sábado, 9 de março de 2013

Quintal - II

As flores de plástico não morrem

Mas as que não são de plástico vivem na memória de quem as viu, tocou ou cheirou.


Mais uma noite aguardada no quintal aqui de casa. A cada ano são três as floradas de dama-da-noite. Dezembro, janeiro e fevereiro. Sendo que a de fevereiro é inigualável. Carrega-se o pé todinho ao longo das primeiras semanas do mês e na quarta semana começamos a sair todas as noites ao quintal para ver se já estão por desabrochar. Mas desabrocham em uma noite, já nada restando delas no dia seguinte a não ser um cadáver puído de tanto irradiar beleza. Fica um jardim entristecido, cabisbaixo, contrariando o verde da expectativa da véspera e o branco de alegria e vivacidade do grande dia, deixando um amarelado taciturno, saudosista da grande noite do dia anterior.

A presença de uma flor dessas muito nos ensina sobre a vida. Ou, pelo menos, sobre a inutilidade de achar que a vida é uniforme, retilínea, incapaz de sobressaltos, embora nos ensinem (antes, nos doutrinem) de que é assim que funciona.

Estude, trabalhe, estude, trabalhe, trabalhe, trabalhe, descanse, trabalhe, trabalhe, trabalhe, descanse, estude, trabalhe, descanse.

Só o que não se pode é pensar. Para pensar é preciso parar e parar é perda de tempo, que redunda em perda de dinheiro. Porém, pensar é a dama-da-noite que no meio da madrugada não te deixa dormir. Brilha do nada, assim que o cérebro começa a organizar tudo o quanto se passou no dia. Mas ela brilha um brilho urgente que, se não é percebido, perde-se. Sufocada pelo sono, aquele sono insone, mirrado e descontínuo, deixa para o dia seguinte a impressão de que algo importante ficou para trás.

Mas algo tranquiliza: ao fim, não é a flor que fica, mas a planta fincada no solo. Um pensamento pode ser perder, mas aí está aquele que, no íntimo, concebeu-o, podendo acalentar algo maior. A beleza da flor então é dar seu lugar a uma nova esperança lançada pela planta que lhe deu razão de ser. Ainda podes pensar. Nasceste para pensar! Liberta-te!
 
Sidney Azevedo
Cavalheiro-da-noite
(a vencer a vida notívaga)

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