sábado, 5 de julho de 2008

Anticontrato: contato inexistente

Um texto de rescenso

Faltava ao escritor uma frase com que começasse seu texto a ser entregue em exíguo espaço. Não há, até aí, novidade alguma..., reconheço. Mas a novidade é que a dita frase, sendo já existente faz-lhe por hora uma ara que lavrar. Saiu, pois, sem para onde ir ter, a escrever coisas, talvez belas aos ouvidos e à vista, mas doridas à consciência que as quisesse em algum estúrdio instante entendê-las: "as sardas de Sardenha pouco tem de sossegadas quando ao mar tira-lhe a vista seu sal".
Tem-se agora um novo modo de chorar em palavras, esparso, como bem indica o próprio método que usou: esta lhe foi, com alguma devida correção gramatical que se exige, a impressão grafada em sons que cedeu ao fim de um suspiro clichê o editor a si. E de si perdeu o controle recuperando a pronome à hora em que com o punho fecho e no ar o braço estendido entendeu que o verde abaixo de si não era relva, pois deveras escuro, limo não, pois faltava brilho e a textura não era viscosa, mas era ainda, quando se chocou, um charco de água tingida em verde, talvez de suas algas embrionárias. Vira-o quando passara a uns trinta metros da casa de prensas da qual era o editor o dono. Perdera o si e a alegria das páginas, altas já com o rasante que passava, umas aos fios condutores de eletricidade, aquelas, creio, que reclamavam do exagero da expressões de que se necessita para fazer ao outro entender, o mais especificado possível, aquilo, aos quilos e médias, que se quer dizer. Outras, que clamavam paciência à liberdade do tempo, iam se encaminhando já à porta da torre eclesial do relógio - e o sino já a bater... Algumas, no entanto, sobravam ainda à mão do editor. E as findas restantes, cobriam ora a grama, ora as flores do jardim, se sobrepondo entre as ramas e as quilhas de barco que só o eram com as artes do jardineiro. Mas havia as que queriam em sua imobilidade atapetar o restante fundo da laguna além das pedras que já tal função cumpriam, e bem...
Perdido o texto. Achou-se, umas horas mais tarde, estarrado na orla da rua, o mesmo escritor, com duas garrafas ao lado, atrapalhando o caminho de ausentes transeuntes que deviam estar em casa, quietos, aquecidos e aguardando o mormaço do dia próximo. O que lhe restava era a companhia desagradável de um guarda a lhe dar pontapés contínuos ao dorso para que acordasse. Findo, cambaleou um pouco, resmungou, cedeu as restantes notas ao guarda, para não ter de passar frio em um a cela, e foi à casa sua. Chegando lá, viu a luz. E a luz era a de si mesmo escrevendo, ainda a mesma lembrança do texto feito ser incompleto pelo reconhecimento da alegria como sentimento desnecessário, sem saber se era já futuro ou passado. Perdeu de vez o que era a ara do si.


Sidney Azevedo
Cretinismo concreto puro!
(Novo movimento a ir!...)

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