Só uma breve reflexão sobre os critérios de noticiabilidade
Quem sou eu para discutir sobre noticiabilidade? Mal leitor sou (e, aliás, se bom redator fosse, deveria ser muito mais direto: ‘mal sou leitor’; mas, não o digo, no entanto, por que creio que um tom menos árido de escrita – e aridez cá é vista como indigestão de um texto que nem intercalações tem para que dela se reclame – não torne a vida de uns homens por aí mais veloz por sua mera sintaxe reforçadora do ideal de correria dos tempos modernos atuais, onde não só basta saber muito de sua área, mas um pouco possível daquilo que está distante de si e de seu campo), e menos ainda jornalista para que me atreva dizer algo sobre o texto jornalístico.
Peço perdão ao Leitor desde já pelo mui extenso parêntesis que acabei por escrever no anterior parágrafo. Ocorre que devo pedir perdão desde já caso termine por defasar o Leitor. Pois este é uma criatura que parece vir das profundezas do inferno para exigir alguma coisa do jornalista: “Eu quero isto deste modo, ouvistes bem?, deste modo!…”. Ele é o superego do jornalista, mais do que a empresa onde ele trabalha, se bem que ela também tenha lá sua força na construção desse Leitor de Tal, que tem, em alguns casos, até sobrenome (jornais começaram servindo à elite, não?).
Penso curioso esse medo do Leitor para uma média que se pretende independente. Não vivo no meio com intensidade devida, mas não é sempre, ou pelo menos com a mesma força, que ouço alguém de televisão dizer pensar no Telespectador. Ele aparece, aos que fazem tevê, distante, bebendo cerveja nas mesas de bar, com problemas outros. O vínculo é, cá, com a estrutura formal de execução. Volto a repetir, é o que tão somente acho. Caso o que digo seja tolice peço desculpas por diminuir o tamanho do Telespectador ao cortar-lhe os pés.
Tenta-se mensurações do Leitor, e uma dessas, decisivas, cá em Joinville, é a que se fez sobre o jornal a Notícia, que resultou na modificação do formato standard (que interessantemente significa padrão…) para o tablóide. Tenho medo de ser o único, no mundo atual, que detesta resultados de pesquisas – sejam científicas ou de opinião (aliás, os critérios não são tão distantes) – por pensar que posso estar a ser enquadrado num retrato que nada diz do Sidney homem de 18 anos, descendente de portugueses, caboclos e alemães que morou um tempo na Terrinha, que se integra a movimentos sociais quando lhe dá na telha, católico praticante, ex-seminarista, sem posição política claramente demarcada; mas somente de um Sidney número binário, que optou num momento qualquer, por uma descrição do que esperaria em um jornal.
Esse empirismo institucionalizado (a expressão parece grandíloqua, mas se desfaz a impressão se a analisar, senhor Leitor – de ti não tenho medo) só reforça a autenticidade de existência do Sr. Leitor. Não se quer discutir metafísica hoje, porque o Sistema Capitalista, o Proletariado, o Mercado, o Leitor, a Empresa, o Estado, e também aquelas que me parecem as maiores das ficções, a Sociedade e o Número, podem desaparecer na maiêutica do “O que é?”. Palavras não podem transmitir algo em plenitude, mas só lhe espalhar o odor.
“Fazei conta!, é a matemática que salva!; metei a estatística no gráfico!; criai o texto no formato!; jogai o real no ideal prefigurado implantado no teu ideário!; a metafísica?, ponde-lha na História da filosofia!; e vede se vos não esqueceis de criar vós próprios vossos métodos”, são os que me parecem serem brados nas escolas – aliás, o último mais cruel, pois só engana o aluno com a existência de uma originalidade. E para não desperdiçar o título, diz-se cá que é o medo do Leitor a razão da necessidade dos critérios de noticiabilidade, o que é evidente por si mesmo. Criar novos critérios é reafirmar o medo do Leitor, mas não deixa de ser uma possibilidade agradável, caso se pense em mudar com eles a existência do Leitor, jogar contra ele. Mas é uma idéia maldita, foge do padrão, do standard, que é neste caso adaptar-se à mudança (a Darwin dá-se muita ênfase: adaptação e evolução criam um duo a que a retórica diria que acabam se casando pela conjugação do discurso com a prática, pela mera aproximação, dando a idéia de que se confundem).
Penso que se deve dar ao Leitor ou outra face, ou mudar-lhe o nome ou simplesmente se o esquecer. Penso ser uma saída. Não espero com isso resultados. Resultados contam pontos no mundo do Financeiro – outra ficção gramática –, um desmundo onde o que se pensa escrever é assombrado também pelo fantasma do Produzir. E há quem diga que a Idade Média foi ruim… Deus, Diabo, Céu, Inferno, Purgatório, Anjos e Arcanjos, Demônios, Indulgência, Perdão, Amai-vos Uns aos Outros, Perdões, Rei, Divino, Feudo, Igreja e outros tantos fantasmas pouco são quando vemos o Hades a que somos lançados. Pensar que os jornais acabam por fazer isso rodar é cruel. Mas vá escrever contra: logo és fuzilado, e mesmo na Academia…
Sidney Azevedo
Uns vinhos a mais e se perde a Conseqüência.
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