sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Menorização

A lente

Está aqui um pequeno desenho, feito já há alguns dias, surgido de um lampejo que aconteceu quando estava concluindo a monografia. Não sei por que motivo...


Lamento a falta de caprinho nestes rabiscos. Mas creio que eles foram fiéis à idéia daquele momento.

Sidney Azevedo
Observando, observado, observante
(Absorvido?)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Ecos do passado

De visitar a história musical de nossa cidade
Ladeada por arranjos de flores, Santa Terezinha observava com seus olhos de gesso para o significativo público presente à apresentação do Quarteto Sambaqui, ocorrida neste domingo, às 10h30, no salão comunitário da igreja Nossa Senhora Aparecida, Quilômetro Quatro. Lá estavam 16 pessoas, se se quiser contar com os músicos. Dos outros doze restantes pode-se ainda descontar o responsável da parte da Fundação Cultural, Rodrigo Vargas, e também o secretário regional do Boehmerwald, Cristóvão Petry - que lá estariam de qualquer modo. Este último veio acompanhado por dois de seus filhos, uma menina de uns nove anos e um rapazinho de cinco ou seis que, aliás, estava bastante empenhado na tarefa de arrastar cadeiras durante a execução das melodias que foram compostas e inspiradas por e em Joinville e Santa Catarina no início do século passado - e se ainda há alguém que porventura não associe diretamente a expressão "século passado" ao período compreendido entre os anos 1901 e 2000, esta intercalação vale como puxão de orelha -, digo isso porque, conforme Raimundo Bernardes, parte das composições é de autoria de pessoas vieram para cá morar.

Enquanto eram executadas canções como "O som do bosque", "Chamarrita" e "Minueto" (João Graxa Gonçalves, Paulino Martins e Pepi Prantl, respectivamente) - cada qual com sua própria história e momento específico que não terei como reproduzir aqui com exatidão - vez ou outra, pelos comentários encantados expressos no silêncio da tentativa de comunicação de um dos mais folclóricos personagens do bairro. Àqueles que eventualmente não o conheçam, basta dizer que é um homem portador de necessidades especiais que procura sempre os lugares onde há música e que está presente em quase todas as igrejas da região tocando seu violãozinho imaginário e tentando formar uma banda com quem quer que encontre à sua frente.

Palmas efusivas se seguiam a cada música, e os murmúrios de "muito bom" ecoavam, baixos, no salão praticamente vazio. Um dos presentes, violeiro em um grupo de terno de reis e morador próximo da igreja, também ouvia com cara de satisfação ao lado da esposa. (Só quero abrir aqui um pequeno parêntesis: mas, porque violeiro e não violonista? A princípio, o instrumento não vem a ser quase o mesmo? De um modo ou de outro, o que determina o nome é a música, e "violonista" parece remeter para algo mais refinado, mas toda música, em si mesma, é um refinamento. Inclusive o sertanejo sobre o qual reside o terno de reis). Talvez falte umas palavrinhas mais sobre o outro casal presente, sobre os gracejos ao "fóssil-sambaqui" do grupo e também sobre os copinhos de água que o representante da Fundação Cultural deixou aos pés dos músicos. Todavia receio que esse excesso de detalhes com que costumo rechear meus textos acabe encobrindo dois aspectos essenciais do que aconteceu nessa apresentação.

O primeiro deles é que o trabalho de recuperação dessa música do século passado traz àqueles que foram catequizados na ideia de Joinville como uma cidade alemã em suas raízes uma grata surpresa: a presença de um multiculturalismo muito brasileiro já presente, em que a cidade serve de ponto de encontro de raizes germânicas, lusitanas, negras, açorianas, ítalas, ao menos para a elite, já que as pessoas a viviam nas ruas, por vezes ao comprar um peixe no mercado público.

O segundo ponto tem a ver com o número de pessoas que estavam acompanhando a apresentação. Talvez algum leitor tenha ficado intrigado com o uso da palavra "significativo", no início deste texto, para se descrever um público bastante inferior a 100 pessoas. Bem, significativo, aqui, não quer dizer massivo, mas quer dizer que há um aspecto importante de uma determinada realidade e que esse aspecto pode fazer pensar sobre ela, entendê-la e até explicá-la. O aspecto aqui, neste caso específico do Km 4, é o aparente pouco interesse da população neste tipo de evento. E quanto a isso podemos elencar algumas teorias, que pude auferir junto a alguns dos "nativos" do bairro: a primeira é, por obviedade, a má divulgação do evento no próprio bairro. Eu mesmo só tomei conhecimento do evento no dia, e, mais curioso ainda, nos avisos dados ao fim da missa. O segundo é que os moradores não deixariam seus almoços, e o dia de reunião da família para assistir a uma apresentação musical. Todavia, o problema aí talvez não seja tão "natural", mas sim fruto da falta de uma política cultural dentro do próprio bairro, talvez de algum incentivador, entre outras coisas. Talvez estas considerações não estejam muito próximas da realidade, mas estão entre os motivos possíveis. E agora farei este texto repousar aqui neste canto empoeirado da internet, até que alguém o encontre, como às partituras esquecidas do Arquivo Histórico, trazidas à vida por estes músicos.

Sidney Azevedo
Antigüidade
(Novidades...)

domingo, 2 de outubro de 2011

Conversas de rua - I

Criar, um ato espontâneo


Crianças gostam de criar coisas. Não é à toa que o radical de "criança" é "cria-". A todo momento a criança reinterpreta o mundo com seu olhar original, ainda livre de toda a massa de idéias feitas que nos embaralham as vistas. E foi sobre uma das criações que vi de uma dessas crianças que decidi escrever hoje.

Estava assim: o sol já se tinha posto e a luz das lâmpadas incandescentes formava um interessante tom avermelhado na rua. Eu voltava da faculdade para casa quando me deparei com um pai e um filho em frente a uma fábrica de produtos de plástico cá do bairro travando uma interessante conversa sobre um dos empregados da fábrica, conhecido por ambos.

- Pai, não é aqui que "trabala" fulano?

- Sim, filho, ele "trabala" aqui.

- Pois vou "trabalá" aqui.

O pai permitiu-se um riso dilatado, sincero e espontâneo (ora, mas o que estou escrevendo..., o que é espontâneo, em geral, é sincero, ao menos na aparência - todavia, nem tudo que é sincero é espontâneo...).

- Mas tu nem sabe "trabalá"...

O filho olhou um tanto intrigado para o pai, sem entender o sarcasmo da observação dele. Talvez as crianças não saibam o que é sarcasmo, ou, pelo menos, como formá-lo e provocá-lo conscientemente.

- Não sei?

- Hem..., não...

Daí para a frente não sei o que conversaram, fiz uma curva em uma esquina que me distou deles. Também não me lembrei da conversa de imediato, apenas quando cheguei em casa e me lembrei de trabalhar em um texto. "Trabalhar? Porque não 'trabalar'?" foi a anotação que recuperei da memória e escrevi naquele momento.

O que seria, pois, o "trabalo"? Parece que só se removeu o agá na fala não totalmente desenvolvida de uma criança... Mas isso é deter-se à forma. O que há de fato nessa palavrinha aparentemente insossa, mas que vive na graciosidade da fala de uma criança, é uma dessas invenções infantis: não lhe importa saber que é o trabalho, mas sim que ele pode ser visto como algo que leva as pessoas a estarem fora de casa.

Não lhe importa talvez saber com exatidão o que é se faz nesse estar-fora-de-casa, pois pode aí imaginar haver brincadeiras e um pouco daquela liberdade que por vezes ela pode pensar em ter um pouquinho longe dos pais, sem a preocupação de não os ver, que só assalta a criança quando lhe atinge em cheio a solidão.


"Trabalo" não é trabalho. Parece ser algo lúdico. Um jogo, talvez até um estado de espírito. É pôr à mesa o intuito de se fazer algo necessário com alguma diversão. Algo que é da vida retirado no dia em que a força de fazer pesa mais que a de vontade de se divertir. No dia em que, em suma, se se torna "adulto"...


Sidney Azevedo
Em não-trabalho
(Anti-trabalho?)