Contra hiperteorização
Revisitei hoje um texto que me fez refletir sobre a construção do objeto de pesquisa. O texto é de Vera Veiga França e se chama "O objeto da comunicação/A comunicação como objeto" e é o terceiro de uma série de artigos coordenados por ela, por Antônio Hohlfeldt e Luiz Martino (corrijam-me se houver erros nestes nomes) num livro intitulado "Teorias da Comunicação: Conceitos, Escolas e Tendências". Li-o pela primeira vez ainda quando estudava a disciplina de Teorias da Comunicação, no primeiro ano da faculdade, lá no longínquo 2007. Creio que quase todo estudante de comunicação, se não estudou algo desse livro diretamente, pelo menos leu o texto de alguém que passou os olhos por ele. Então, não será desconhecido daqueles que venham a cair no meu blog por conta do título do livro ou porque estivessem pesquisando referências em teorias da comunicação.
[Eu, particularmente, não sou referência. Estou na luta para elaborar um objeto de pesquisa e, quem sabe, e tomara!, este texto inspire algo para vocês, por mais visceralmente pessoal que ele seja].
A reflexão que me surgiu das linhas de Vera França foi quanto à natureza do processo científico, da produção de conhecimento. Escrevia ela que o conhecimento científico se difere do senso comum por uma razão simples: embora ambos se refiram a situações que nascem da realidade (não, por mais divertido que seja, não discutirei neste texto o que é realidade ou o que é conhecimento), pelo senso comum, a pessoa não tem necessidade de se afastar dessa realidade, ao passo que, pelo conhecimento científico, a pessoa deve, necessariamente, se afastar para compreender a realidade e então retornar a ela. Alguém poderia dizer: "Mas que tem de demais isso?" O que tem de demais é que esse texto defende uma posição equilibrada entre a teorização do objeto e a tautologia retórica do senso comum.
Em situações extremadas, a teorização pode conduzir a um conhecimento sem vinculação com a realidade, enquanto as pesquisas que não desenvolvam seu potencial teórico-crítico podem acabar resultando em versões polidas do senso comum. Essa concepção é importante para mim porque eu tenho uma tendência impertinente a mergulhar na teorização. Sofri, por conta desse fato mesmo, na elaboração de minha monografia. Isso porque, normalmente, o processo se inicia com a escolha de um objeto empírico que se queira investigar. Então se constrói um objeto de pesquisa a partir dele e consequentemente o restante do projeto.
O problema da minha monografia em particular foi ter partido de um objeto que já era de natureza teórica (no caso o conceito de indivíduo como valor), tendo posteriormente encontrado um objeto empírico que a ele se adequasse. Isso matou o trabalho naquela ocasião. Ele teria sido mais completo, sem a presença do objeto empírico. Mas eu temia que a natureza abstrata do objeto levasse o trabalho a não ter nenhuma ligação evidente com a realidade. Ao fim, o monstrengo não tinha ligação efetiva com nada.
A questão que fica agora é, que tipo de objeto eu posso trabalhar. Já tenho consciência de que o ideal é que seja algo visível na "realidade" e que me provoque constantemente. Tenho uma certeza quase absoluta de que será algo relacionado à ciência, ao conhecimento e à academia. Porém, o mestrado mais viável, neste semestre, é o de jornalismo da UFSC. De certeza, dentre os programas que conheço, é aquele que estará aberto este semestre. A menos que outro seja aberto para seleção nestes seis meses, terei de elaborar um projeto para esse curso.
Então, teríamos dois elementos básicos para a formação do objeto de pesquisa: jornalismo e ciência/conhecimento/academia. A relação mais imediata que podemos perceber entre esses jornalismo e ciência diz respeito ao cadernos e seções que configuram o noticiário de ciência e tecnologia (sim, porque no mundo jornalístico essas duas palavras são ainda inseparáveis) ou a necessária participação de acadêmicos como detentores do saber. Já conferi alguns trabalhos que desenvolvem questões acerca dos processos de legitimação do saber científico-tecnológico e da ação do jornalismo nesses processos, mas não me convenceram de fazer o necessário.
Ainda é preciso saber se mais algum curso começa nesse período, mas por enquanto trabalhemos com essa hipótese.
Sidney Azevedo
Por hora basta.
(Mas não basta parar!)
Sem comentários:
Enviar um comentário