Interesses e razões de estudo
Eis que se ergue, soberana, uma dúvida no horizonte: adianta eu definir um curso de pós-graduação sem ter antes definido o objeto que eu quero estudar? Eu já cometi um erro terrível quando de minha monografia que foi não ter elaborado um projeto e eis-me aqui à voltas tentando descobrir qual é o melhor caminho para iniciar um, desta vez para um nível mais elevado, o da pós-graduação. A resposta não é difícil. É preciso saber o que se quer estudar. Se eu não souber, não terei como desenvolver o projeto e qualquer tentativa de adaptar um objeto depois será cercada de sofrimento (sim, porque foi isso que ocorreu comigo quando do tempo da monografia).
O problema é que eu não sei ainda o que quero estudar.
Lembro-me que um dos melhores conselhos quanto à escolha do objeto de pesquisa foi dado pela minha professora de antropologia da faculdade, Maria Elisa Máximo, que também lecionava as disciplinas de pesquisa. Dizia ela que era preciso que o pesquisador tenha tesão pelo objeto de estudo. É, a palavra era essa mesmo: tesão. É forte, mas é o mais preciso que já ouvi. Muitos colegas meus realizaram grandes trabalhos de pesquisa nem tanto por terem o melhor ferramental teórico em mãos, mas sim porque tinham uma motivação toda especial sobre aquilo que pesquisavam. E muitos dos mestres e doutores que conheci eram pessoas que eram efetivamente apaixonados pelas questões que trabalhavam. Tudo isso me leva a crer que tal princípio é realmente válido.
Mas, e quanto a mim? Quando eu digo que não sei o que eu quero estudar, em parte é porque nenhum assunto em especial me provoca aquele tesão do qual Elisa falava. Em outras épocas seria mais fácil delimitar a questão a pesquisar. Lembro-me que durante algum tempo a palavra progresso, só de ser dita, já me provocava repulsa. Na ocasião, creio que um trabalho sobre a presença de tal conceito no nosso cotidiano teria sido facilmente elaborado. Muitas das leituras que vim a fazer depois me ajudaram a esclarecer ou confirmar minhas reflexões sobre tal conceito. Hoje, pois, já não é tão fundamental responder a essa questão (embora espíritos críticos não devam jamais se acomodar com uma definição). Ou seja, aquele tesão que eu tinha por tal discussão já não existe.
Porém, afigura-se-me uma possibilidade real de objeto. É verdade que tal discussão me animou muito, em especial na fase final da faculdade e foi o impulso principal para a definição do objeto que pesquisei na monografia, embora não tenham uma relação imediata visível entre si: são as questões que nascem da compreensão que temos da ciência e do que torna algo científico. Em verdade, talvez as discussões sobre ciência sejam para mim o aprofundamento dos problemas da noção de progresso. Uma situação em que a ponta do iceberg já era quente demais, impelindo um homem acalorado pelo conhecimento a buscar espaço mais frio na parte submersa do monstro de gelo.
Ciência e epistemologia foram dois pontos de energia que encontrei naquela fase. E são-me questões candentes ainda! Tanto que ontem, enquanto eu revisitava um texto chamado A Vontade de Saber (transcrição de uma aula de Michel Foucault - coisa breve, não mais de oito páginas...), tornou-se-me clara a necessidade de pensar sobre a representatividade da ciência atualmente. À medida que o autor perguntava qual a motivação do conhecimento (por vezes explicada por uma propensão natural do ser humano ao conhecimento...), pensava eu nas inúmeras e complexas relações que nascem do discurso do conhecimento com a produção de conhecimento em si e com a própria concepção de conhecimento (que já carrega consigo assaz controvérsia).
Teria muito que desenvolver. Muito por ler e estudar. Mas me parece, felizmente, já não ser tão impossível articular um objeto no atual momento. Lembrava-me que ontem, também, refletia sobre a possibilidade de utilizar, como objeto empírico de estudo, as monografias já realizadas na faculdade, como, talvez, meio para pensar os parâmetros de produção do conhecimento num curso de jornalismo de mais de dez anos. Já de antemão podemos perguntar que são parâmetros, que é produção de conhecimento, dentre outras reflexões possíveis... Enfim. Uma vez concatenadas tais questões poderemos, enfim, formular um projeto decente.
Sidney Azevedo
Gestação
(Melhorando).
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