatalidade", pois os pobres de Londres só iam parar no East End devido aos azares de partir o osso de uma perna, de adoecer gravemente, de separações, ou de instabilidades emocionais.

Mas a possibilidade de retorno, há-a também. Voltando à questão da verdade, penso que não é que ela não exista, é que quem toma seu lugar é a surpresa. A surpresa tem seu instante de real vívido, e depois cai em uma realidade morna, quando deixa de ser surpresa. Me parece que o desenvolvimento moderno tem muito disso. E o acompanha também minha ancestralidade.

Em um ensaio Henri Lefebvre disse que o moderno se constitui de uma referência constante ao presente. Não existe o "sempre" e o "nunca", mas o agora, o ontem e o amanhã. Neste terreno o ideal humanista do século XIV foi de suma importância. Deus e as coisas celestes não foram negadas, simplesmente se entendia que também para elas havia um momento. Tal momento se designou por ascese. A verdade, assim, estava fora. E para chegar a ela, era preciso conhecer, só o conhecimento poderia levar à verdade.

É difícil dizer se o homem circulariza sua existência ou se consegue retilineamente caminhar. De algum modo, há um pouco dos dois: por um lado, o ser humano está limitado ao universo quando se pensa em probabilidades teóricas, mas quando se descobre sozinho num mundo que lhe põe o ser em uma planificação, em um espaço com um "acima" e um "abaixo". Quando há algo de sólido e certo abaixo de si, a história parece querer dizer-nos que, pelo menos até agora, temos duas posturas.

Basta, ainda, abrir os olhos na hora de dormir e ver que há, tão-só, escuridão, medo e tortura à frente do olhar para um céu vazio chamado História.


Sidney Azevedo
É ser escravo de si mesmo a pior escravidão?
(Ou ser um escravo da má interpretação?)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Isto não é, ainda, literário

Ser notívago

Já não me resta muito tempo para escrever. Não, nada de muito grave está acontecendo. Simplesmete é isto: não sei quando o sono me virá colher esta noite. Por alguma razão eu me tornei notívago, e sem, em absoluto, querer. Não que haja, por sua vez, algum problema em ser notívago. O problema é que eu dei à palavra uma denotação que me decepciona. E há pior: Não foi uma simples atribuição de significado - a qual se poderia eliminar sem dificuldade com um pouco de raciocínio -, foi algo mais intrínseco, algo mais prático. Sim, a ênfase aqui é para a ação (dito melhor, para a ausência dela).
Antes, eu entendia um notívago como alguém em um estado de espírito elevado e que encontrava na solidão e no silêncio da noite o barulho e a presença de suas ideias. É uma noção errônea e aprendi isso da pior forma que se o pode fazer. Aprendi esperando encontrar no canto da sala - exatamente como se faz quando se procura um pano encardido, uma peça perdida de um jogo de xadrez, uma lata de cerveja vazia ou uma coisa que, por ironia da lógica peculiar dos acontecimentos, não se está a procura - uma parte da minha criação pronta e esquecida em algum canto remoto da memória e que fosse, por esse mesmo motivo, capaz de escorrer, como um líquido qualquer, da minha mente para a caneta sobre o papel ou sobre o teclado do computador e que configurasse destarte um texto, poesia ou prosa, música ou diálogo ou fosse o que o que fosse, mas pronto.
Agindo dessa forma não poderia, jamais, encontrar coisa alguma. Seria dar razão à existência desse ente a que chamam dom. E o estava sendo. Mas como é uma angústia que acredito não ser apenas minha, é justo compartilhá-la aqui. Eu sei que prometi, e não há pouco tempo, que faria postagens diárias. Mas já percebi que isso é impraticável. Não que eu tenha muito o que fazer, mas um motivo, isto sim, muito mais vil, o tornava em nada: simplesmente idealizava em demasia a minha produção para o blogue, exatamente quando ele deveria ser um espaço para o devir incerto das palavras, sem a preocupação com uma finalidade que não fosse a simples expressão. Aliás, aquela mesma plavra, "produção", é grande parte do problema. Produção pressupõe não só regras, mas uma forma específica à qual o ser humano, quando se tenta a ela amoldar, descobre-se mais incondicional do que quando se entende em liberdade. A negação do produto, do pronto, é uma parte da libertação da sombra.
É assim que quando se deixa de se ter certa coisa por dada, podemos ter conhecimento. É desse modo, verdadeiramente, que se é notívago naquela forma que eu pensava. Mas a idealização desmesurada tornou minha "notivaguidão" algo sem motivo. O que é preciso, tão-somente, é fazer, senão o notívago será aquele que vagueia, desatinado, pela noite do nada.

Sidney Azevedo
Um problema a menos
(Sim, o primeiro...)