sábado, 31 de agosto de 2013

Um mês!

Há um mês...
 
Meu andar disperso e minhas mãos nos bolsos eram percebidos quando eu mesmo não os percebia. Espreitavam-me olhos ansiosos, cientes já de meus horários, e eu, porém, não os sabia. Alertado por outrem, descobri neles a beleza de um recato paciente. Havia, entretanto, um vidro. A incerteza minha de realmente haver alguém que ansiasse por minha passagem. Mas o vidro era translúcido, e me permitia esperançar uma tal presença.
 
Mas em mim persistia a dúvida. "Como podia eu, inseguro e cabisbaixo, ter alguém a me querer?" Tinha. Cruzaram-se os nossos olhos. Foi breve. Cresceu-me no peito a certeza. Mas faltava a coragem. "Como falar-lhe?". Não sabia como. Ansiava dizer-lhe algo, mas não concebia meio de o fazer. Temia errar as palavras, os gestos, o pensamento. Temia errar até os sentimentos. Então me sentava e me conformava de pensar que alguém se importava comigo. Que eu não estava só.
 
Mas isso me frustrava. Não bastava. "Como falar-lhe? Como falar-lhe? Como falar-lhe?" A pergunta era persistente. Vinha-me no trabalho, na cama, no banho, na sala, no livro, nas caixas, nas cadeiras, nos carros, nas músicas, na oração, no silêncio... Sem resposta, voltava ao conformismo. Mas inquietava-me a possibilidade de não ter ido aos confins do universo para descobrir ao menos uma forma de falar com ela. Rezava, então. E esperava. Talvez um anjo trouxesse um alento.
 
E trouxe. Súbita, sem que eu esperasse, veio uma confirmação. "Uma amiga minha quer que tu vás vê-la". Fiquei surpreso. Também ela queria que eu desse um passo. Roguei auxílio do alto, firmei os pés, sem olhar para trás, e sem titubear falei-lhe. Não me recordo mais das palavras com exatidão, nem dos gestos, nem do raciocínio encadeado. Mas os sentimentos, eram claros como nunca os tive. Uma serenidade que eu não esperava demonstrar. Serenidade. Sim, serenidade. Era serenidade o que me moveu naquele momento. Uma sensação de que, a partir de então, nada poderia dar errado.
 
O dia seguinte era 29 de julho. Por mensagens combinávamos de nos encontrar ainda aquela tarde. Foram rápidos e densos os passos dados pelos pouco mais de 1400 metros que separam a Rodoviária e a antiga Estação Ferroviária. Porém, eram ainda dados com timidez. Tanto os meus, quanto os dela. Conhecíamo-nos. E só. E percebi que tinha mais em comum com aquela mocinha do que com qualquer outra que eu conheci.
 
Passou-se um dia ainda. Ela pensava em mim. E justificou que eu merecia isso por ser "lindo, fofo e barbudo". Barbudo eu sabia que era. Acho que mesmo que não tivesse barba eu ainda assim seria barbudo. Quanto a lindo e fofo, eu não tinha como avaliar, mas o importante é que ela assim me via. Eu queria vê-la. Mas decidi que seria melhor deixar passar um dia. Chegou então o dia 31, quarta-feira.

"Quiçá antes ainda". Estas palavras, despretensiosas, escrevi-as para confortá-la. Eu gostei de escrever "quiçá". Parecia-me elegante. Ela gostou de ler "antes". Era-lhe um alento. Mais ainda por ser sua folga (escala cinco por um, um sistema cruel, em minha opinião). Poderia não me ver naquele dia, mas a mensagem lhe esperançou. Eu queria e podia vê-la ainda. E eu a aguardei após minha jornada. E ela veio. Passinhos vagarosos sobre os paralelepípedos da Paraíba após olhar cuidadosamente à direita e à esquerda - temendo o aparecimento repentino de um carro à toda velocidade -, ainda que a rua seja mão única. E saímos.
 
Subimos a rua Ottokar Doerffel e seguimos pela Visconde de Taunay. Não, não são duas ruas diferentes. Trata-se da mesma sob dois nomes diferentes para homenagear gente que nem sei se era efetivamente digna de homenagem. Sim, também dos nomes das rua falamos. Ou foi em outro dia? Nem lembro. Tantas vezes já trilhamos esse caminho... Mas são outras histórias em outro tempo a se contar. O importante era o shopping. o mall, como ficaria melhor dito em inglês. Estivemos lá porque um dos meus objetivos no dia era comprar um par de tênis. Pois, um par de tênis. O meu estava furado. E eu estava usando aquele furado. E eu a convidei para isso... Absurdo, não? Como ela aceitou saiu comigo? Não faço ideia...
 
Mas não importa agora. Importa a sacada do shopping, à qual chegamos depois de concluir que não havia filme que merecesse ser assistido. Eu, tênis furado, jaqueta velha, furada sob a axila, desajeitado. Ela, graciosa, óculos de aro grosso avermelhado, blusinha rosada, celular na mão, protegido por uma capa marcada pelo desenho de gatos. Falávamos sobre a casa da frente, uma edificação antiga, bonita, bem localizada. Cheia de reentrâncias, sacadas, aberturas e janelas. Ela colocou meu braço sobre os seus ombros. Eu não tinha tido ainda a coragem de o fazer. Encostou a cabeça em meu ombro, e eu encostei meu queixo sobre sua cabeça. Falávamos baixinho. Até que ela ergueu a boca e eu desci a minha. Os lábios se encontraram. Espontâneo, belo e delicioso encontro. Não tenho como expressar melhor. Demoramo-nos um tempo enorme ali. Ou talvez enorme tenha sido o acontecimento...
 
O tênis? Que tênis? Ah, sim, eu o comprei. E ela me acompanhou na compra. Mas, nem o tenho usado. Fica para outra ocasião. Prefiro viver agora aos beijos com ela.

Sidney Azevedo
O beijoqueiro
(depois de saber como isto e bom...)
 
Post scriptum: Parabéns a nós, Deyse.