segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A pauta perdida

De quando te veem como o heroi da cidade

Há algumas situações para as quais nunca se está bem preparado. Uma que me pegou muito de surpresa foi o dia em que me descobri jornalista. Sim, eu sou jornalista. Ou, pelo menos, tenho alguns documentos que provam que eu o sou, ou talvez nem o provem, dependendo do estado atual da legislação em torno da validade do diploma. Digo isso também porque, apesar de formado e de ter o registro do Ministério do Trabalho, não trabalho. Talvez por isso mesmo eu ainda não tenha aprendido o que é ser um jornalista. Ou, ao menos, não me sinta ainda jornalista. Afinal, não passo o dia correndo atrás de informações ou, pelo menos, não o faço para ganhar dinheiro.

Aliás, essa última frase revela um problema. Não dá para definir a profissão do jornalismo como "correr atrás de informações", muito embora ela expresse o núcleo das preocupações do jornalista. Primeiro porque a disponibilidade de informações é tão grande hoje que qualquer um com  um computador capaz de acessar a Internet pode chegar a elas facilmente. Segundo que em qualquer centro de distribuição da informação como um jornal pode-se fazer uma edição sem a necessidade de buscar informações, uma vez que a solicitude de assessores de imprensa e profissionais similares facilita o acesso a elas conforme o gosto de seus assessorados ou patrões de divulgar alguma coisa.

O que seja, acontece que demorei a conhecer a faceta do jornalista-herói. É uma das visões que o leitor-ouvinte-telespectador-internauta tem do jornalista. Digo que foi esta percepção que me levou a entender que eu finalmente pertencia a raça porque pela primeira vez me vi realmente pressionado para a execução de uma pauta vinda desta entidade misteriosa chamada público.

Aconteceu durante uma aula do curso de inglês que tenho frequentado. (Sim, aos que se chocaram com isso, acreditem: estou tendo aulas de inglês). Uma moça na sala, bastante jovem e atraente, que em outras situações me colocaria numa pilha de nervos, pôs-me numa por um caminho que eu não esperava. Ao saber-me jornalista, ela veio na minha direção apresentando o caso, que circulava pelas "redes sociais", de um velhinho adoentado que estava em uma das afamadas filas do hospital municipal São José, beirando a morte, sem atendimento.

(Questão de aula: "afamado" e adjetivos similares deveriam ser evitados num texto informativo do qual se presume isenção. Mas este não tem a menor pretensão de informar. Talvez a única informação presente aqui é a de que estou desempregado, mas isso só vale no meu critério de noticiabilidade e também no daqueles que estão procurando por emprego... E outra questão de aula: havia necessidade de minha parte de explicar que o São José é municipal? Até onde sei, não são muito numerosos os meus leitores. Menos ainda os que são de fora de Joinville. E quem é de Joinville sabe que o referido hospital é municipal. Todavia, eu não me surpreendo que para muitas pessoas um hospital é um hospital, e só, não importando a trama de bastidores que se desenrola por trás de uma tal instituição. Aliás, num contexto mais amplo, essa ignorância pode ser até mais do que positiva: a ideia de hospital se vincula definitivamente à ideia de curar as pessoas, o que reforçaria, nalguma medida, o desejo das pessoas de torná-lo algo desvinculado de qualquer elo político, de torná-lo verdadeiramente público. Bem... Talvez não. Ainda é preciso discernir).

Mas, afora o incômodo de um tão grande parágrafo entre parênteses, é preciso voltar ao velhinho da fila sobre o qual me falava a moça. Não era a primeira vez que eu ouvia história semelhante. Há bastante tempo o hospital São José concentra em si a maioria dos atendimentos realizados na cidade. E como é o hospital referência na cidade, aquele de qual todos se recordam quando se menciona a palavra "hospital", costuma acolher todos os tipos de pacientes, desde os que têm uma simples dor de cabeça até aqueles severamente fraturados por acidentes nas estradas da cidade.

Fiquei consternado depois de ouvir aquilo, ou melhor, estou consternado ainda por conta de minha reação. Era evidente na postura dela a sugestão de que eu deveria fazer algo a respeito. Encaminhar a denúncia a um colega de algum jornal, pelo menos. Todavia, não me recordo inteiramente o que disse, só lembro que foi algo do gênero "não posso fazer nada", e isso foi dito em virtude do raciocínio que encadeei, o qual, esse sim, me recordo com nitidez.

Primeiro, o tal velhinho virou assunto nas "redes". Era o mês de outubro, eleições próximas ao ápice. Qualquer nota ou informação das "redes" deveria ser recebida com cautela, por mais tentadora que parecesse a possibilidade de sua republicação. Ademais, embora minha ação nas "redes" seja restrita, sempre mantenho um olho sobre elas e eu não me lembrava de nenhum velhinho do São José. Na hora, não nego, pensei que fosse alguma espécie de mentira, ou algum truque político de intuito difamatório quanto à situação da saúde na cidade que pudesse prejudicar o prefeito em exercício. Mas também me veio à mente a ideia de que podia, efetivamente, haver um velhinho sem atendimento no São José. Todavia, o que é um, ainda que um capaz de comover as pessoas, quando se poderia, ao contrário, procurar o número de pessoas sem atendimento no hospital, e mostrar algo mais preocupante? Decidi-me pela hipótese do truque político.

Todo esse cálculo deve ter durado uns dois ou três segundos, não mais. Então, mordendo os lábios, improvisei o "não posso fazer nada". A moça olhou para o chão, num misto de decepção e surpresa, e depois voltou para onde estava e continuou o que estava fazendo.

Para mim, ficou um tanto de remorso por conta da falta de espírito jornalístico em que me flagrei (ou em que me senti, quiçá?) naquela hora. Não por conta do velhinho, do velhinho específico, que talvez já tivesse sido atentido pela pressão comunitária, mas porque poderia tentar ao menos fazer um panorama sobre o número de pacientes em espera no São José. Ou uma matéria sobre as causas dessa espera, em especial verificando a possibilidade de correlação entre a greve dos trabalhadores estaduais da saúde (e aqui relembro a necessidade de discernir municipal de estadual) que paralisou os atendimentos no hospital regional Hans Dieter Schmidt, sobrecarregando o São José, entre tantas outras pautas possíveis.

Aquele remorso foi que me acordou para o fato de ser jornalista, quanto a todos os riscos que se corre, desde de pensarem que tu és uma espécie de vigilante salvador da cidade até o de ser um alvo móvel dos julgamentos alheios. Acordou-me também para o cuidado necessário quanto a certas expectativas do público sobre aquilo que deve sair no jornal, e reacendeu em mim perguntas sobre o que são o espaço público, o interesse público, o interesse do público e o papel do jornalista nesta barafunda toda.
 
Sidney Azevedo
Despertar
(o sono foi longo...)