sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Resposta

Desafio

Recebi um número de Jéssica Michels esses dias atrás, o número nove. Jéssica é jornalista e fotógrafa e me passou esse número porque eu curti a postagem que ela fez no Facebook fazendo dezoito revelações sobre sua vida. Isso é parte de uma brincadeira que iniciou no Facebook e que tem mobilizado as pessoas no sentido de fazerem revelações mais pessoais do que aquelas que em geral as pessoas com quem se convive já têm conhecimento. Resolvi aderir à brincadeira, apesar de ela não ter avisado que quem curtisse sua postagem receberia um número. Seja como for, ei-las:

1 - Dizem que a casa em que cresci era assombrada. Não tenho como afirmar se bem ou mal assombrada. Só dizem que era assombrada e ponto. É o que diziam os vizinhos e alguns que lá passaram a noite e que testemunharam eventos curiosos. Dizia-se que uma senhora fora enterrada naquele terreno da rua Guarapuava exatamente embaixo do corredor central da construção, que ligava as duas grandes salas. À noite, quando o silêncio reinava absoluto, era discernível o som de passos vagarosos. Sim, também eu ouvi passos. Mas, sinceramente, ainda acho que devia ser um gambá... Tanto que, depois que meu pai capturou o que andava pelo nosso sótão, os passos se findaram.

2 - Esta talvez seja surpresa especialmente para aqueles que estudaram comigo na faculdade de jornalismo: sou católico praticante desde os treze anos. À época eu entrei no grupo de liturgia da paróquia Cristo Ressuscitado, ainda sob a administração do pároco Luís Fachini. Entre as atividades que exerço atualmente na comunidade que frequento estão as de ministro extraordinário da Eucaristia e de coordenador de liturgia. Já tomei parte em grupos de jovens, já fui catequista e já integrei grupos de estudo ligados à Igreja. Muito da minha formação intelectual se deve à minha participação na comunidade eclesial e a religiosidade tem importante papel na minha compreensão do mundo, pois a manutenção do dificílimo equilíbrio entre o lado religioso e o acadêmico depende de uma razão aberta e capaz de ouvir argumentos os mais diversos.

3 - Uma das maiores vergonhas da minha existência é não saber andar de bicicleta. E uma das minhas maiores raivas é não poder mandar um "fodam-se!", andando de bicicleta, às "concessionárias" do transporte coletivo de Joinville.

4 - Durante algum tempo inventei e sustentei a história de que morei em Portugal por três anos. Saibam que é mentira. Até hoje não botei um pé fora do Brasil. Começou com uma brincadeira que fiz no dia do vestibular do Ielusc, entre os candidatos que contavam histórias sobre viagens que me pareceram muito fantasiosas. Inventei essa baseado no fato de que sou descendente de portugueses e de que tenho um modo de falar que, dependendo da situação, revela minha ascendência. Decidi manter a lorota porque sempre chamava atenção e porque gerava situações excelentes para testar minha capacidade de improvisar. Acabou, entretanto, se tornando uma coisa que eu não consegui desmentir e que ficou intocada até, talvez, agora.

5 - Um dos meus melhores companheiros desde a infância foi o meu Dinavision 4. Eu o ganhei no dia 15 de dezembro de 1995, pouco antes do meu aniversário de seis anos, e fiquei frustrado na ocasião porque eu queria um Supernintendo - que era então o videogame da moda. Ele "faleceu" há pouco mais de um ano, em 7 de outubro de 2012. Eu jogava Battle Tank na ocasião, e tinha completado a quarta missão - eu almejava alcançar a nona e superá-la - quando houve a pane que me forçou a deixá-lo em seu féretro - uma singela caixinha de sapatos que o guarda até hoje... Não poucas vezes ele me ajudou a enfrentar as minhas crises quando me desafiava a terminar os jogos ainda incompletos, lembrando-me a certeza que eu sempre tive de que, em tudo, havia sempre uma segunda via.

6 - Coleciono alguns importantes feitos em termos de leitura. Comecei a ler aos três anos com um livrinho infantil d'O Patinho Feio. Aos catorze anos, já tinha esgotado a literatura de Júlio Verne presente na Biblioteca Pública Municipal Rolf Colin e passava à prateleira que ficava ao lado e continha os livros de Machado de Assis. Também aos 14 li uma série de estudos sobre a Escola de Frankfurt (sim, se você estudou Comunicação não se enganou, é aquela do Adorno, do Horkheimer, do Benjamin, do Habermas etc.) que continham fragmentos dos originais e os interpretavam aplicando a casos presentes no Brasil. Aos dezessete eu li as três críticas de Immanuel Kant e já tinha passeado por toda a literatura nietzschiana - à exceção de Assim Falou Zaratustra que, não sei por qual razão, não li até agora...

7 - Tantas leituras, porém, não me impediram de acabar trabalhando num serviço braçal depois de formado. Sem saber como reunir outros formados para tentar fazer algo como uma cooperativa e com vergonha de implorar por um emprego no campo da comunicação, me vi trabalhando com logística numa agência de encomendas na rodoviária. A princípio, eu atendia clientes e emitia fretes, como um caixa. Mas após a terceirização do balcão da agência passei a fazer a parte braçal do serviço, mortificando, um pouquinho a cada dia, a meu ser acadêmico. Hoje estou livre desse pesadelo. Mas estes seis meses só não foram os piores da minha vida por conta da revelação seguinte.

8 - Foi nesse período, o mais difícil da minha história até agora, que fui capaz de me enternecer por alguém. Até então eu era um bloco de gelo e me congratulava por isso. Não que houvesse algum motivo especial para isso. Penso que era porque eu achava ótimo o fato de não ser como os rapazes que tinham uma inexorável necessidade de estar com alguém. Mas era talvez mais provável que isso se devesse a alguma das minhas diversas teimosias sem motivo. Enfim, seja lá qual fosse o motivo para tal resistência a me envolver com alguém, até 31 de julho deste ano eu não sabia quão transformador podia ser algo tão singelo como um beijo. Uma pequenina moça - pequenina mesmo - me tirou do profundo entorpecimento moral no qual eu me metera e me fez rever o colorido da vida que eu perdera.

9 - O momento de maior pavor que experimentei até hoje foi quando minhas pernas decidiram parar de andar sem nenhum motivo em meados de 2008. Até hoje não faço ideia de qual foi o problema. Só me lembro de ter caído na rua Imperatriz (Floresta) com uma estranhíssima sensação de quarenta quilos em cada perna e de ter ficado ali, sem saber o que fazer, entre chorar, gritar e emudecer, por quase dez minutos.

Sidney Azevedo
Revelado?
(são revelações mesmo?)

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Poesia? - II

Onipresença

Sinto que devo algo...
Sim, devo ainda!
Senão em rima, como outrora,
sem pretensões métricas agora
quero deixar a letra correr.

Virar a noite contemplando
a grande árvore da vida,
a beleza holística da obra completa!
Seria repleto de maravilhas o amanhecer.

Seria. Não o foi.
É ainda nos pensares
que revivem tais belezas.
E a cada minuto,
em que o arrepender-se de não ter sido
fica evidente novamente no ser,
todos os tempos o tempo todo
resolvem se juntar
e tornar o hoje
uma vontade do ido
no caminhar para a manhã seguinte.

Os passeios imaginados,
os aprendizados planejados,
umas cartas enviadas,
os desenhos rascunhados,
tudo revive.

Dói-me responder
quando a bicicleta me pergunta:
"Quando comigo vens andar?":
"Não sei...". Não tenho ainda resposta.
 
Sidney Azevedo
O que é devido?
(Não posso revelar).

domingo, 24 de novembro de 2013

Poesia?

Dever

Sinto que devo algo
À vida que ela me deu;
Não sei dizer o que era,
Nem como fiquei eu.

De lado para a imensidão
Lançava brisas sobre mim
O oceano de calor que via.
Coragem faltou ao fim.

Sobre as quatro colunas
Elevada esteve a alegria.
Aberta ela esperava,
Eu não conseguia.

Talvez pudesse
Assistir a porta dos fundos.
Não que não tivesse a chave;
Não conheci esses mundos.

Se nelas tivesse chegado,
Mudança de mundo seria.
Agora já é tarde.
Seria?

Sidney Azevedo
O que devo?
(Devo ainda...)