domingo, 7 de outubro de 2007

Mudanças de apercepção

O céu não mais é o mesmo

O desestabelecimento das linhas deu-se a dias escuros.
O dia era escuro porque o sol namorava uma certa estrela durante algumas horas do seu trabalho. Que nessas horas, as nuvens reúnem-se para protegê-los, pois têm consciência de que o mundo seria caótico caso seus encontros fossem descobertos. As nuvens, entretanto, não podiam agüentar o calor, pelo que se esvaíam dali em forma de gotas. A estrela neste momento vai-se embora, a pensar que não mais pode ficar. E que, quando a saudade de ambos é enorme, chove e pára, chove e pára e chove e pára e chove... Pois o contingente de seus muitos encontros mora na responsabilidade de ambos para o mundo. E este olhar o céu foi agradável, pois tinha-se certeza de que não era a chuva que logo vinha algo de ruim. No inverno, pensava-se, o sol e a estrela encontram-se sem tanta culpa.
Entretanto, alguns de Joinville duvidaram da história. A visão dos sambaquis que até então persistia lhes parecia... faltou-lhes a palavra...
- Mítica!, falou um deles.
Então os nativos que invadiram e ocuparam aquela terra pensaram, pensaram, pensaram, continuaram a pensar, pararam para comer um fruto alucinógeno (ninguém consegue pensar tanto tempo... até porque não tinha café...), voltaram a tentar entender e assim interpretaram o céu escuro:
- Não, o sol é sozinho ao dia, e sua tristeza é tão grande que suas lágrimas são chuva durante o dia. As nuvens são como lenços dele, que não quer, também, que o vejamos triste.
Gostaram do que construíram, aceitaram, e assim se olhou o céu de Joinville ao inverno. Mas logo acharam aquilo insuficiente... Que resposta melhor encontraram? Bem, um padre jesuíta que vagou pela região em 1173 disse aos nativos que o sol vagava no espaço durante o dia e que a cada volta que dá, fadiga-se. Sua luz já não é tão forte.
- E isto é sinal do retorno próximo de nosso Senhor Jesus Cristo - bradou -! Próximo está o dia de os mortos reviverem em suas carnes!
Em meio à explicações teológicas e teleológicas (a respeito do fim deste mundo para o nascimento de um novo), precisou fugir, pois os vivos (e os mortos que representavam) da taba ficaram insatisfeitos com a ressurreição. Fugiu para o Paraguai onde o Vaticano mantinha um posto de alfândega desde 1012. Era aquela visão dele tão... mítica como as primeiras aos nativos. A mim é-o, a vós então...
Chegou então um quarto mito, fedido hálito do norte, que dizia:
- O sol é fixo, e giramos em torno dele. Ele não é humano, e por isso, não pode ter sentimentos, ele só nos manda luz, uma luz tão forte que não nos deixa ver estrelas. O céu escurece porque o sol está atrás da parte da Terra em que estamos. Ponto!
Era insuficiente ainda. Mas aquilo deixou a todos tão perplexos, que creram naquela visão. Parecia tão verdadeira... Todos os setentrionais que vinham falavam com tanta convicção... Mas era insuficiente aos nativos. Mas os nativos logo... desapareceram!... Para onde foram é algo que quero saber. Devem ter partido em seu veículo espacial para encontrar a verdade do universo. O que ouviram daquela vez pareceu-lhes além de insuficiente, tolo, pois desencorajador da vida.
Mas hoje um profeta - um remanescente cultivador das velhas lendas - disse ao irromper do meio dos novos habitantes:
- Vós não sabeis, vos deram a saber, somente se sabia. Mas, agora, sabeis!
Todos calaram-se, pois sabiam que era verdade. Sabiam acreditar numa coisa, mas n'algo que lhes não era próprio. Adotaram e adoraram um saber que nasceu sem ser ali. Que imposto a ser ali, não era. Não tinha sentido. Ou então ganhava novo sentido. O céu de Joinville é único, em seu contante devir. E o céu de Lisboa é único em sua manta azul que some de chofre. Mas o de Londres, ao que parece, deve ser sempre cinzento. E cinzento também os daqueles que acreditaram nesses celtas. Pois que turvaram a visão do azul dos outros lugares. Mas os mitos são essenciais, e era sobre isto que devia falar. Porém, já não preciso falar mais nada. Só há isto a ver: as linhas.
Ou não falei de linhas ao início? Bem, são linhas de classificação: o mito e a verdade - divisão maniqueísta, não achais? A verdade é um mito. E todo mito é verdadeiro. E só pode ser verdadeiro ou mítico exatamente porque há. As linhas, é-vos evidente, já se perderam.

Sidney Azevedo
A tentar ver coisas, coisas demais, às vezes...
(Escrito em 19 de agosto de 2007, enquanto caía granizo...)

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