quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Matriz de sensibilidade

Do you


Ininterrupta, uma interrogação bruscamente interrompida interpela a mente passante do transeunte que, inquieto ante o cântico rouco (ou rasgado?) de um senhor que brincava, no ônibus, como se motorista fosse. Doente? Da mente passante que tanto passava ao longe talvez. Discurso perdido do qual só se pescava algumas poucas palavras: Curitiba (gemidos roucos ritmados quase silábicos), Por' Alegr' (outros ritmados gemidos silábicos roucos), Ja'aguá (rouquidão, ritmada rouqueira), Bu'em'au (arroubo!, novos ritmos roucos). Entremeado, ininterrupto como a paisagem mutante na janela. Lojas, gente; atividade! Dentro, porém, o silêncio dos outros, taciturnos. Mas o rouco ruído constante seguia. Doente? Talvez. Mas logo a culpa: "será que devo me sentir incomodado com o ser do outro, com sua doença?" Já houve quem raiva tivesse da roucura. Loucura, digo. Se é que há loucura na rouca voz. Loucura, na certa. O senhor imita um motorista. Não há dúvida. É louco. "Você", sem coragem de pôr um ponto de interrogação na pergunta, que necessitaria o português, o auxiliar no inglês evidencia o tom de questionamento. Há coisas que não se pergunta na língua mãe. O ônibus não pergunta. O homem rouco pergunta. E uma moça, ao lado, lhe responde. Numa língua que não se entende, a não ser a dos olhos. Loucura. Rouquidão! Eis a palavra. Você...? Eu!? Eu o quê? Vede, não há tanta graça nessa pergunta. Tem de ser como foi. A foto, a foto é prova da lucidez do instante e da falta de coragem de falar com a rouquidão.

Sidney Azevedo
Da loucura cotidiana
(Descrições, como são maravilhosas!)

domingo, 14 de maio de 2017

Como se faz um mestre? - Capítulo 7

Do desespero

Há muito tempo não escrevo aqui no blogue. E o que me traz a escrita aqui de novo é a falta de perspectivas para fechar o necessário para a qualificação no mestrado num prazo de dois meses. Talvez porque, até o momento, não consegui me tranquilizar e pensar o que é necessário, de fato, e experimentar fazer.

Qualificação, caso você não tenha passado por uma pós-graduação em nível de mestrado ou doutorado, é uma espécie de avaliação anterior à defesa da dissertação propriamente dita que tem duas funções, essencialmente: avaliar os encaminhamentos dados até então no trabalho e sugerir melhorias durante o desenvolvimento do trabalho.

Na pós-graduação que faço, é obrigatório fazer a qualificação até determinado prazo. Não a realizar até esse momento implica estar fora do programa. E o meu temor, precisamente, é ficar fora do programa.

O que é exigido para a qualificação? A princípio, pouca coisa: uma introdução e o primeiro capítulo pronto, além de um esboço do esqueleto dos demais. O mais difícil, pode-se imaginar, é o capítulo. E o é, de fato. Mas quando você não tem nada ainda, que fazer?

É precisamente nesse ponto que me encontro.

Mas, o que falta, efetivamente?

Bem, não me recordo se em minhas postagens já expliquei o que estou pesquisando, mas o faço aqui. Minha pretensão é traçar um panorama da identidade profissional jornalística entre estudantes de cursos de graduação em Jornalismo de Santa Catarina, professores e egressos dessas instituições.

Então, falta desenvolver um texto que dê conta, em termos teóricos, dessa noção de identidade profissional, e da metodologia proposta para a elaboração desse panorama, que é um survey, enquete ou "pesquisa de opinião" - este último termo muito pouco significativo a meu ver. Já tenho algumas coisas escritas, mas sem muita convicção.

Fora isso, embora não seja algo exigido para a qualificação, eu gostaria de ter também um teste prévio do questionário - que também precisa ser estruturado - para ter um retorno da banca de qualificação quanto às questões propostas e ao cenário de mudanças possíveis.

É muita coisa, porque envolve, além da preparação do próprio questionário, uma autorização da instituição a ser pesquisada e um retorno e avaliação a tempo da entrega do texto de qualificação que, não esqueçamos, é de dois meses (e ainda estou sendo generoso).

Que Deus me ajude.

Sidney Azevedo
Arrancando os cabelos
(Serenidade, onde andas?)