Morte às linhas de explicação
Tenho, em meus textos, enunciado algumas vezes o conceito de medo do Leitor, e não me parece uma idéia absurda, pois já a vi sob outros nomes (e que raio é um nome?...) citada por muitas pessoas. Alguns o chamam de Lógica, por pensar que todas as palavras jogadas por lá e cá, para fazerem sentido, precisam passar por esse crivo para terem o estatuto de falar aos outros por si mesmas. Outros denominam de Linguagem, por que só as imagens conceituais, geradas em parte pela própria palavra - e esse é talvez o mais violento dos pressupostos que já conheci - teria o poder de gerar um entendimento entre as pessoas. Por algum tempo pensei, enquanto escritor amador, na entidade do tal de Leitor. Seria natural, para que haja, pois, algum conhecimento, a necessidade de respeitá-lo... Arre! Por quê tanto limitam o conhecimento?...
Chegando a tomar contacto com o tal de jornalismo, estendi a ele o conceito de medo do Leitor. Hoje penso seriamente se o Leitor não é mais que uma ficção do molde - haja calma..., ficção do molde quer dizer o espaço conceitual territorializado do critério de um fazer. É comum o pressuposto (também pouco questionado) de que «milhares de jornalistas disputam diariamente a atenção de bilhões de espectadores» e se aguarda, quando não se planta a ficção (no sentido do latim facere - fazer, criar, construir) de que «todos precisam de informação». Pois, vê que o jornalismo supre seu "Leitor" auto-por-si-mesmo-construído (essa composição é esquisita, mas todos os sentidos interpretados são válidos), precisamente por construí-lo.
Nunca me pareceu que desejassem as pessoas alguma informação, e aproximar uma técnica qualquer - como a humanização, a etnografia, a literatura, ou o método que o raio venha a partir - dessa informação na esperança de suprir o Sr. Leitor é um esforço auto-entrópico porque o jornalismo insta em manter a informação como cabresto. O dado, aquilo que se deveria apresentar igualmente perante todos, só o é diante do deus que os cria: o autor dele. Ora, a perspectiva - e ela não está 'dada' no espaço delimitado - inverte a lógica do jornalismo: há quem o despreze por não querer ser informado. Um jornalismo sem pautas e exigências poderia tomar um raio de método - que não a apuração - e fazer um "diário" (ainda que de um só dia) sobre um facto (mantém-se o 'c' da grafia portuguesa para relacionar ao latim facere), tomar uma personagem, escrever ser a obrigação de ser didáctico ou facilitar a coisa ao ponto do ridículo...
Exactamente: o jornalismo se quer filosofia, arte, religião, sabedoria e mais que tudo isso, ciência, quando não deixa de ser, tão-só, o jornalismo: um conjunto de idéias pulando num local público (aquelas formas de conhecimento não se pretendem públicas sem um grão-instante de reflexão). Não penso cá razões económicas: parecem-me deveras batidas, porque, como o jornalismo, fornecem explicações..., pois explicações são a datação (o conjunto de dados) teorizada que a própria pessoa que a lê tem de montar - não há provocação de idéias, mas se exige uma operação matemática...
A crença do Leitor é o mal do jornalismo, não o fato da exactidão (isso qualquer um que tenha escrito sabe da dificuldade). Fui cretino? Se fui, melhor... «Jornalismo que não incomoda não incomoda não é jornalismo», diz o professor Mick. Se realmente é assim, espero ter feito jornalismo.
Sidney Azevedo
Notícia apela...
(Arre!...)
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