sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Rádio Alegria

Um dia bom, tão-só

Uma camisa polo listrada de vermelho e branco, tendo ao longo das listras brancas uma listra sobreposta azul escura, fininha, que conferia à camisa um ar de muda de cobra coral, desgastada, é verdade, mas íntegra o bastante para que ninguém a pensasse como o pertence de um pobre, era vestida por um moreno sexagenário cuja expressão não dava margens à existência de uma possível tristeza que por vezes parece intrínseca àqueles que atravessam a fronteira da velhice. Quiçá fosse pobre o homem que a trajava, ou talvez não. De certeza só tenho a de que não era pobre em alegria.

Cantava alto no meio do Terminal Central todas as recentes (e também as não tão recentes) modas das rádios comerciais populares, de mão ao ouvido como se tivesse nela um "radinho" de pilha. E talvez efetivamente tivesse um rádio na mão, um tão pequeno que não pudesse ser visto por aqueles que aguardavam a chegada da linha Sul, pois não havia nada em sua mão que formasse o volume esperado de um radinho. Remanescia o mistério e a cantoria:

"Ciumenta! Para de ser tão Ciumenta! Desse jeito nenhum homem te aguenta!"

Sentado no banco, alheio à indiferença geral daquela agoniada espera pelo carro do transporte - quebrada somente pelo riso aberto de um grupinho de adolescentes que, provavelmente, o classificava como louco ou como bêbado -, o homem olhava repentinamente para os lados e dizia qualquer coisa como:

"Atenção aí, ô! Que aqui a gente continua."

Chegado o ônibus, o homem entra cantando Ex my love, e as pessoas, finalmente libertas da agonia da espera pelo transporte, parecem perceber a existência dele e se permitem um riso silencioso, para si mesmas, até o início da agonia por chegar logo em casa. O ônibus era um desses do modelo criado para facilitar o acesso de deficientes e idosos, e o homem ficou sentado num banco individual do vão mais baixo, tendo todas as pessoas ao seu redor como uma espécie de plateia.

"Se botar teu amor na vitrine ele nem vai valer um e noventa e nove".

Nesta hora a voz saiu um tanto rouca, e ele bateu palmas para si mesmo, e, um tanto surpreso, recebeu as palmas dos adolescentes, quiçá combinados antes de entrarem no ônibus para promover o riso. Eles estavam espalhados por diversos lugares do ônibus, uma vez que, quando entraram, não havia nenhum lugar capaz de reunir os seis jovens no mesmo ponto. O homem recolocou o "rádio" no ouvido e preparava-se para nova música, aparentemente certo de cair no gosto do público (ou, pelo menos, no do ônibus). Os adolescentes que ainda podiam conversar entre si se esticavam ou se contorciam entre os corredores e murmuravam piadas sobre a situação.

Eu ainda estava intrigado pelo misterioso radinho. Olhando pela janela recordei-me do tempo em que estava na escola, talvez por conta dos animados chistes dos adolescentes de agora. Todavia, uma diferença era evidente: eu e meus companheiros, um quarteto de nerds, imaginaríamos absurdas cenas do futuro e encontraríamos explicações distantes do bom senso ao invés de aproveitarmos do puro e simples riso.

Diríamos que o homem tinha, certamente, algum aparato nanotecnológico implantado sob a pele que exercesse a função de rádio. Seria uma possibilidade, uma vez que tais aparatos existem! Mas diante de tal reflexão, haveria mais razão para o medo, que se torna vívido pela nossa prodigiosa imaginação e pelo conhecimento das motivações sombrias que agem no ser humano, um medo quebrado talvez talvez somente pela consoladora impossibilidade de um domínio completo dos corpos pela tecnologia.

"Vou te esperar na minha humilde residência!"

As divagações sobre o rádio imperceptível se encerraram. A persistência do homem (ou impertinência, como chegou a dizer uma senhorinha), me fez voltar das reflexões da janela. Observando, vi que já avançara muito o ônibus e que estávamos próximos ao Terminal Sul. O homem cantava ainda, mas parecia já não ter aquela mesma energia, apenas, agora, um contentamento comedido, próprio daqueles que cupriram a missão do dia e que já passaram da euforia por tê-lo feito. As pessoas seguiam seus caminhos sem olhar para os lados. Porém, aquela rádio de alegria, aquela sintonia em que só ele estava, essa me parecia perdida, só a tecnologia da sua simplicidade era capaz de captar.
 
Sidney Azevedo
O que é alegria?
(Como chegar lá?)