sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Imagine-se...

Diálogo possível (talvez amanhã...)

Encontraram-se ontem, mas poderia ser hoje, a um ponto de ônibus, um jovem de trinta anos e um velho homem aos quarenta. Até ao que sei, desconheciam-se.
Disse o primeiro, com grande naturalidade, para puxar conversa:
- Ontem foi dia de São Francisco.
- É?, esteve a cidade de aniversário? e não houve festividade?
O jovem achou curiosa a reação do homem. Fez alguns cálculos: o homem tem uns quarenta anos, veste-se como um hippie convertido ao Capital - pois que usa calça jeans e camisa semi-social -, fuma um cigarro - o que não nega sua condição anterior. Aí um processo certamente tradicional. Homens e mulheres a colher muito fumo por pouca moeda e uma viagem deste mesmo fumo por paisagens que não são todos a poder ver. Embalamento houve do cigarro na forma tradicional. Mas que importância tem isto, ah!, sim, o fumo... Não era esse o fumo tradicional daquela tribo. A substituição foi exigência da nova religião. Claro!, mas uma religião esta em que entrou sem Deus um que haja a ser. Os hippies ainda o tinham. Não teve dúvidas: estava diante de um ateu.
Nisto se passou mais uns segundos, para formular o primeiro homem esta frase:
- Não estou a falar da cidade, asno.
- E que é esta infâmia?
A resposta deste foi instantânea. E não houve então resposta. O segundo homem fez também seus cálculos. Observou no primeiro um escapulário, item mais evidente da vestimenta - aliás bastante tradicional - que era, entretanto, igual a sua. Duvidou que o método de que usava para classificar aquele sujeito fosse o melhor. Em termos de estereótipo era como ele próprio. Pelos elementos não havia o que dizer. Humildemente, perguntou:
- E de que falas então?
- De São Francisco, protetor dos animais.
- Ahn...
O segundo entendeu: estava diante de um religioso. Com ele não podia falar. O primeiro esqueceu o fato: não tinha já com quem falar. Ficaram quietos. Chegou o ônibus e, abarrotado que estava, perderam-se.
Sidney Azevedo
Criador de possibilidades de vida
(E religiosos somos, não adianta furtar-se...)
Post-scriptum (para não se esquecer do como é): nada há aqui, contra ateus e católicos. Qualquer que se diga neste sentido é intriga da oposição.

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