Uma cratera nos sentimentos
Eu passei parte da minha vida estranhando o fato de que muitos conhecidos meus não conseguiam viver sem ter alguém por perto. Alguém, digo, com quem se compartisse um relacionamento amoroso. Hoje, todavia, eu entendo os lamentos de parte deles. Ainda não acredito que sou capaz de ter escrito essa última frase com sinceridade... Sim, estou sendo sincero. Passaram-se já dois meses desde que rompi com Deyse e eu começo a sentir falta de uma companhia mais íntima. Eu pensava que as coisas fossem diferentes, isto é, que tal falta fosse forte quando ainda recente o rompimento, acompanhada das boas lembranças do relacionamento, e que se fosse atenuando com o passar do tempo, com o crescimento de uma falta que não fosse atrelada à memória específica do que foi vivido, mas talvez à memória fugaz do quão bom é poder dividir alegrias e angústias, certezas e dúvidas, saberes e ignorâncias com outra pessoa. E que, ao fim, não houvesse mais sentimento de falta algum até que novo ciclo iniciasse. A lógica me fazia entender assim. Porém...
Tal teoria não perdeu totalmente o seu sentido. Eu senti profundamente no primeiro mês. Havia um processo que é nítido para mim agora. Recordava eu dos beijos, dos passeios, das intenções, das lutas, das esperas, era o momento terno. Seguia-se uma angústia que nascia do pensamento de não mais poder ter momentos similares. Era o momento triste. E vinha então uma calma, aberta pela razão que dizia: "Acalma-te, guarda as lembranças, esquece a tristeza, lembra-te que há o que percorrer". Era o momento de serenidade.
No segundo mês, já não me eram tão profundas as reflexões sobre esse relacionamento - não que eu não refletisse sobre ele (como ainda faço) mas já não me ocupava tanto o pensamento como no primeiro mês. Eram, porém, reflexões leves e doces. De alguns dias para cá, porém, meus sentimentos me parecem desarranjados. Digo isso porque parece que neles se abriu uma cratera. A tal ponto que precisei escrever para entender o que está acontecendo. Sim, eu não entendo. Perdoem-me os eventuais leitores do blog por abrir assim meu coração, mas precisei fazer isso. Tem doído deveras em mim não apenas porque me falte ter alguém, mas porque eu, hoje, tenho poucos amigos - quiçá seja por isso mesmo que eu tenha de publicar estas palavras... Mesmo os mais caros conhecidos estão hoje longe, tanto na distância quanto na coragem que eu deveria ter para chamar os que estão perto.
Se vocês sabem o que é isso, me expliquem, preciso saber. Se já viveram algo assim, me contem como superaram, se superaram. Se for só comigo, talvez eu precise de um psicólogo, então peço sugestões acessíveis financeiramente.
Sidney Azevedo
Uma crise incomum
(Como assim?)
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