domingo, 2 de outubro de 2011

Conversas de rua - I

Criar, um ato espontâneo


Crianças gostam de criar coisas. Não é à toa que o radical de "criança" é "cria-". A todo momento a criança reinterpreta o mundo com seu olhar original, ainda livre de toda a massa de idéias feitas que nos embaralham as vistas. E foi sobre uma das criações que vi de uma dessas crianças que decidi escrever hoje.

Estava assim: o sol já se tinha posto e a luz das lâmpadas incandescentes formava um interessante tom avermelhado na rua. Eu voltava da faculdade para casa quando me deparei com um pai e um filho em frente a uma fábrica de produtos de plástico cá do bairro travando uma interessante conversa sobre um dos empregados da fábrica, conhecido por ambos.

- Pai, não é aqui que "trabala" fulano?

- Sim, filho, ele "trabala" aqui.

- Pois vou "trabalá" aqui.

O pai permitiu-se um riso dilatado, sincero e espontâneo (ora, mas o que estou escrevendo..., o que é espontâneo, em geral, é sincero, ao menos na aparência - todavia, nem tudo que é sincero é espontâneo...).

- Mas tu nem sabe "trabalá"...

O filho olhou um tanto intrigado para o pai, sem entender o sarcasmo da observação dele. Talvez as crianças não saibam o que é sarcasmo, ou, pelo menos, como formá-lo e provocá-lo conscientemente.

- Não sei?

- Hem..., não...

Daí para a frente não sei o que conversaram, fiz uma curva em uma esquina que me distou deles. Também não me lembrei da conversa de imediato, apenas quando cheguei em casa e me lembrei de trabalhar em um texto. "Trabalhar? Porque não 'trabalar'?" foi a anotação que recuperei da memória e escrevi naquele momento.

O que seria, pois, o "trabalo"? Parece que só se removeu o agá na fala não totalmente desenvolvida de uma criança... Mas isso é deter-se à forma. O que há de fato nessa palavrinha aparentemente insossa, mas que vive na graciosidade da fala de uma criança, é uma dessas invenções infantis: não lhe importa saber que é o trabalho, mas sim que ele pode ser visto como algo que leva as pessoas a estarem fora de casa.

Não lhe importa talvez saber com exatidão o que é se faz nesse estar-fora-de-casa, pois pode aí imaginar haver brincadeiras e um pouco daquela liberdade que por vezes ela pode pensar em ter um pouquinho longe dos pais, sem a preocupação de não os ver, que só assalta a criança quando lhe atinge em cheio a solidão.


"Trabalo" não é trabalho. Parece ser algo lúdico. Um jogo, talvez até um estado de espírito. É pôr à mesa o intuito de se fazer algo necessário com alguma diversão. Algo que é da vida retirado no dia em que a força de fazer pesa mais que a de vontade de se divertir. No dia em que, em suma, se se torna "adulto"...


Sidney Azevedo
Em não-trabalho
(Anti-trabalho?)

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