15 de março, de uma leitura descompromissada
Após algumas tentativas frustradas de escrever algo minimamente útil, sobrevém a intensa vontade de desistir (em verdade, desistir não é um processo intenso, mas desgastante, um desgaste de relevo lento, lento...). Mas me lembrei de um texto de outros tempos, que transcrevo na íntegra:
Autores até podem pretender querer ter um método para seu texto, mas ele sempre se rebela, descobre atalhos e vielas, salta uns muros, atravessa a cidade, corre pela passarela e daí à ponte sem intervalo claro entre algo e o nada que está a seguir. Uns perguntam: "que estás a procurar?" e outros: "foi por ali", acreditando ajudar. Diz só o que procura: "obrigado, posso fazer isso sozinho". Continua a corrida no forte, as palavras seguem do corredor ao canhão, donde pula ao cais do porto numa lepidez de antílope e aquele que o quis engaiolar vê-se preso à perseguição, aproximando-se do mar, dono do mar, consegue então ver ao longe que seu objeto se transformou em sal e dispersado está no mar. Secar o mar e continuar a busca? Não... o autor só vem e deixa o sal de sua lágrima estar no mar a conversar com aquelas ingratas criadas por ele. Busca a barca, molha a mão n'água e brada: "cá estou com o vazio das coisas de prender e a certeza sempre cheia da liberdade!".
Sidney Azevedo
Um texto que estava perdido
(mas que sempre se acha em bom momento...)
Post scriptum: após o texto Sentimentos, de Aneska Kolaceke.
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