domingo, 2 de agosto de 2009

As gavetas e a caixa mofada de papelão

Sobre pensamentos alheios
Além dos meus textos, há os textos dos outros que tenho de guardar. Mais precisamente, guardo-os em duas gavetas. Na primeira recolho os que gosto por despertar sentimentos bons e idéias geniais e na segunda disponho os que estimulam o pensamento na busca de algo que se aproxime da verdade – uma vez que não posso alcançá-la. Mas descobri que alguns dos textos repugnantes que leio também merecem ser guardados, a título de, digamos, “contraexemplo”. Acho que uma caixa de papelão habitada por traças e aranhas de teias viscosas é bem adequada a esses amontoados de palavras.
O primeiro texto da lista é relativamente recente, mas bem poderia ter sido escrito há uns setenta ou oitenta anos… É de autoria do atual senhor governador do Estado, Luís Henrique da Silveira. O tal texto se chama O DNA espartano e é facilmente encontrado na Internet devido à repercussão que causou após sua publicação em setembro de 2005. O que o torna repugnante? Bem, comecemos por esta pergunta: sabes o que é eugenia? Não? É um método de purificação racial, em que é extirpada qualquer anomalia que contrarie o ideal de perfeição pretendido. Não lembra um bigodinho ditador? Pois, o texto do governador compara a eugenia – que era uma prática comum entre os espartanos – com algumas possibilidades da pesquisa genética.
Embora elogioso à ciência, o discurso de LHS no texto reflete, antes de tudo, certos vislumbres mais dignos de previsões alquímicas do que de uma reflexão aprofundada sobre o conhecimento científico – e esse homem já foi ministro da ciência e da tecnologia, durante o governo Sarney, entre 1987 e 1988… A pesquisa genética não me parece ter como principal interesse dar aos pais filhos perfeitos e sem mácula, embora alguns interesses de mercado consigam já de antemão imaginar como vender o conhecimento da pesquisa em forma de técnica.
Os olhos deslumbrados do homem “moderno”, então visíveis no pensamento do governador, estão ligados não às benesses humanas que poderiam vir dos vários tipos de conhecimento – pois a ciência é só um desses tipos –, e sim à ganância obtusa de produzir mais crendo isso melhor. O beneficiamento da agropecuária é no texto dele um dos principais ganhos da pesquisa genética. Um resultado! Nós sabemos que não adianta isso para matar a fome no mundo, precisamente porque antes de sair do campo o fazendeiro fará o possível para auferir valor ao seu produto… Sim, o ruralista também pensa no resultado.
Mas a mais indignante de todas as frases é esta: “As pessoas poderão se valer da ciência, para evitar que seus filhos nasçam feios, deformados, deficientes ou idiotas” (grifo é meu). O filho, conforme o resultado do cálculo científico, poderia ser o que se quisesse. Pois apenas poderia, não será porque o que é humano até pode ser compreendido, não pode é ser asseverado.
Minha caixa de papelão espera seu primeiro depósito, e espera com mofo. Não me admira nestes ares joinvilenses esse mofo ideológico. Espanta-me é que seja tão persistente nesse colégio eleitoral.
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Sidney Azevedo
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O texto do "home" se encontra aí:
É só não ter preguiça de descer a barra de rolagem.

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