segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Esperança

Concurso

Sair à rua com perguntas na cabeça.
Deixar que corra ante os olhos a paisagem na janela do ônibus e a cabeça a perguntar.
Sair à rua com certezas na cabeça.
Desviar dos galhos de árvores que brotam do chão enquanto a cabeça mergulha no chão.
Errar o lugar com a cabeça, mas sem perguntas.
Acertar o lugar com perguntas, mas sem a cabeça.
Prestar a prova com a cabeça nas perguntas.
Deixar que corra ante os olhos a paisagem na janela do ônibus e a cabeça a perguntar.
Entrar em casa com perguntas na cabeça.
Sentar ao computador com as pálpebras martelando as perguntas.
Música para perguntas.
Perguntas para cabeça.
Cabeça para dormir.
Para quê cabeça?
Para quê perguntas?
Para quê?

Sidney Azevedo
Boa noite!
(Que o sono esteja com vocês!)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Resposta

Desafio

Recebi um número de Jéssica Michels esses dias atrás, o número nove. Jéssica é jornalista e fotógrafa e me passou esse número porque eu curti a postagem que ela fez no Facebook fazendo dezoito revelações sobre sua vida. Isso é parte de uma brincadeira que iniciou no Facebook e que tem mobilizado as pessoas no sentido de fazerem revelações mais pessoais do que aquelas que em geral as pessoas com quem se convive já têm conhecimento. Resolvi aderir à brincadeira, apesar de ela não ter avisado que quem curtisse sua postagem receberia um número. Seja como for, ei-las:

1 - Dizem que a casa em que cresci era assombrada. Não tenho como afirmar se bem ou mal assombrada. Só dizem que era assombrada e ponto. É o que diziam os vizinhos e alguns que lá passaram a noite e que testemunharam eventos curiosos. Dizia-se que uma senhora fora enterrada naquele terreno da rua Guarapuava exatamente embaixo do corredor central da construção, que ligava as duas grandes salas. À noite, quando o silêncio reinava absoluto, era discernível o som de passos vagarosos. Sim, também eu ouvi passos. Mas, sinceramente, ainda acho que devia ser um gambá... Tanto que, depois que meu pai capturou o que andava pelo nosso sótão, os passos se findaram.

2 - Esta talvez seja surpresa especialmente para aqueles que estudaram comigo na faculdade de jornalismo: sou católico praticante desde os treze anos. À época eu entrei no grupo de liturgia da paróquia Cristo Ressuscitado, ainda sob a administração do pároco Luís Fachini. Entre as atividades que exerço atualmente na comunidade que frequento estão as de ministro extraordinário da Eucaristia e de coordenador de liturgia. Já tomei parte em grupos de jovens, já fui catequista e já integrei grupos de estudo ligados à Igreja. Muito da minha formação intelectual se deve à minha participação na comunidade eclesial e a religiosidade tem importante papel na minha compreensão do mundo, pois a manutenção do dificílimo equilíbrio entre o lado religioso e o acadêmico depende de uma razão aberta e capaz de ouvir argumentos os mais diversos.

3 - Uma das maiores vergonhas da minha existência é não saber andar de bicicleta. E uma das minhas maiores raivas é não poder mandar um "fodam-se!", andando de bicicleta, às "concessionárias" do transporte coletivo de Joinville.

4 - Durante algum tempo inventei e sustentei a história de que morei em Portugal por três anos. Saibam que é mentira. Até hoje não botei um pé fora do Brasil. Começou com uma brincadeira que fiz no dia do vestibular do Ielusc, entre os candidatos que contavam histórias sobre viagens que me pareceram muito fantasiosas. Inventei essa baseado no fato de que sou descendente de portugueses e de que tenho um modo de falar que, dependendo da situação, revela minha ascendência. Decidi manter a lorota porque sempre chamava atenção e porque gerava situações excelentes para testar minha capacidade de improvisar. Acabou, entretanto, se tornando uma coisa que eu não consegui desmentir e que ficou intocada até, talvez, agora.

5 - Um dos meus melhores companheiros desde a infância foi o meu Dinavision 4. Eu o ganhei no dia 15 de dezembro de 1995, pouco antes do meu aniversário de seis anos, e fiquei frustrado na ocasião porque eu queria um Supernintendo - que era então o videogame da moda. Ele "faleceu" há pouco mais de um ano, em 7 de outubro de 2012. Eu jogava Battle Tank na ocasião, e tinha completado a quarta missão - eu almejava alcançar a nona e superá-la - quando houve a pane que me forçou a deixá-lo em seu féretro - uma singela caixinha de sapatos que o guarda até hoje... Não poucas vezes ele me ajudou a enfrentar as minhas crises quando me desafiava a terminar os jogos ainda incompletos, lembrando-me a certeza que eu sempre tive de que, em tudo, havia sempre uma segunda via.

6 - Coleciono alguns importantes feitos em termos de leitura. Comecei a ler aos três anos com um livrinho infantil d'O Patinho Feio. Aos catorze anos, já tinha esgotado a literatura de Júlio Verne presente na Biblioteca Pública Municipal Rolf Colin e passava à prateleira que ficava ao lado e continha os livros de Machado de Assis. Também aos 14 li uma série de estudos sobre a Escola de Frankfurt (sim, se você estudou Comunicação não se enganou, é aquela do Adorno, do Horkheimer, do Benjamin, do Habermas etc.) que continham fragmentos dos originais e os interpretavam aplicando a casos presentes no Brasil. Aos dezessete eu li as três críticas de Immanuel Kant e já tinha passeado por toda a literatura nietzschiana - à exceção de Assim Falou Zaratustra que, não sei por qual razão, não li até agora...

7 - Tantas leituras, porém, não me impediram de acabar trabalhando num serviço braçal depois de formado. Sem saber como reunir outros formados para tentar fazer algo como uma cooperativa e com vergonha de implorar por um emprego no campo da comunicação, me vi trabalhando com logística numa agência de encomendas na rodoviária. A princípio, eu atendia clientes e emitia fretes, como um caixa. Mas após a terceirização do balcão da agência passei a fazer a parte braçal do serviço, mortificando, um pouquinho a cada dia, a meu ser acadêmico. Hoje estou livre desse pesadelo. Mas estes seis meses só não foram os piores da minha vida por conta da revelação seguinte.

8 - Foi nesse período, o mais difícil da minha história até agora, que fui capaz de me enternecer por alguém. Até então eu era um bloco de gelo e me congratulava por isso. Não que houvesse algum motivo especial para isso. Penso que era porque eu achava ótimo o fato de não ser como os rapazes que tinham uma inexorável necessidade de estar com alguém. Mas era talvez mais provável que isso se devesse a alguma das minhas diversas teimosias sem motivo. Enfim, seja lá qual fosse o motivo para tal resistência a me envolver com alguém, até 31 de julho deste ano eu não sabia quão transformador podia ser algo tão singelo como um beijo. Uma pequenina moça - pequenina mesmo - me tirou do profundo entorpecimento moral no qual eu me metera e me fez rever o colorido da vida que eu perdera.

9 - O momento de maior pavor que experimentei até hoje foi quando minhas pernas decidiram parar de andar sem nenhum motivo em meados de 2008. Até hoje não faço ideia de qual foi o problema. Só me lembro de ter caído na rua Imperatriz (Floresta) com uma estranhíssima sensação de quarenta quilos em cada perna e de ter ficado ali, sem saber o que fazer, entre chorar, gritar e emudecer, por quase dez minutos.

Sidney Azevedo
Revelado?
(são revelações mesmo?)

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Poesia? - II

Onipresença

Sinto que devo algo...
Sim, devo ainda!
Senão em rima, como outrora,
sem pretensões métricas agora
quero deixar a letra correr.

Virar a noite contemplando
a grande árvore da vida,
a beleza holística da obra completa!
Seria repleto de maravilhas o amanhecer.

Seria. Não o foi.
É ainda nos pensares
que revivem tais belezas.
E a cada minuto,
em que o arrepender-se de não ter sido
fica evidente novamente no ser,
todos os tempos o tempo todo
resolvem se juntar
e tornar o hoje
uma vontade do ido
no caminhar para a manhã seguinte.

Os passeios imaginados,
os aprendizados planejados,
umas cartas enviadas,
os desenhos rascunhados,
tudo revive.

Dói-me responder
quando a bicicleta me pergunta:
"Quando comigo vens andar?":
"Não sei...". Não tenho ainda resposta.
 
Sidney Azevedo
O que é devido?
(Não posso revelar).

domingo, 24 de novembro de 2013

Poesia?

Dever

Sinto que devo algo
À vida que ela me deu;
Não sei dizer o que era,
Nem como fiquei eu.

De lado para a imensidão
Lançava brisas sobre mim
O oceano de calor que via.
Coragem faltou ao fim.

Sobre as quatro colunas
Elevada esteve a alegria.
Aberta ela esperava,
Eu não conseguia.

Talvez pudesse
Assistir a porta dos fundos.
Não que não tivesse a chave;
Não conheci esses mundos.

Se nelas tivesse chegado,
Mudança de mundo seria.
Agora já é tarde.
Seria?

Sidney Azevedo
O que devo?
(Devo ainda...)

domingo, 27 de outubro de 2013

Não me lembro o porquê de escrever isso...

Sobre plágios

Há tão grandes abismos entre forma e conceito... À medida que usamos palavras que não inventamos, e que deixamos de usar as que inventamos porque sabemos que, se as usássemos, não seríamos compreendidos, é leviandade dizer que nos plagiamos uns aos outros.

Sidney Azevedo.
Sim, era sobre plágios.
(Mas, por quê?)

sábado, 7 de setembro de 2013

Duvidas?

Método científico

Se duvidas, tem na vida uma esperança.
Se não, pode a certeza te desiludir ou a negação te pôr distante da alegria.


Sidney Azevedo
(Para simplificar)
Milhões de palavras podem ser silenciosas.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Improviso

Deveras...

Tantas coisas há para escrever.
Difícil, agora, é decidir por uma.
Talvez, até, nem o queira fazer.
Nem decidir nem escrever.
Nem pensar sobre escrever.
Nem mesmo pensar, talvez.
Mas há tanto estou calado.
Há tanto guardo em mim um pranto represado que aguarda...
E aguarda. Algo...
Um pensamento.
Uma palavra.
Um ato.
Um acontecimento.
Algo que mude tudo.
Que não me faça esquecer o assunto.
Não me faça esquecer.
Aquele, que me surgiu semana passada.
Ou ontem.
Ou.
Só sei que é preciso escrever.
E escrever é estar a esperar pela sexta.
A feira da sexta.
A mágica.
O ato-pensado-na-palavra-a-acontecer.
 
Sidney Azevedo
(Azevedo Sidney)
Marlon.

sábado, 31 de agosto de 2013

Um mês!

Há um mês...
 
Meu andar disperso e minhas mãos nos bolsos eram percebidos quando eu mesmo não os percebia. Espreitavam-me olhos ansiosos, cientes já de meus horários, e eu, porém, não os sabia. Alertado por outrem, descobri neles a beleza de um recato paciente. Havia, entretanto, um vidro. A incerteza minha de realmente haver alguém que ansiasse por minha passagem. Mas o vidro era translúcido, e me permitia esperançar uma tal presença.
 
Mas em mim persistia a dúvida. "Como podia eu, inseguro e cabisbaixo, ter alguém a me querer?" Tinha. Cruzaram-se os nossos olhos. Foi breve. Cresceu-me no peito a certeza. Mas faltava a coragem. "Como falar-lhe?". Não sabia como. Ansiava dizer-lhe algo, mas não concebia meio de o fazer. Temia errar as palavras, os gestos, o pensamento. Temia errar até os sentimentos. Então me sentava e me conformava de pensar que alguém se importava comigo. Que eu não estava só.
 
Mas isso me frustrava. Não bastava. "Como falar-lhe? Como falar-lhe? Como falar-lhe?" A pergunta era persistente. Vinha-me no trabalho, na cama, no banho, na sala, no livro, nas caixas, nas cadeiras, nos carros, nas músicas, na oração, no silêncio... Sem resposta, voltava ao conformismo. Mas inquietava-me a possibilidade de não ter ido aos confins do universo para descobrir ao menos uma forma de falar com ela. Rezava, então. E esperava. Talvez um anjo trouxesse um alento.
 
E trouxe. Súbita, sem que eu esperasse, veio uma confirmação. "Uma amiga minha quer que tu vás vê-la". Fiquei surpreso. Também ela queria que eu desse um passo. Roguei auxílio do alto, firmei os pés, sem olhar para trás, e sem titubear falei-lhe. Não me recordo mais das palavras com exatidão, nem dos gestos, nem do raciocínio encadeado. Mas os sentimentos, eram claros como nunca os tive. Uma serenidade que eu não esperava demonstrar. Serenidade. Sim, serenidade. Era serenidade o que me moveu naquele momento. Uma sensação de que, a partir de então, nada poderia dar errado.
 
O dia seguinte era 29 de julho. Por mensagens combinávamos de nos encontrar ainda aquela tarde. Foram rápidos e densos os passos dados pelos pouco mais de 1400 metros que separam a Rodoviária e a antiga Estação Ferroviária. Porém, eram ainda dados com timidez. Tanto os meus, quanto os dela. Conhecíamo-nos. E só. E percebi que tinha mais em comum com aquela mocinha do que com qualquer outra que eu conheci.
 
Passou-se um dia ainda. Ela pensava em mim. E justificou que eu merecia isso por ser "lindo, fofo e barbudo". Barbudo eu sabia que era. Acho que mesmo que não tivesse barba eu ainda assim seria barbudo. Quanto a lindo e fofo, eu não tinha como avaliar, mas o importante é que ela assim me via. Eu queria vê-la. Mas decidi que seria melhor deixar passar um dia. Chegou então o dia 31, quarta-feira.

"Quiçá antes ainda". Estas palavras, despretensiosas, escrevi-as para confortá-la. Eu gostei de escrever "quiçá". Parecia-me elegante. Ela gostou de ler "antes". Era-lhe um alento. Mais ainda por ser sua folga (escala cinco por um, um sistema cruel, em minha opinião). Poderia não me ver naquele dia, mas a mensagem lhe esperançou. Eu queria e podia vê-la ainda. E eu a aguardei após minha jornada. E ela veio. Passinhos vagarosos sobre os paralelepípedos da Paraíba após olhar cuidadosamente à direita e à esquerda - temendo o aparecimento repentino de um carro à toda velocidade -, ainda que a rua seja mão única. E saímos.
 
Subimos a rua Ottokar Doerffel e seguimos pela Visconde de Taunay. Não, não são duas ruas diferentes. Trata-se da mesma sob dois nomes diferentes para homenagear gente que nem sei se era efetivamente digna de homenagem. Sim, também dos nomes das rua falamos. Ou foi em outro dia? Nem lembro. Tantas vezes já trilhamos esse caminho... Mas são outras histórias em outro tempo a se contar. O importante era o shopping. o mall, como ficaria melhor dito em inglês. Estivemos lá porque um dos meus objetivos no dia era comprar um par de tênis. Pois, um par de tênis. O meu estava furado. E eu estava usando aquele furado. E eu a convidei para isso... Absurdo, não? Como ela aceitou saiu comigo? Não faço ideia...
 
Mas não importa agora. Importa a sacada do shopping, à qual chegamos depois de concluir que não havia filme que merecesse ser assistido. Eu, tênis furado, jaqueta velha, furada sob a axila, desajeitado. Ela, graciosa, óculos de aro grosso avermelhado, blusinha rosada, celular na mão, protegido por uma capa marcada pelo desenho de gatos. Falávamos sobre a casa da frente, uma edificação antiga, bonita, bem localizada. Cheia de reentrâncias, sacadas, aberturas e janelas. Ela colocou meu braço sobre os seus ombros. Eu não tinha tido ainda a coragem de o fazer. Encostou a cabeça em meu ombro, e eu encostei meu queixo sobre sua cabeça. Falávamos baixinho. Até que ela ergueu a boca e eu desci a minha. Os lábios se encontraram. Espontâneo, belo e delicioso encontro. Não tenho como expressar melhor. Demoramo-nos um tempo enorme ali. Ou talvez enorme tenha sido o acontecimento...
 
O tênis? Que tênis? Ah, sim, eu o comprei. E ela me acompanhou na compra. Mas, nem o tenho usado. Fica para outra ocasião. Prefiro viver agora aos beijos com ela.

Sidney Azevedo
O beijoqueiro
(depois de saber como isto e bom...)
 
Post scriptum: Parabéns a nós, Deyse.

sábado, 9 de março de 2013

Quintal - II

As flores de plástico não morrem

Mas as que não são de plástico vivem na memória de quem as viu, tocou ou cheirou.


Mais uma noite aguardada no quintal aqui de casa. A cada ano são três as floradas de dama-da-noite. Dezembro, janeiro e fevereiro. Sendo que a de fevereiro é inigualável. Carrega-se o pé todinho ao longo das primeiras semanas do mês e na quarta semana começamos a sair todas as noites ao quintal para ver se já estão por desabrochar. Mas desabrocham em uma noite, já nada restando delas no dia seguinte a não ser um cadáver puído de tanto irradiar beleza. Fica um jardim entristecido, cabisbaixo, contrariando o verde da expectativa da véspera e o branco de alegria e vivacidade do grande dia, deixando um amarelado taciturno, saudosista da grande noite do dia anterior.

A presença de uma flor dessas muito nos ensina sobre a vida. Ou, pelo menos, sobre a inutilidade de achar que a vida é uniforme, retilínea, incapaz de sobressaltos, embora nos ensinem (antes, nos doutrinem) de que é assim que funciona.

Estude, trabalhe, estude, trabalhe, trabalhe, trabalhe, descanse, trabalhe, trabalhe, trabalhe, descanse, estude, trabalhe, descanse.

Só o que não se pode é pensar. Para pensar é preciso parar e parar é perda de tempo, que redunda em perda de dinheiro. Porém, pensar é a dama-da-noite que no meio da madrugada não te deixa dormir. Brilha do nada, assim que o cérebro começa a organizar tudo o quanto se passou no dia. Mas ela brilha um brilho urgente que, se não é percebido, perde-se. Sufocada pelo sono, aquele sono insone, mirrado e descontínuo, deixa para o dia seguinte a impressão de que algo importante ficou para trás.

Mas algo tranquiliza: ao fim, não é a flor que fica, mas a planta fincada no solo. Um pensamento pode ser perder, mas aí está aquele que, no íntimo, concebeu-o, podendo acalentar algo maior. A beleza da flor então é dar seu lugar a uma nova esperança lançada pela planta que lhe deu razão de ser. Ainda podes pensar. Nasceste para pensar! Liberta-te!
 
Sidney Azevedo
Cavalheiro-da-noite
(a vencer a vida notívaga)

quarta-feira, 6 de março de 2013

Episódio

O apagão ou A certeza de uma nova luz
 
E quando falta a luz? Primeiro dizem que é quando uma sobrecarga leva à interrupção do fornecimento de energia elétrica. Ou quando um motorista desastrado derruba um poste. Mas a causa não é importante. Procurar a causa, assim de imediato, indica que o que se quer é retornar ao estado anterior de segurança. Implica renunciar à possibilidade de uma mudança, à busca por uma solução diferente. Antes,... importantes são as ações das pessoas ante o mundo novo que se instala. Sim, porque é um mundo novo que força as pessoas a reverem o automatismo a que se habituaram. Não um mundo fabricado, falso, que promove uma busca insana que, no fim, é só mais um automatismo, mas um mundo novo que dá um bote inesperado, que sempre esteve lá à espera paciente de uma oportunidade de surpreender as pessoas, que anseia ver se elas procurarão uma vela e um fósforo, se ficarão paradas com medo, se aproveitarão para dormir ou se continuarão suas atividades dentro dos novos limites até ultrapassá-los. Quando, por mais que não se queira estar no redemoinho do escuro, se é jogado nele, não é o desespero que vai ajudar a permanecer firme. É sempre a serenidade que lembra: "A luz sempre volta. Nem que seja a do amanhecer".
 
Sidney Azevedo
A luz sempre volta
(não se esqueça nunca disso)
 
PS: texto publicado como atualização de status no Facebook numa Quarta-feira de Cinzas.

Quintal

Laranjeira

Uma laranjeira, quando muito carregada, verga, cede sob o peso da expectativa de seus frutos - ainda verdes -, e suas raízes ameaçam sair do chão. Por fim, acaba se deixando podar a maioria dos pesados galhos antes de poder ser erguida de novo e de ter repostas as suas raízes no lugar onde estavam. Leve, mas incompleta. Leve, é verdade, mas abalada.
 
Sidney Azevedo
Um momento laranjeira

PS: texto escrito há um mês, como uma atualização de "status" no Facebook, depois de lutar com meu pai para salvar uma laranjeira.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Rádio Alegria

Um dia bom, tão-só

Uma camisa polo listrada de vermelho e branco, tendo ao longo das listras brancas uma listra sobreposta azul escura, fininha, que conferia à camisa um ar de muda de cobra coral, desgastada, é verdade, mas íntegra o bastante para que ninguém a pensasse como o pertence de um pobre, era vestida por um moreno sexagenário cuja expressão não dava margens à existência de uma possível tristeza que por vezes parece intrínseca àqueles que atravessam a fronteira da velhice. Quiçá fosse pobre o homem que a trajava, ou talvez não. De certeza só tenho a de que não era pobre em alegria.

Cantava alto no meio do Terminal Central todas as recentes (e também as não tão recentes) modas das rádios comerciais populares, de mão ao ouvido como se tivesse nela um "radinho" de pilha. E talvez efetivamente tivesse um rádio na mão, um tão pequeno que não pudesse ser visto por aqueles que aguardavam a chegada da linha Sul, pois não havia nada em sua mão que formasse o volume esperado de um radinho. Remanescia o mistério e a cantoria:

"Ciumenta! Para de ser tão Ciumenta! Desse jeito nenhum homem te aguenta!"

Sentado no banco, alheio à indiferença geral daquela agoniada espera pelo carro do transporte - quebrada somente pelo riso aberto de um grupinho de adolescentes que, provavelmente, o classificava como louco ou como bêbado -, o homem olhava repentinamente para os lados e dizia qualquer coisa como:

"Atenção aí, ô! Que aqui a gente continua."

Chegado o ônibus, o homem entra cantando Ex my love, e as pessoas, finalmente libertas da agonia da espera pelo transporte, parecem perceber a existência dele e se permitem um riso silencioso, para si mesmas, até o início da agonia por chegar logo em casa. O ônibus era um desses do modelo criado para facilitar o acesso de deficientes e idosos, e o homem ficou sentado num banco individual do vão mais baixo, tendo todas as pessoas ao seu redor como uma espécie de plateia.

"Se botar teu amor na vitrine ele nem vai valer um e noventa e nove".

Nesta hora a voz saiu um tanto rouca, e ele bateu palmas para si mesmo, e, um tanto surpreso, recebeu as palmas dos adolescentes, quiçá combinados antes de entrarem no ônibus para promover o riso. Eles estavam espalhados por diversos lugares do ônibus, uma vez que, quando entraram, não havia nenhum lugar capaz de reunir os seis jovens no mesmo ponto. O homem recolocou o "rádio" no ouvido e preparava-se para nova música, aparentemente certo de cair no gosto do público (ou, pelo menos, no do ônibus). Os adolescentes que ainda podiam conversar entre si se esticavam ou se contorciam entre os corredores e murmuravam piadas sobre a situação.

Eu ainda estava intrigado pelo misterioso radinho. Olhando pela janela recordei-me do tempo em que estava na escola, talvez por conta dos animados chistes dos adolescentes de agora. Todavia, uma diferença era evidente: eu e meus companheiros, um quarteto de nerds, imaginaríamos absurdas cenas do futuro e encontraríamos explicações distantes do bom senso ao invés de aproveitarmos do puro e simples riso.

Diríamos que o homem tinha, certamente, algum aparato nanotecnológico implantado sob a pele que exercesse a função de rádio. Seria uma possibilidade, uma vez que tais aparatos existem! Mas diante de tal reflexão, haveria mais razão para o medo, que se torna vívido pela nossa prodigiosa imaginação e pelo conhecimento das motivações sombrias que agem no ser humano, um medo quebrado talvez talvez somente pela consoladora impossibilidade de um domínio completo dos corpos pela tecnologia.

"Vou te esperar na minha humilde residência!"

As divagações sobre o rádio imperceptível se encerraram. A persistência do homem (ou impertinência, como chegou a dizer uma senhorinha), me fez voltar das reflexões da janela. Observando, vi que já avançara muito o ônibus e que estávamos próximos ao Terminal Sul. O homem cantava ainda, mas parecia já não ter aquela mesma energia, apenas, agora, um contentamento comedido, próprio daqueles que cupriram a missão do dia e que já passaram da euforia por tê-lo feito. As pessoas seguiam seus caminhos sem olhar para os lados. Porém, aquela rádio de alegria, aquela sintonia em que só ele estava, essa me parecia perdida, só a tecnologia da sua simplicidade era capaz de captar.
 
Sidney Azevedo
O que é alegria?
(Como chegar lá?)