Laranjões
Ocorreu-me de nada publicar hoje. Pois que hoje me pareceu que nada parecia interessante para tanto. Mas, ao buscar alguma coisa entre as muitas paisagens que me deram estes olhos de curto alcance, algo vi que há muito não encontrava pelas ruas desta cidade empalmeirada (se me permitem o neologismo) - conforme notou uma colega.
Chamavam cá no Floresta - este bom bairro que até aonde sei é o mais folclórico da cidade -, embora aparecessem com alguma raridade ao bairro, de laranjões àqueles pacientes homens que andavam com aqueles carros-laranjas. Havia laranjões assim como houve também pipoqueiros ao Centro - e pena que quase não os mais há. Nada tinham a ver com laranjas de contas... Eram - não, engano-me, são, pois que o que vi hoje era um deles - os melhores vendedores que conheci. Não nos atendiam com olhar falso de gente interessada em vender o máximo para a comissão receber ao fim do mês, mas com o de alguém que espera a mocidade de um bairro chegar perto para com ela poder brincar, e divertir-se, como se se lembrasse de um passado distante e bom. Sorriam quase sempre. Lembro-me que quando descíamos de rolimã pelo tenebroso - à época - morro da rua Ibirapuera, estava sempre ao fim da rua um laranjão. Tinham ali eles certa freguesia.
Os guris iam ao seu encontro e compravam os sucos de laranja que o rapaz fazia em casa. Não eram aqueles comprados como alguns anos depois conheci eu, mas um suco. Não uma composição química que se pretende passar por suco. Não sei se era a sede que nos fazia pensar aquele suco superior aos que nossas mães faziam, mas o facto é que eram bons. Talvez seja até impressão mera minha pensar tão elevados os sucos...
Esses enganosos cursos de vendas ensinariam coisa muito melhor se os chamassem. E que bom que não os chamam, seria tenebroso ver usarem a felicidade de tais homens para vender. Arrependo-me já de tal sugestão. Embora até pareça que tal uso já ocorra. Ocorre?
E pensando agora, que incompatível o laranjão com o cinzento cenário: o cruzamento da Getúlio Vargas anterior ao trevo que leva ao Itaum. À esquina, a Cipla, fábrica morta de história polémica, de um controlo por trabalhadores e o mais... Outra esquina, o Americanas, chópim morto que nem saudades a alguém traz. Mais uma esquina, uma Praça, praça morta, da qual nunca soube o nome. Ao quarto canto, lojas mortas, desde aquela clínica veterinária à qual um bom pintor serviços prestou até ao perder de vista. Parte morta da cidade. O laranjão, por sua história, nada tinha de estar ali. Penso como foi fácil os fazer desaparecer. E também aos pipoqueiros. Deram aos homens velozes caixas metálicas. Que fazem sumir os aspectos de uma vida que só a pé se vê. As caixas encurtam nosso passeio, nossa paisagem, nossa apercepção. É por isto que se torna lúgubre o passeio. Mesmo aqueles escassos homens que se dedicam a tal actividade se tornam hoje sisudos, tristes, feios, incompatíveis com o cinzento cenário em que aparecem. Desolados ficam porque perderam a simbiose com os garotos. Se não há garotos, não haverá então laranjões. Não há mais garotos, há jovens (ou ao menos crianças que a si reivindicam tal título). Eu e toda uma geração, bastante recente que se diga, esteve entre um confinamento pela tecnologia em casa e uma vida livre, de livres apercepções. E eles, que vivem já totalmente trancados? Condicionados?
O que há connosco? vemo-los - aos laranjões, aos pipoqueiros, aos garotos trancados?, aliás, vemo-nos uns aos outros para começar?
Sidney Azevedo
Observador trancafiado
(E o sois tanto quanto eu...)
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