E que é tempo para além da hora?
Apenas para anotar uma idéia que vem há tempo incomodando este sandeu:
é-nos possível viver sem tempo?
Continuo a pensar que uma coisa não existe para aquele que não a apercebe. Assim, não há o tempo para aquele que o não vive.
Quando assisti à defesa de banca da monografia de Paulo Horn, intitulada, infamemente, Tempo, esta questão se refletiu num espectro de mera narrativa... Descobriram por mim que o texto tem tempo. Descobriram por este enigma que o tempo existe no lugar em que sua indiscernibilidade mais é necessária: na contemplação do texto. Mas não descobriram, deram antes ao tempo tal existência. Uma leitura temporalizada de um texto me parece exatamente a morte de sua fecundidade de interpretações. Que esquizofrenia..., Foucault e Deleuze fazem-me sugerir uma geografia do conceito e ainda tem-se de lutar com tempos...
Ó, raios!, tempo deveria ser só o clima, como o era aos antigos. A tempestade do passado deveria ser o o-que-já-foi e a ventania do futuro o o-que-virá, e não essas estruturas, chaves de leitura, horas pré-agendadas que se constroem a partir de uma matematização de nossa relação com as coisas in nomine efficientiae, em temor ao ente indiscernível do Mercado – que o raio o parta!...
Minha avó fala do tempo como algo alheio, e mesmo em minha mãe e em meu pai ele assim parece. E quando entre minha família me encontro assim o sinto. É quando me jogo fora de casa que essa maldição aparece. Eu o ligo a uma série de entidades que não existem: à empresa da imaginação lá daquele que corre apressado, ao shopping a que vai a moça para comprar o ingresso do show antes de pagar as contas, à sociedade em que vi o socialista da turma de jornalismo falando ontem.
Ora, eis que vejo o aracuã a voar raso pelo Centro. Sim, eu tenho razão: tempo não há. E assim rumo à Catedral rezar. Isto ontem. Hoje agradeço pela terça-feira a Horn por toda essa reflexão. Mas deixemos o tempo a morrer, tal conceito é inútil já.
Sidney Azevedo
Uma nova questão
(Até à nova vir...)
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