segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Toques superficiais na teoria

De sentir o tempo

Ontem este que vos escreve pensou em refletir no dia seguinte - que seria hoje e efetivamente é... - alguma coisa ligada à questão da sensibilidade. Por que isso? Bem, comecemos com isto do tempo, que talvez tenha saltado aos olhos argutos que leram a anterior e estranha frase. Reside no tempo a nossa fundamental forma de sensibilidade? Nós, modernos de tanto assim nos dizermos? Lembro-me muito de um livro do historiador francês e estudioso da medievalidade Jacques Le Goff, em que ele descreve a sensibilidade medieval como fundada no valor da insegurança.

- Insegurança como valor? Estás doido é?

Não, não é bem como valor... É como uma constante, digamos, sentimental, e, relembrando outra vez - espero não estar a me fazer incômodo com isto - "sentir e pensar é, no fundo, a mesma coisa". É o sentimento de insegurança que levava os medievais a agirem como agiam. Buscando sempre meios de fugirem da instabilidade e da mão incerta do clima que ora fustiga e ora reaviva a certeza da sobrevivência, entre fomes e farturas que criam um eremitismo e uma busca itinerante da vida ameaçada pelo avanço sereno e inevitável da chegada de um céu e de um inferno.
Mas está muito medievalizado este texto quando a intenção inicial era apenas mostrar que há outras fontes de sensibilidade, sempre em desenvolvimento. Mas, a questão central, que faço consciente de não poder responder aqui, em tão exíguo tempo e reflexão, é se não é o tal de tempo nossa matriz de sensibilidade. Vide Kant, é.

- Kant de novo não...

- Mas é preciso, já vais ver:

O filósofo de Königsberg diz que o começo e o motivo de todo o nosso conhecimento, ou pelo menos aquele relacionado às coisas mais simples e imediatas, ainda não abstratas, mas que vão ajudar na construção dos nossos instrumentos racionais, são nossas relações com o espaço e o tempo. Por infelicidade não recordo com precisão quais são as definições desses conceitos. Mas o espaço se relaciona com o lugar, com o estabelecimento de uma certeza referente à forma. Isso não quer dizer que o espaço tenha alguma correspondência na imagem, mas na constituição de corpos que permitem o reconhecimento de distintas entidades. Tempo, todavia, nada mais é que a relação de diversos estados de formas em modificação coerente. Para uma tradução, seria necessário dizer assim:

- É que tens vários negativos que, se colados e passados diante dos olhos, rendem o entendimento de uma seqüência perfeita, como uma película fílmica.

O que nos interessa aqui não é o absurdo dessa proposta espaço-temporal de Kant, que tenta racionalizar ao extremo a existência como numa tentativa desesperada de fazer que o tempo se arraste até uma contemplação eterna. O que interessa é que Kant é o cara do pós-Revolução Francesa e aquele que funda filosoficamente a ciência. É o sujeito moderno. E esse conceito de tempo que ele formula nada mais é do que a relativização das relações. Ou seja, se por um lado, pressupõe-se uma linearidade na construção temporal, por outro entrevê-se que é exatamente o contrário, que as relações entre as coisas podem ser estabelecidas em quaisquer aspectos que constituam sentido. Isto é. O moderno implica a possibilidade de se relativizar o tempo, talvez a única fixa na Idade Média - exatamente por inexistir.
Isso é metarialmente possível porque o burguês cada vez mais deve maximizar sua produção e atender à demanda de um mercado que se expande com a tranformação cada vez maior da moeda física em capital abstrato.
Mas, que é moderno para que se lhe atribua tantas características dialéticas, dignas de um monstro feérico de garras afiadas?
À etimologia: moderno vem de modus em latim, que, fundamentalmente, representa modo, ou como que se faz. A palavra implica, ainda, menção conceitual ao tempo presente. Ou seja, moderno é o feito agora, mas ainda não acabado. Com tudo isso, de fato a característica da modernidade é a instabilidade do tempo que se almeja dissipar com a recrudescente institucionalização das coisas que fazem parte direta da formação das pessoas (Igreja, escola, família, trabalho).
Ou seja, a aparente redução da instabilidade material da medievalidade nos entregou a outra insegurança: a do tempo, da hora, do minuto, do segundo, do instante. O Deus que se propor mestre do tempo, e não um provedor como o foi na I. M., há de ser o que vai reger a religião daqui para a frente, porque será preciso tranqüilizar o homem com o tempo, fonte de sua abstração e realidade.
Talvez me faltem provas concretas para dizer que é o tempo que domina as relações do homem moderno com a existência. Mas fica aí. O sentimento do tempo é a matriz de sensibilidade do moderno.

Sidney Azevedo
Um excerto
(Aguardando pedidos...)

sábado, 18 de setembro de 2010

Em prol de novos modos de pensar

E de sentir, pois, já dizia Fernando Pessoa...

Há dias desses que parecem existir só para que se tenha passado um dia. Imaginai um sujeito que passa por um dia superior a todas as expectativas que vós podeis ter. Se ele não assistiu ao programa de auditório dominical, descobriu que ainda consegue ler, sem dificuldade, em latim, praticou bungee-jumping, inventou um novo alfabeto baseado em runas poveiras da Beira Interior, criou um método para memorizar os conceitos do "mais indecifrável cidadão da sociologia", desenhou, reconstituindo com fidelidade ao sonho da noite anterior, a cria impossível de um triceratops com um megatherium, como seria possível que ainda se sentisse em um dia comum, dos que há por haver?
Haveria nele algo de remorso? Uma raiva que não se sente capaz de expressar do modo devido? Por que se creria tão incapacitado para tudo quando na realidade é talvez a mais indicada pessoa para a criação do mundo novo? O que trai a expansão de tal indivíduo? Seria o fato de ele se fazer só quando mais precisa de gente ao seu redor? Seria sua paixão por não permitir a existência de perguntas por um mero formalismo? Seria a vontade de se reduzir? Como é possível que alguém pense isso? Imaginai, pois, que esse cara não tem outras pretensões para além de sua pequenez. Não é isso algo estranho? Ele se impede de fixar os olhos nas informações que tem ao seu redor para se sentir pequeno na esperança de uma totalidade que consiga dominar precisamente por ser pequena e fácil, mas que vê, cada vez mais, que lhe é impossível fechar a bolha porque há sempre um duto que leva ao exterior.
E ele ainda se nega a ver nesses dutos o que de fato interessa, isto é, a transformação da vontade em ato aberto, continuidade de existência que a leva a um grau mais alto. Isto porque, é na relação, e não no simples produto da relação - quer seja isto o conhecimento, a fé, o amor, a esperança, a verdade ou qualquer outra figura conceitual que prove sua efemeridade à medida que torna um sentimento intenso em uma memória rota da qual nasce a raiva de não o poder reviver (o que, aliás, é classico do espírito gagá...) -, que existe a juventude e a reação e a ação capazes de tornar o mundo uma arena de novas idéias, sensibilidades e mentalidades.
Talvez digam: "mas era aquele cidadão que imaginavas algum velhuço?" Não, pois... Era... Ah, deixa para lá. Há coisas mais importantes para perder tempo com idéias velhas.

Sidney Azevedo
Se precisar explicação
(comente...)

PS: O "indecifrável" é o sociólogo francês Pierre Bourdieu, a sacada é de uma professora de antropologia da minha faculdade.
PS2: Não é tão importante, mas é importante também. O Antítudo não vai mais usar tags precedidas pelo prefixo "anti-", mas etiquetas simples que enunciem temas relacionados diretamente ao texto. Encarem isso como quiserem.