Geracional
Certa vez conheci um sujeito que era avesso ao tema da infância. Não que fosse a sua infância uma infância ruim. Ele brincou, galhofou e folgou de uma forma que poria inveja em Pinóquio, caso este existisse fora dos livros. Deu aos pais algum trabalho e aos avós muita alegria. Mas sua hostilidade ao tema da infância era de outra ordem. Era um problema geracional. É que não conseguia enxergar, nas crianças de hoje, a existência de crianças.
- Mas o que é uma criança para ti?
- Deves pensar que falo dos pequenos em si, os Joãozinhos e Mariazinhas empíricos que hão a brincar nas frentes das portas. Mas na verdade me refiro ao fim da essência de ser miúdo.
Seguiu-se um silêncio em que meus olhos fitavam severos, intimando-o a se explicar, pois até ali aquilo não me fazia sentido algum. Depois de remoer a expressão e os pensamentos, dirigiu-se destarte a mim:
- Olhe, a criança é um ser que não se dá conta de si mesmo. Não existe claramente um "eu" para ela.
- Então sugeres, se bem entendo, que os pequenos estão se entendendo como indivíduos, e cada vez mais cedo?
- Exato. É com gente igualmente adulta em controle com que se lida.
- Controle?
- Sim, esses indivíduos que ainda são chamados de crianças já são livres. Têm consciência de controle, de limite, tanto de si como dos outros. São conscientes de sua individualidade e solidão ante os outros também isolados em suas cercas individualizantes. O controle é a única espécie de certeza que tem um indivíduo sobre outro indivíduo, e é uma certeza que o indivíduo não tem sobre si mesmo. Em suma, meu caro, tenho saudades daquela criança que não sabia que existia. - - Simplesmente existia. Era isso que eu era e que já não há.
Ainda achava estranha aquela concepção. Pois crianças são crianças. E foi só hoje que mudei de idéia, passando a compartilhar a certeza desse meu amigo. É que perto do meio-dia, sentado no ônibus que me faz voltar para casa, vejo uma mãe e uma filha que chegam algo antes do motorista partir. A mãe deixa a filha no ônibus e lhe vai comprar algo.
A ordem da mãe era que a menina não saísse do lugar. Mas, irrequieta, ela olha à porta, e resmunga algo como:
- Sim, ela foi ao lugar certo! Pensei que não tivesse ido.
A criança é já um eu contra a mãe e o movimento.
Sidney Azevedo
Não-infante
(Em frente).
1 comentário:
Poderíamos até dizer que a criança de hoje perdeu a pureza do ser criança. Não existe mais o crer nos pais, sem dúvidas. Pai e mãe herói? Não há. Há apenas os progenitores e a criança que já tem passado muitos adultos para trás.
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