Branco há-de ser papel.
E nele se há-de escrever.
Ainda que sobre si...
papel de rasurar e caderno escolar de anos atrás!
Não é o meu quarto a me alçar além de mim. É sempre o peso de uma obrigação a revelar sua insufiência. Pois o meu quarto não é um quarto. Ele é só um canto da casa - quiçá dela um oitavo -: aquele em que durmo... É por isso não ser meu. Tenho-o como coisa dista, branca, asséptica. Cirurgião do cadáver que é ele próprio não-putrefato!
Em o quarto que se diz ser meu não entro sem mãos recém-lavadas. Não me permito ali pulos. Não crio mundos de ocupado demais que estou a pensar em como dar a mim o privilégio de ser eu mesmo no quarto, pois ele nem deixa a mim o privilégio de ser eu. Desconfiado, sempre, nele estou a andar.
Em nada aí creio sem vistas meticulosas... Meus livros ficam insípidos, estando entre eles sem valor a constituição, o catecismo, a enciclopédia e o portifólio. Até dinheiro vira bloquinho de anotações. Ao extremo relativismo do nada forçado fico a comparar meu quarto branco... Some-se à consciência meu pequeno São Francisco e os ideais de pobreza, caridade e castidade. Num quarto branco como a paz. Alvo como uma nuvem trigueira. Mentira! Branco de paz não é cor!
É só um pedaço de queratina, uma pena de pássaro, que indica haver um outro modo de viver lá fora. E que meu quarto, sim, já fora outro. De azuis paredes de madeira, talvez o único a servir de passagem entre o quarto dos pais (pois este sempre é o maior, ainda que não sejam os pais a ocupá-lo) e o resto da casa, onde os buracos e os cupins indicam que pobreza aí é mera questão de disposição de matéria. Talvez também o único com um berço aos insetos fidedigno, acompanhado de um colchão sujo carcomido, à guisa de armário em dias de frio.
Ainda que nesse mesmo berço pretendesse meu futuro filho deitar tinha algo a me dizer esse quarto não mais haveria. Só a proposta de niilismo que à frente de mim vejo perder o sono. Está mais fácil dormir entre os azulejos verdes da sala (neste maldito calor é o que convém fazer...) ou entre as paredes cimentadas da lavanderia. Mas, tolo eu, cá fico, nesta alvura, pensando sempre em como fazer serem as coisas um nada. E esquecendo que minha vida só vale quando delas torno nota musical de acordeão.
Sidney Azevedo
Quatro voltas à rotunda.
(Isto, vades...)

2 comentários:
Meu quarto, de paredes marrom e cinza, torna-se um monstro, um alimento, um soldado para minha tristeza já dormente. A proposta de niilismo está dentro de meus olhos. Vejo tudo mudar, distante, caindo. Como vejo em você, também sinto-me um estranho tentando achar um lugar, o meu lugar, para aí poder ficar e ser um pouco parecido, sem minhas mascáras e espelhos. Agora vou-me, gajo, depois de enodoar seu espaço aqui com o meu vazio.
"Os soldados descem o abismo para chegar a mim
Longe se anda com a perna na cabeça
No lugar dos pés, as mãos
Ele anda sobre minha corda
Nem medo, nem sonho sente suas lembranças
Tanto faz se hoje estou morto sem pernas
Fica tudo assim sem sonhos"
Inté!
Jacson A.
Ei gosataria que vc desse uma lida: http://alessandrapassos.blogspot.com/2009/04/verdade-individuo-sociedade-religiao.html
Faça uma grande crítica! rsrsrss
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