De como uma paralisia cerebral pode virar um terremoto.
Outra expressão liga a idéia de terra ao plano dos prazeres. Para entender basta pensar como estóico… E de que servem os estóicos? Boa pergunta. Como não sentem, servem dor tão somente. São os que se propõem a testemunhar o nada, a morrer se isto for necessário ao seu ideal (se há um ar nitzscheano nesta frase, é-o efêmero). Servem dor quando uns lhes querem imitar em busca de uma energia cósmica de sossego. É curioso…, pois esta energia será gasta para, precisamente, estressarem o conceito de espiritualidade.
São terremotos e terremotos de que me lembro, mas penso que, se continuar a dar exemplos, passarei por ridículo. Deixo então um muito bom episódio.
Não, vó. Qual era o fenômeno antigamente?
Pois vou dizer. Era um velho – mas mais velho assim que nem eu – alemão, da Alemanha mesmo, que contava uma história lá pelos meus 17 anos de idade. Já vai longe, não?
Vai mesmo – disse o pai.
Sim… Isso, o terramote, é o movimento que a alma recomendada faz quando não tem saído do corpo.
Indagou o pai:
Tens como dizê-lo melhor?
Pois é. Contava esse velho que anos antes da guerra que fez eles correr de lá uma moça havia morrido, jovem como devia ser eu na época [fez então uma pausa como que para imaginar a tal moça]… Pelo que dizia, devia ser uma dessa, como é?…, ai, sim: paralisia cerebral; como a que teve o falecido Antônio Aguiar do Itaperiú. E creio que deve ter sido velada e enterrada antes de vinte e quatro hora…
Um enterro não acontece antes de um dia!… – redargüiu o pai.
É mesmo. Não aqui, e acho que lá no teu Portugal também não, conjeturou a avó.
Sim – anuiu.
Mas sabe como é alemão. Geralmente apressado, querendo trabalhar muito, como se se ganhasse dinheiro na labuta. Decerto inventou a família de enterrar a moça logo, de modo a fazer que ela fosse logo aceita no céu. Mas não era a hora… Ela estava em terra, daí o terramote… A terra se revirou, revirou, e acharam a moça sentada na cova três dias depois. E nesses três dias viveu com a carne da mão. Tava toda roída.
Essa para mim é nova… e muito boa história – disse eu.
Se é verdade não sei, os velhos é que contam isso.
Não faz mal em contar vovó, queremos mesmo ouvi-las.

Este prefixo – “de” – lembra, ao menos para mim, um tratado qualquer, pois, lá se trata da estética transcendental; aí, de um modelo de óptica; e acolá, da possibilidade do universo ser de cristais de gelo. Entretanto, dificilmente as linhas dos referidos tratados esperaram criar esperanças de uma visão mais universal em alguém. E só me parece que neles alguém se possa afirmar para apoiar um pôr termo à noção de terremoto.
“Movimento de terra” é o básico da noção. E daí?…, diz-se se esconde alguns outros conceitos possíveis? Há-lhos aos montes: se terra é o conjunto dos recursos naturais para um economista, seu movimento implica a transplantação (outra palavrinha curiosa) para o trabalho e manufatura dessa mesma terra. Uma terraplanagem é isto de um modo mais evidente. Não, não é necessário o evidente…, só é preciso dizer que pensar o Financeiro, esse ente balofo que se diz determinado, é continuar a jogar uns tantos de pessoas longe de suas casas e vidas sem coisa alguma e derrubar alicerces que não os são – isto em uma intensidade de -5% de graus na escala Richter do instituto de “pesquisas” Dow Jones.Outra expressão liga a idéia de terra ao plano dos prazeres. Para entender basta pensar como estóico… E de que servem os estóicos? Boa pergunta. Como não sentem, servem dor tão somente. São os que se propõem a testemunhar o nada, a morrer se isto for necessário ao seu ideal (se há um ar nitzscheano nesta frase, é-o efêmero). Servem dor quando uns lhes querem imitar em busca de uma energia cósmica de sossego. É curioso…, pois esta energia será gasta para, precisamente, estressarem o conceito de espiritualidade.
São terremotos e terremotos de que me lembro, mas penso que, se continuar a dar exemplos, passarei por ridículo. Deixo então um muito bom episódio.
Havia uns dois dias do terremoto à brasileira, e discutíamos eu e meu pai ainda sobre coisas como falhas, tectonia, movimento de rochas, circunferência elíptica e discutindo as teorias que nos levaram a adotar tais termos. A mãe tinha saído e a avó estava a dormir. Estava. Logo acordara. Ouvia nossa conversa à porta sem entender o que era dito, mas remoendo uma palavra.
Sabem vocês o que é o terramote, que dizia antigo?Não, vó. Qual era o fenômeno antigamente?
Pois vou dizer. Era um velho – mas mais velho assim que nem eu – alemão, da Alemanha mesmo, que contava uma história lá pelos meus 17 anos de idade. Já vai longe, não?
Vai mesmo – disse o pai.
Sim… Isso, o terramote, é o movimento que a alma recomendada faz quando não tem saído do corpo.
Indagou o pai:
Tens como dizê-lo melhor?
Pois é. Contava esse velho que anos antes da guerra que fez eles correr de lá uma moça havia morrido, jovem como devia ser eu na época [fez então uma pausa como que para imaginar a tal moça]… Pelo que dizia, devia ser uma dessa, como é?…, ai, sim: paralisia cerebral; como a que teve o falecido Antônio Aguiar do Itaperiú. E creio que deve ter sido velada e enterrada antes de vinte e quatro hora…
Um enterro não acontece antes de um dia!… – redargüiu o pai.
É mesmo. Não aqui, e acho que lá no teu Portugal também não, conjeturou a avó.
Sim – anuiu.
Mas sabe como é alemão. Geralmente apressado, querendo trabalhar muito, como se se ganhasse dinheiro na labuta. Decerto inventou a família de enterrar a moça logo, de modo a fazer que ela fosse logo aceita no céu. Mas não era a hora… Ela estava em terra, daí o terramote… A terra se revirou, revirou, e acharam a moça sentada na cova três dias depois. E nesses três dias viveu com a carne da mão. Tava toda roída.
Essa para mim é nova… e muito boa história – disse eu.
Se é verdade não sei, os velhos é que contam isso.
Não faz mal em contar vovó, queremos mesmo ouvi-las.
Aí a conversa desceu de comboio para Queluz ou de zarco para o Saguaçu, pouco importa agora. Interessava resgatar esse momento. Penso como seriam os navegadores voltando do oceano, onde jazem aqueles que ficaram, e que quando se levantaram provocaram o terremoto. Ou no que deve ter sido a abertura do mar Vermelho. Teorias são muitas. A Verdade, se é que existe uma só, transita-lhes e nada é mais agradável do que pensar a verdade quando nasce a andar em outra.
Sidney Azevedo
Descortinar verdades
(e continuar a encontrar muros…)
Sem comentários:
Enviar um comentário