sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Sem importância, sem necessidade, sem motivo

Três correndo

Eu saía da faculdade para o terminal central quando me deparei com uma cena dessas que atrai atenção sem a clamar. Eram três sujeitos correndo. O que há de especial nisso é que não é todo dia que se alguém correndo pelo Centro. Muito menos três pessoas. Todavia, acredito que, para a maioria dos joinvilenses, ver alguém correndo no Centro é tão impactante quanto saber que há uma formiga debaixo do pé. Então, porque escrever sobre isso? Pela formulação de uma sensibilidade maior? Para denunciar a morte da sensibilidade no processo de metropolização ideológica de uma província que não se vê como tal? Nada disso. É que há, no evento, mais algumas coisas interessantes.

A coisa um é que os sujeitos carregavam sacolas plásticas e mochilas e, nestas sacolas e mochilas, objetos que lembravam a venda de CDs com a qual deparamos sempre que passamos pelas galerias e centros nervosos de Joinville protegidos da vista imediata da polícia. Isto deve soar sugestivo. Haveria no fato uma perseguição policial, então. Haveria, mas não havia. Haveria porque está-se acostumado a prever esse tipo de ação. Em uma mente destreinada como a minha, nada parecia mais normal que pensar um vendedor de material pirateado fugir de agentes da polícia encarregados da fiscalização. Mas não estava a polícia a tentar alcançar os sujeitos. Na verdade, mesmo os que presenciaram o episódio viraram a cabeça sem se perguntar muito mais sobre o que havia naquelas sacolas ou sobre o que faria os sujeitos correrem.

Na verdade também eu não dediquei muito à questão. Que talvez se resumisse àquele instante muito breve em que nos perguntamos, “O que é isso?”, talvez fosse uma ilusão, não sei. Talvez ainda não tenha cessado em mim o existencialismo. Há antídoto para isso?

Sidney Azevedo
Um antídoto!, por favor!