Mas este blogue necessita de algo mais inteligível…
Por isso volto, após algum tempo, a publicar uma crônica.
Curandeiras inquisidoras
Não sei se é só comigo, mas ocorre que uma certa senhora (não sei se certa é certo termo, mas assim fica) aparece quase sempre pelos lugares em que estou no Centro. À entrada da Catedral, uma vez, a encontrei. No Terminal, umas três. Próxima ao Mueller, duas. Entroutros locais de que a memória não é capaz de se lembrar, mais de dez. Eu estaria seguido?… Ou seria ela seguida? Seguidamente víamo-nos: eis a verdade.
Quereria algo? Não sei, mas a julgar pelas vestes – embora julgar seja algo subjectivo –, qualquer um a poderia afirmar mendiga, ou, melhor, catadora de papel ou algo semelhante. Não me parecia, entretanto, isto.
Se não enganado estou, deveu ela vender Trimania. Mas pouco importa, vamos às vestes. Uma blusa entre o marrom e o amarelo. Saia bordada ao estilo bicho geográfico (perdoem-me, mas minha noção de estampas é horrível). Sempre uma bolsa, tecidos ou alimentos – quando não alimentos tecidos em restaurantes. Cabelos grisalhos à altura dos ombros e um arco a ordená-los. Estava mais para uma feiticeira. Uma dessas bruxas benignas de que falam os manés.
Se não enganado estou, deveu ela vender Trimania. Mas pouco importa, vamos às vestes. Uma blusa entre o marrom e o amarelo. Saia bordada ao estilo bicho geográfico (perdoem-me, mas minha noção de estampas é horrível). Sempre uma bolsa, tecidos ou alimentos – quando não alimentos tecidos em restaurantes. Cabelos grisalhos à altura dos ombros e um arco a ordená-los. Estava mais para uma feiticeira. Uma dessas bruxas benignas de que falam os manés.
Bem, minha avó conhece alguns benzeres, mas nada que atiçasse à Inquisição uma possibilidade de ressuscitar como o Cristo que cria defender. Seria a senhora uma Inquisidora? Não… Aparência benigna. Mas é um olhar diferenciado o com que olha. Lembra as histórias das Pítias délficas, as que contavam os destinos tramados aos gregos.
Atemorizante… Quando entro no ônibus, adivinhem quem acho à minha frente? Não, não era Sílvio Santos, era a senhora, cujo nome não hei de conhecer. Falava como que apercebendo possíveis relações entre mim e a moça que a meu lado estava no ônibus. Uma muito bela, não nego. Mas ela não falava alto, de modo a não poder entender o que estava a dizer. Sem dúvida, nada era sobre tecidos alimentícios… Mas passei a ter medo de olhar para o interior do ônibus. Queria chegar logo em casa…
É sofrer por não saber o que fazer. É como que diante da televisão estar preso à poltrona, sem poder buscar a batata por que o ecrã algo despeja de interessante aos olhos, mas leniante à Razão. É horrível.
Terminal Sul. N’outr’ônibus – perdoem o modo de escrita – fico a pensar, seria uma maldição? Não, não era, pois seu olhar era esperançoso, embora me sentisse mal de encará-lo. Ela só queria o bem meu e da moça. Feliz em seu papel de Santo António (aquele que após sumiço, já reapareceu, e que foi motivo da última crônica, inclusive).
Sidney Azevedo
Retornando às origens
(Um texto artístico – nada de filosofia por hoje…)
1 comentário:
Gostei das origens que eu desconhecia.
Gosto sempre do que tu escreves na "assinatura". rs
Interessante crônica.
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