domingo, 24 de fevereiro de 2008

Ficção é sentir

Para um pensamento do pensamento
Quando escrevi o texto jornalfictício Bratráquio atravessa rua e bate em robô indefeso não senti nada de muito especial. Sabia perfeitamente a espécie de coisas que um texto do género - leia-se jornalístico - poderia oferecer. A única espécie de movimento do ânimo ocorreu durante a concepção da idéia. Não por ser a forma algo inesperado - a idéia de forma acarreta consigo a peculiaridade de adaptação do amorfo ao pensamento, de algum modo então já projetado neste -, mas sim algo que aparece e impacta a materialidade do pensamento.
O campo material do pensamento - sim, eu sei que muitos me ultrajariam agora - é o que organiza e classifica as sensações corporais, sendo que muitas delas, embora indiquem um caminho - e este é um dos significados de sentido - são isoladas e esquecidas quando a projeção feita sobre elas é a de rasa, nula, negativa ou inútil. O cinza das paredes está na visão mas se o esquece porque não é um saber necessário à segurança do homem. É uma informação descartável, à medida que não assume a possibilidade de indicar outra coisa.
Se a percepção do artista de verificar nas coisas ínfimas este indicar outra coisa, certamente não está ele longe do agricultor que percebe na mudança de posição do passáro a proximidade de um temporal que lhe pode botar a perder a colheita. Mas são, e ambos o sabem, materializações mentais. E o que se conhece parece sempre preso à grade do que já se sabe. Que nos impede de sentir através de novas construções mentais? ou através, quem sabe, da desconstrução dos padrões? ou ainda, de um esforço de pensar a inexistência de tais padrões?
O sentir é um pensar através de padrões - eis o dilema da ciência: cadê a pretensa objetividade, se desde então não se pode ter ou afirmar com certeza a existência do fato sem que se considere a possibilidade de padronização (de método...). O fato é um objeto padronizado, caracterizado por uns modos de identificação, sendo o principal deles o certo do seu ser. A riqueza de nossa língua permite uma aproximação ao estar que só há em nosso pensar de tal certeza do ser do fato.
Não me parece ser outra coisa sem que o seja o medo o impecilho e a trave de uma nova possibilidade de conhecimento. O homem não quer tatear pelo escuro da divagação, por que aí não encontra certeza alguma... Talvez seja necessário ao conhecimento humano um retorno ao repensar as coisas, pondo a certeza no desconhecido, para descobrir novos mods de sentir e conhecer.
As monografias e coisas de faculdades e o próprio jornalismo são vítimas desta necessidade de certeza, que só se justifica com a noção de progresso do conhecimento com a sua estatização no entorno de algumas formas consagradas de pensar, de constatar e de reter informação no contingente - que talvez se possa chamar contingenciável, pois que é só também uma projeção de si sobre os fatos, caracterizando as reformulações das certezas que podem haver em um ser humano. A sensação exige uma crença de veracidade no que se apresenta e um culto ao passível de tal crença, no ir de entendê-la. Mas sensação concreta me parece uma trama de ficção (enquanto se pensar isto como aquilo que depende de se coser as idéias de modo a por credibilidade ao pensamento) baseada na sensibilidade do ideal.

Sidney Azevedo
Se viajei...
(...arre!, já me cansava de tentar resolver este problema,
mas o gosto de sua insolubilidade permanece)

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