Benteja olhava a um retrato. Talvez dele próprio. Era um menino em camisa, jaqueta e calça escolares, azuis todas, com a perna esquerda apoiada ao pé, fazendo um leve arco. A mão esquerda, em punho fechado e colado ao corpo, ia na coxa da perna do mesmo lado, e a direita à cintura. Olhava fixo em frente com ar napoleônico. Só parecia não ter rosto. Como aquele escritor que conheceria, o menino, muitos anos mais tarde, como massa informe a face, uma não-face. Sim, Benteja é escritor, mas não, certamente, o que o menino conheceria. O menino, talvez, no fim, conheceria ninguém. Mas Benteja o olhava.
- Como posso me esconder de mim?, Como posso ter coragem de me negar um olhar?
Benteja negava ser o que era. Talvez quisesse, sim, ser nada. Ser nada, que seria? Ele já se tinha deparado com esse problema. Seria sua glória resolvê-lo. Discurso nenhum, no entanto, o resolvia. Ele achou sua solução num caminho covarde..., o de reconhecer a impossibilidade de solver o problema. Na dúvida, largou a metafísica, razão de loucura e ficou na certeza vazia. Não sabia, o Benteja, como se situar no meio dos que sabiam lidar com essa ceteza sempre pronta.
- Ser nada, que seria, ser tu, menino, e não o ser por já ter passado o tempo?
Benteja inventou viagens que nunca fez. Cursou coisas pelas quais nunca passou, contou namoros que nunca teve. Nunca foi, resumia.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Ser nada, que seria?
Continua a história
Sidney Azevedo
Eu mereço a calada
(Continua...)
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1 comentário:
Benteja nem ao menos sabia o que queria ser. Sonhava os sonhos dos outros, criou seu próprio.
Ele ganhou asas quando não se preocupou mais com o mundo, então esse velho desconhecido tornou-se seu.
Era só ele e a vida. Num amor supremo e inabalável.
Benteja soube que o vento sobrava para ele e que cada minuto brincava consigo, como ele com a história.
Um emaranhado de espasmos e risos que só Benteja sabia a razão e o fazia bem. Como o fazia bem.
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