domingo, 25 de setembro de 2016

Filosofia assistemática

A profecia contra as batatas do vencedor

Quando eu estava no ensino médio, sempre havia alguém para perguntar o que eu iria cursar. E a primeira resposta que me vinha à cabeça era filosofia. Porém, a resposta que a pessoa ouvia raramente era filosofia. Por quê? Bem, eu imaginava que a réplica seria algo do tipo: “Filosofia? Não seria melhor fazeres algo que dê dinheiro?”. Ganhar dinheiro... Filosofia parecia indicar um caminho de indigência. O destino zombeteiro estava no meio termo entre o andrajoso Quincas Borba - que, apesar de pobre, dizia com seu humanitismo que as batatas cabiam à tribo vencedora - e os profetas bíblicos - que se afastavam da sociedade para lê-la com maior clareza e denunciar os seus pecados.

(Sim, as referências não são à toa. Eram parte do que catei de leituras, conversas e rezas até então na minha história.)

Não sei o quê, exatamente, me chamava atenção na filosofia. Talvez o entusiasmo com que os professores se referiam ao fato de algo simples como pensar (sim, já reparastes como pensar é algo simples?) ser capaz de mudar o mundo. Geralmente a gente começa ouvindo a voz de Platão e de Aristóteles. Mais tarde comecei a perceber que, para que o pensamento mude o mundo, não basta pensar, mas exprimir esse pensar, argumentar, saber que valores sustentam o pensar. Questionar os valores, se preciso for. E penso que um dos valores que eu questionava era a necessidade de estudar algo que rendesse dinheiro.

Hoje entendo que isso é resultado de uma especulação que fazem com o futuro das pessoas. Há gente que quer ganhar dinheiro com as preferências de estudo individuais. Preferências, ali, deveria estar entre aspas. Mesmo com o ensino de filosofia sendo obrigatório, eis-me aqui jornalista hoje. Alegam que essa nova proposta de ensino médio, tenha ela ou não filosofia - uma vez que já disseram não ter tendo instantes em seguida voltado atrás... - visa evitar a evasão escolar. O argumento parece ser: “A escola é chata, então o jovem sai da escola. Para que o jovem fique na escola e não incomode com sua presença a paisagem urbana podemos dar a ele a oportunidade de escolher o que estudar, não?”

(Se, eventualmente, não entendeste o que significa “paisagem urbana”, leia “rua”. É que com “paisagem urbana” talvez pareça mais claro que aquele argumento, fictício ou não, não se dirige tanto a quem mora fora de condomínios.)

Oportunidade de escolha... Soa bonito, não? Infla a sensação de liberdade ao sujeito. Parece mais um supremo triunfo do super-homem nietzscheano. Permitam-me, aqui, levantar o indicador e também um porém. Esse super-homem mover-se-ia no interior de barreiras desenhadas por outrem? Reparastes que a oportunidade de escolha ainda assim te fecha na escola? Isto é, a escola seguiria chata e a motivação para a evasão também. A preocupação não é com a evasão. Muito menos com promover a liberdade.

Liberdade, aliás, não vos parece um conceito muito, digamos, espaçoso? É uma ideia evocada para justificar muitas coisas. Recorda-me a promessa em geral ligada à ideia de felicidade. Ser feliz e ser livre parecem-me coisas possíveis. Mas a reificação dessas sensações geram conceitos perigosos e sufocantes a quem os almeja. Não é difícil perceber um discurso mais ou menos nesta direção: “A felicidade está atrás deste curso”; “Este é o caminho para a construção da sua liberdade”… Já faz algum tempo gosto de evitar estas duas palavras. Alegria e autonomia não são surreais. Têm caráter contingente, é verdade - a primeira em termos de duração; a segunda em termos de limites -, mas são alcançáveis.

E foi dentro do limite dessa autonomia que caí no jornalismo. Haviam-me dois limites mais claros. O primeiro era o fato de Joinville não ter um curso de filosofia à época. As opções mais próximas eram Curitiba e Florianópolis. Mas eu não conseguia me imaginar morando tão longe (e às vezes me pergunto se aos filhos de operários, outrora gente do campo que as circunstâncias levaram a se estabelecer em Joinville, essa não seja uma mentalidade comum). A segunda circunstância era financeira. Dentre os cursos disponíveis pelo Prouni o jornalismo era o mais próximo à filosofia que eu encontrei.

(Lembro-me que havia poucos cursos disponíveis em Joinville então, e a maior universidade nem disponibilizava vagas para o programa, sendo que havia limites dentro de outros limites.)

Se eu tivesse seguido as pressões sociais (e a principal pressão social se manifestava pelo que minha mãe queria) eu seria hoje advogado ou engenheiro. Dentro dos limites que me haviam, escolhi o que julguei mais próximo da filosofia e não me arrependo.

Não sei, porém, se eu seria um bom filósofo. Nem se seria um bom estudante de filosofia - uma vez que, a rigor, a filosofia se faz do pensar. Mas todas estas linhas desencontradas vêm por conta da menção feita a desobrigar os estudantes do ensino médio de cursar a disciplina de filosofia. Digo menção porque mesmo a simples menção soa como um teste. O que penso sobre tudo isso é que falta o estímulo ao pensar. Privar o estudante de pensar é o maior crime. E quase todas as coisas que se ouve remetem à possibilidade mais intensa de privação do pensar. Já se é privado de pensar no trabalho, e, mesmo quando se pensa, em geral é algo guardado para si.

(Será taxado de louco alguém que grite no coletivo: “Vocês não se fartam disso tudo?”, da mesma forma que aquele que insere tantos parágrafos entre parênteses).

O governo federal da Transilvânia (perdoem a piada, parece-me inevitável imaginar o "presidente" de capa e o "chanceler" com dentes pontudos) parece ter uma pretensão bizarra de privar do pensamento por meio de um discurso de liberdade. Mas talvez haja um sentido nisso. Matam a autonomia para que haja liberdade, no sentido pleno do termo, a grandes grupos e empresas educacionais, nacionais ou não. Isto seria dar as batatas ao vencedor. E o vencedor é propriamente um super-homem? Bem, isto varia de como se lê Nietzsche. Mas penso que não. O super-homem seria o homem que, mesmo dentro de tantas barreiras, consegue chegar ao pensar. Seria aquele no qual Deus (desculpe, Nietzsche, mas ele não está morto) age de forma a despertar a consciência em meio às correntes e profetizar.

Privar alguém de pensar é uma forma de escravidão. Será preciso batalhar para pensar? Espero não precisarmos chegar a esse ponto.

Sidney Azevedo
Pensamento desorganizado
(a ver...)

1 comentário:

Estrela disse...

Pois é, Sidney. O Governo quer embrutecer nossos alunos. Deixando de ensinar a Filosofia, não vamos conseguir formar cidadãos críticos. E isso é tudo que o Governo espera: que as pessoas não sejam capazes de tirar suas próprias conclusões, que sejam incapazes de pensar por si mesmas. Assim é mais fácil manipular.
Boa noite. Abraço!