sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Não há nexo

O velho tirou da algibeira uma rota e pequena encadernação, similar a um daqueles catecismos que nos restam das distantes gerações quando a urna funenária da bisavó já anda à decomposição. Entregou-ma, e com ela, essas palavras: Vê lá, não te esqueças de carregar um livro sob o braço a cada circunstância em que te meteres.

A encadernação não era muito agradável de se ver, mas como os nobres de hoje em dia, valorizava-se a sua antiguidade, assaz evidente. Numas letras em baixo relevo na capa dura no qual muito pouco restava da tinta dourada que ali se imprimiu, o título: Pequeno diálogo sobre a negação da metafísica, de Nuno Fabre.

Sim, pequeno diálogo. Era costume do tempo antigos os autores mostrarem a vivacidade de sua argumentação em um debate imaginário - quando não transcrito de uma palestra real - que previa de antemão todas as possíveis acusações de ilogicidade. O melhor meio para se safar de tais problemas era o texto quase teatral do diálogo. Ainda que seja difícil imaginar um texto de Platão representado no palco.

"Jonas Fábulo: Muito me incomoda a metafísica, pois fala de coisas que não se veem.
"Conde de Paesca: Fico admirado dessa dúvida, o plano irreal da metafísica é o lugar mais indicado para a realização humana, para fora de todos os limites.
"Jonas Fábulo: Mas serão vós a não perceber que o plano metafísico é já todo planificado como uma camisa-de-força que não deixa o homem se mover?
"Ilo Ponderato: A base do problema dessa grade são os pressupostos. Os pressupostos são sempre encarados como imutáveis por conta da falta de certezas. (...)"

O interminável discurso continuava...
E eu atiro o livro à parede.

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